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Mostrando postagens de Dezembro, 2011

O ÚLTIMO FILME DO ANO

O ano termina com 27 filmes em exibição na cidade de Salvador, sendo que destes apenas dois são dirigidos por diretoras. Coincidentemente os dois são de duas francesas. Trata-se de O Amor Não Tem Fim, de Julie Gravas, e Adeus, meu primeiro amor, de Mia Hansen-Love, que entrou em circuito nesta semana. Para aumentar mais ainda as coincidências, ambos estão no circuito de arte, no cine vivo, e ambos são exibidos no mesmo horário, com uma diferença de 30 minutos. Os dois são do gênero drama.
Curiosamente, compete à tradução cravar uma contradição entre os dois. Um deles anuncia a eternidade do amor, enquanto o outro mostra a sua finitude. A antítese  se mostra internamente no confronto entre a ideia de eternidade ligada a um casal de velhos e o de finitude associada a um casal de jovens.
O amor muda de acordo com a idade? A idade define a face do amor? O amor existe? O que é o amor?

Retrospectiva 2011

É de praxe no final do ano fazermos balanços e como não poderia deixar de ser, aqui estou para falar um pouco da minha relação com o cinema em 2011. As salas de projeção têm me afastado dos cinemas: crianças de colo aos choros, adolescentes com seus celulares ligados, atraso no início da sessão, pipoca caríssima, entre outras coisas. Tenho preferido aguardar os lançamentos em DVD que, por sinal, não demoram mais como antes.
Os filmes dirigidos por mulheres continuam sendo raros nas nossas salas de exibição, mas assisti a um que salvou a lavoura: O Amor não Tem Fim, da diretora Julie Gravas, já comentado neste blog. Além deste, pude ver e rever algumas pérolas, sendo que uma de um tempo distante e outra de um tempo mais recente: Doces Poderes (1997), de Lúcia Murat, e Desenrola (2010), de Roseane Svartman, respectivamente. Em uma zona mais intermediária, assisti Celeste e Estrela (2005) de Betse de Paula.
Tive o prazer em rever Yentl (1983), de Barbra Streisand, e ver finalmente Hotel A…

REBECA

Rebeca: do hebraico, a que provoca a união, a que liga ou conecta todo mundo
O  nome não poderia ser mais feminino, marcante e significativo. Rebeca é um nome de mulher, mas é também a forma abreviada da REvista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual da Socine - Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual - lançada recentemente pela entidade que nos brinda com mais esse espaço de interlocução. É uma publicação semestral com fluxo contínuo que pretende divulgar os trabalhos de pesquisadores sobre cinema e audiovisual. São ao todo quatro seções:

Artigos de Temáticas Livres – seção que reúne artigos de temática livre que não se incluam na temática do Dossiê;
Entrevistas – outro espaço especial de cada edição, trazendo entrevistas com autores, pesquisadores, realizadores, roteiristas, artistas e personalidades da área de fotografia, som e montagem;
Resenhas e Traduções - seção reservada à publicação de resenhas de livros e outras publicações da área, filmes ou filmografias…

Yentl, analisando a estrutura e o conteúdo

A breve reflexão abaixo foi feita a partir da leitura do livro Como se Aprimora um Bom Roteiro, escrito por Linda Seger e publicado pela Bossa Nova.



Se tomarmos como base o quadro acima, organizado em oito partes:  o elemento catalisador, imagem inicial, apresentação, ponto de virada 1, conflito, ponto de virada 2 e clímax, podemos ter uma visão da lógica interna, estrutural, que  revela a costura feita pela roteirista e diretora a fim de introduzir uma questão feminista no filme Yentl. Neste caso, identificar o elemento catalisador ajuda o espectador a observar uma ação importante no começo do filme que motiva a protagonista, neste caso Yentil, a responder às regras sociais, enquadrando-se nela ou subvertendo a elas. O fato de a protagonista ter sido proibida de ler os livros destinados aos homens, a faz indignar-se e questionar-se sobre as limitações impostas ao seu sexo, possível porque ela tinha sido iniciada em casa por seu pai nos estudos das escrituras. O que nos leva a pen…

Yentl, 1983, Barbra Streisand


 I stepped outside and looked around. I never dreamed it was so wide. Eu pisei fora e olhei ao redor. Eu nunca sonhei que era tão amplo
Religião, Cultura, Patriarcado. Estas três palavras poderiam sintetizar o filme produzido, roteirizado, dirigido e protagonizado por Barbra Streisand. Uma façanha rara no cinema, talvez única, em que uma mulher esteve à frente de quatro etapas e espaços diferentes da produção de um filme.

Lançado nos anos 80, mais precisamente em 1983, Yentl foi um filme ousado e desafiador, pois narra a história de uma mulher que desafia a lei judaica interpretando os livros sagrados.
Com imensa vontade de estudar, ser uma intelectual, Yentl teve problemas com a cultura patriarcal, pois apenas aos homens eram fraqueados os estudos da Torah e do Talmude, cabendo às mulheres buscar o casamento, procriar e cuidar do marido e da casa. A palavra Yentl é de origem israelita significa terna, gentil o que corresponde aos atributos da protagonista, embora apresentasse…

