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Yentl, 1983, Barbra Streisand


Barbra Streisand na direção,
vestida de Yentl.
 I stepped outside and looked around.
I never dreamed it was so wide.
Eu pisei fora e olhei ao redor.
Eu nunca sonhei que era tão amplo

Religião, Cultura, Patriarcado. Estas três palavras poderiam sintetizar o filme produzido, roteirizado, dirigido e protagonizado por Barbra Streisand. Uma façanha rara no cinema, talvez única, em que uma mulher esteve à frente de quatro etapas e espaços diferentes da produção de um filme.


Streisand vestida de Anshel, portanto um homem,
a fim de poder estudar a Lei.
Lançado nos anos 80, mais precisamente em 1983, Yentl foi um filme ousado e desafiador, pois narra a história de uma mulher que desafia a lei judaica interpretando os livros sagrados.

Com imensa vontade de estudar, ser uma intelectual, Yentl teve problemas com a cultura patriarcal, pois apenas aos homens eram fraqueados os estudos da Torah e do Talmude, cabendo às mulheres buscar o casamento, procriar e cuidar do marido e da casa. A palavra Yentl é de origem israelita significa terna, gentil o que corresponde aos atributos da protagonista, embora apresentasse personalidade forte, determinada e inquiridora.


Decidida a estudar, ela se veste de homem
e se divide em dois: Yentl e Anshel.
Yentl é uma jovem ávida por conhecimento. Após a morte do pai, o seu primeiro professor, foge para outra cidade vestida de homem, Anshel, já que seria impossível morar sozinha em sua cidade sem que um homem a "protegesse". Pensando nisso, escapa assumindo uma nova identidade que pudesse facilitar o seu acesso ao conhecimento da cultura judaica, ou seja, a uma Yeshiva. O seu percurso torna-se mais difícil quando se apaixona pelo seu orientador nos estudos, um dos melhores, o único capaz de acompanhar o nível de conhecimento que Yentl acumulara quando estudava com seu pai. 

Embora o ano de publicação do filme seja 1983, o filme se passa no início do século XX e corresponde a um olhar restrospectivo, histórico de uma artista que viveu a juventude nos anos 60, em uma grande cidade como Nova Iorque, o que certamente lhe favoreceu o contato com ideias do feminismo, evento que denunciava os esquemas sociais que subordinavam a mulher à completa ignorância em relação ao homem que, por sua vez, detinha o conhecimento e o controle da mulher. O assunto é atualíssimo porque traz para o centro das discussões o papel da mulher nas religiões judaico-cristãs cuja base é patriarcal. As questões de Yentl podem ser observadas a partir da trilha sonora:


Aceita com distinção pelo Rabino
começa a estudar a Lei.

What's wrong with wanting more?
(O que há de errado em querer mais?)
If you can fly - then soar!
(Se você pode voar – então se eleve nos ares)
With all there is - why settle for
(Com tudo o que há - por que se contentar
just a piece of sky?
(com apenas um pedaço de céu?)


Casa-se para aproximar a esposa do amigo por quem
Yentl é apaixonada.
Esta busca em ultrapassar os limites, desafiando o código vigente, pode ser verificada em diferentes formas de expressão artística: no cinema, a exemplo de Barbra Streisand com Yentl e Callie Khouri com Thelma e Louise, e na literatura, a exemplo das brasileiras: Lya Luft em Retrato de Família; Sonia Coutinho em O Jogo de Ifá e Helena Parente Cunha com Mulher no Espelho. Em todas as ocorrências, as mulheres estavam na maturidade, mais precisamente com 40 anos, Barbra Streisand tinha 41 anos quando lançou Yentl. Esta incidência me faz inferir que se trata de uma fase dramática para mulher porque já afastada dos apelos da juventude que a absorvem e atrelam a um esquema que a infantiliza, domestica e frivoliza. 


No lugarejo onde morava os livros
chegavam numa carroça separados em leitura
para homens e mulheres. Eles liam  a Lei e as mulheres
os romances.

Yentl é um filme visivelmente feminista, diria um clássico do cinema feminista, que deve ser  visto sempre, pois mostra como a liberdade é um bem precioso e que o destino é construído pela própria mulher, capaz, portanto, de modificá-lo a qualquer momento.

É importante dizer que a história de Yentl traz elementos autobiográficos da diretora, já que Streisand tem ascendência judaica e estudou em uma escola judaica ortodoxa de meninas - Bais Ya’akov - na qual as mulheres aprendiam a interpretar as escrituras (Talmude e Torah) - o que lhes era proibido - e mesmo a ter uma profissão. Os estudos acadêmicos eram vedados. O fato de permitirem que as mulheres estudassem as escrituras nos EUA foi mais por razões econômicas e culturais, já que a intenção era a de que elas sustentassem as famílias, já que os homens tinham ido para a guerra, e a manterem-se fiéis à tradição judaica diante dos apelos culturais de outras tendências religiosas e representativas dos EUA. Inevitavelmente, o feminismo se desenvolveu neste ambiente de formação intelectual das jovens que questionavam o seu lugar no mundo, na medida em que os estudos das escrituras colocavam no centro das discussões aspectos filosóficos, ontológicos que levariam as mulheres a se perguntarem sobre a sua condição. Streisand vem desse legado cultural e por isso pode inscrever em seu filme uma protagonista que parte em busca da liberdade, colocando o desejo pelo conhecimento acima de qualquer outro desejo seu.

Ficha Técnica


título original:Yentl
gênero:Musical
duração:2 hr 14 min
ano de lançamento: 1983
site oficial:
estúdio: MGM
distribuidora: MGM
direção: Barbra Streisand
roteiro: Jack Rosenthal e Barbra Streisand, baseado em livro de Isaac Bashevis Singer
produção: Rusty Lemorande e Barbra Streisand
música: Alan Bergman, Marilyn Bergman e Michel Legrand
fotografia: David Watkin
direção de arte:
figurino: Judy Moorcroft
edição: Terry Rawlings
efeitos especiais:

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