Meu primeiro filme

Quando fui ao cinema pela primeira vez tinha 08 anos. O filme era uma animação da Disney - Cinderela.
Eu não me lembro muito bem desta experiência, apenas me recordo de que era algo diferente das diversões costumeiras (subir em árvores, nadar na praia, empinar arraia, pescar siris, etc). Ia ver a história de uma menina criada por sua madrasta que muito a maltratava, assim com as suas filhas, e que um príncipe seria a solução dos problemas da jovem ultrajada, chamada de gata borralheira, uma mulher que andava suja de borralhos (cinzas) ou que representava a sujeira, a pobreza. Esta, por sua vez, seria superada por meio do casamento com o príncipe, afastando-se não apenas dos maltratos, mas da pobreza.
Outros filmes me impressionariam mais, porém projetados na televisão, a exemplo de Lessie, com Liz Taylor bem meninota. O sucesso do filme foi tamanho que ganhamos um collie e o chamamos de Apollo, sim, porque coincidiu com a época do projeto Apollo, nome dado ao foguete que levaria o hom…

Meu tio me falou de cinema

A vida da gente daria um belo roteiro para um filme, por isso que a matéria-prima do roterista será sempre o cotidiano das pessoas.
Era um domingo e estávamos visitando uma parente em um hospital e foi ali que começamos a falar de cinema.
O meu tio tem aproximadamente 55 anos e foi criado na Roça da Sabina, bairro do Chame-Chame, Salvador. No dia que nos encontramos no hospital, conheci uma de suas faces e fiquei impressionada como ele foi formado pelo cinema: ele gosta mesmo é de faroeste e possui quase todos os filmes em casa. Soube da animação "Rango" por ele e logo fui adquirir uma cópia, já que venho estudando também os filmes de animação.
Um dos momentos interessantes da nossa conversa aconteceu quando mencionei o filme "os brutos também amam" (Shane), protagonizado por Alan Ladd. Lembro-me de ter falado sobre a maneira pela qual a mulher tinha se apaixonado pelo protagonista, e do sofrimento dela quando ele partiu, no que ele me corrigiu  dizendo que todos na…

Minha tia me falava de cinema

Eu tinha 18 anos quando a minha tia-avó me falou de um casal de atores de quem ela gostava muito. Provavelmente estávamos conversando sobre cinema, mas não me recordo exatamente o quê. Imagino que ela, uma doceira nascida em 1914, não tivesse ido muito ao cinema em Salvador, até porque pegar o bonde da linha 12 para ir ao centro deveria ser muito difícil, além de outras possíveis dificuldades. A periferia era periferia mesmo. Nelson Eddy e Janeth MacDonald eram dois artistas de Hollywood que atuaram juntos em muitos filmes nos anos 30, quanto a minha tia-avó era uma jovem de vinte e poucos anos e deveria ter se encantado com um dos filmes protagonizados pelos dois.
Um outro filme pelo qual ela tinha muito apreço era Dio, Come Ti Amo, sobretudo pela música interpretada por Gigliola Cinquetti. Certa vez, quando a minha tia-avó ainda era viva, visitei-a com um namorado e enquanto estávamos conversando no sofá (era assim que se namorava, pelo menos na presença dos pais ou familiares), ela…

Amanhecer, Breaking Down

O filme que trata da primeira parte do último livro da escritora norte-americana Stephanie Meyer começa com o tão esperado e previsível casamento de Bella e Edward, para desgosto de Jacob, o lobo-amigo-de-infância que nutre um confuso amor pela protagonista. Confuso porque não se sabe se resultado de um imprinting, de uma amizade ameaçada com a aproximação do seu natural inimigo ou sentimento de propriedade fruto de uma competição com o vampiro.
Do ponto de visto ideológico, o filme destaca valores assegurados pelas instituições sociais: a família, a obediência (ao que é “certo”), o casamento e também deixa entrever que mesmo em caso de risco para a mãe, o feto deve ser considerado em primeiro lugar. As cenas são extremamente violentas porque mostram a protagonista magérrima que morre assim que dá a luz a uma criança. O aborto aparece como uma via impensável, mesmo que esteja destruindo a mãe, o que deixa claro a ideologia antiaborto do filme.
O filme também deixa muito claro que o ab…

Sugestões TCCEX - II curso cinema e mulher

Amores possíveis, Sandra Werneck
Carlota Joaquina, Carla Camurati
A Falta que me faz, Marília Rocha
Meninas, Tata Amaral
Olhar estrangeiro, Lucia Murat
Pequeno dicionário amoroso, Sandra Werneck
A Via-Láctea, Lina Chamie
Hotel Atlântico, Suzana Amaral
A Hora da Estrela, Susana Amaral
As melhores coisas do mundo, Laís Bodanzky
Bicho de Sete Cabeças, Laís Bodanzky
Chega de Saudade, Laís Bodanzky
Antonia, o filme, Tata Amatal
Uma Vida em Segredo, Suzana Amaral
Avassaladoras, Mara Mourão
Como ser solteiro, Rosane Svartman
Topografia de um desnudo, Tereza Aguiar
É proibido fumar, Anna Muylaert

O ENVELHECIMENTO EM UMA COMÉDIA-DRAMÁTICA


"Achei o filme muito feminino. Mulheres envelhecendo são vistas como uma tragédia e foi preciso uma cineasta mulher para ver diferente.” (Isabella Rosselini)


Assisti no dia 04/12 ao filme "Late Bloomers", já referido neste blog, da diretora Julie Gravas. Confirmando o que havia dito antes, o filme trata de uma questão central: o envelhecimento. Os personagens Adam e Mary,  vividos por William Hurt e Isabela Rosselini, respectivamente, formam um casal sexagenário que experimenta todas as mudanças trazidas com o avançar da idade: limitações físicas, lapsos de memória, perda de lugar no campo profissional, perda da visibilidade social, entre outras questões. Acontece que mesmo envelhecendo juntos, a forma de Mary e Adam responderem ao envelhecimento é diferente: ele se preocupa em não perder espaço (e poder) no âmbito profissional, empenhando-se em um projeto arquitetônico para o qual não consegue patrocínio, contando apenas com jovens voluntários que em um determi…