terça-feira, 23 de setembro de 2014

VALENTE E O DESTINO DE UMA MULHER

É impossível não gostar de Merida, uma jovem escocesa ruiva que muito cedo aprendeu a gostar de viver sem as regras de bom comportamento feitas para as mulheres. Ela encontrava mais prazer em atirar flechas, montar cavalo, enfim viver uma vida fora das tarefas domésticas. O seu pai a estimulava a ser livre, contrariando a mãe que a queria casada. Merida não pensa em se casar, e o filme também não aponta para o que ela poderia ser, na verdade compete a ela traçar um outro caminho que ela não sabe ainda qual será, mas está convicta que não será o mesmo trilhado pelas mulheres que a antecederam.

A mãe de Merida não consegue entender isso e exige da jovem que se case. O conflito chega a uma situação limite que a jovem parte em busca de um feitiço que faça a sua mãe mudar de ideia. O feitiço acaba transformando a mãe em um urso, o maior inimigo dos clãs da região.

O processo que é mostrado para o espectador é uma árdua aprendizagem entre mãe e filha e ambas passam a se conhecer fora dos muros da casa, na floresta, símbolo do perigo e também da liberdade. A casa representa a cultura, onde as tensões de gênero são profundas. A floresta une as duas e nela a mãe aprende a ser menos exigente e rigorosa com a filha e consigo mesma e a filha aprende a compreender a mãe. Há uma cena muito interessante que Merida pede que a mãe experimente comer peixe cru e a mãe (no corpo de um urso) faz uma cara de nojo. Nesse momento, Merida se lembra das palavras da mãe quando ela não queria comer algo forçado e lhe retorna com as mesmas palavras. Colocar-se no lugar do outro, estimula a empatia entre as duas, e fazem com que se conheçam mais.

O feitiço só poderia se quebrar se a tapeçaria que trazia a imagem da família, que fora rasgada em um momento de fúria de Merida, fosse novamente unida, isto é, costurada.

No final, Merida realiza o contrafeitiço e a família se une novamente. A mãe menos vigilante quanto às regras, inclusive isso é mostrado através das vestes mais simples e penteado mais solto (ela usava um coque, mas depois prefere deixar os cabelos soltos) e até mais jovem. Mãe e filha passam a ser mais amigas, mais cúmplices.

É um filme que certamente marcará a história da animação, por ser muito mais que uma história bem feita, com recursos visuais impecáveis, mas por trazer um protagonismo de mulheres com uma dimensão política de gênero muito visível. Elas possuem uma força extraordinária: resolvem o futuro dos clãs, administram a casa, são mais eloquentes, inteligentes, hábeis e sensíveis.

Valente é a história de Merida, e também a história sobre o exercício da maternidade.

O LEGADO DE NORA EPHRON

'You look at a list of directors and it's all boys"*  
(Nora Ephron)

*Você olha para a lista de diretores e são todos homens.

Nora Ephron sabia que a indústria cinematográfica era machista, e nos EUA não seria diferente. Antes de ser diretora, Ephron roteirizou filmes dramáticos, como Silkwood: O Retrato de uma Coragem, de 1983. Os anos 80 serão profícuos para as mulheres que viveram a maturidade nestes anos, pois a visão que elas têm naquele momento são reverberações dos movimentos sociais, sobretudo feminista, dos anos 60/70. Assim, neste clima de contestação, essa novaiorquina escreveu a história de uma mulher, vivida pela atriz Meryl Streep, (com quem se encontraria novamente em Julia e Julie, em 2009), uma mulher, funcionária de uma fábrica de componentes nucleares em uma pequena cidade do interior dos EUA. Ela passa a ser representante sindical e luta por melhores condições de saúde e de trabalho para os funcionários da fábrica. Durante todo os anos 80, Norah Ephron se dedica ao escrever e produzir filmes, dentre eles o popular Harry e Sally (1989), uma comédia romântica dirigida por Bob Reiner.

Neste filme, Sally (Meg Ryan) é uma jovem recém-formada que pega uma carona do seu colega de universidade Harry (Billy Cristal), namorado da amiga de Sally. Antes de entrar no carro, Sally se despede de seu então namorado. Harry e Sally ao chegarem em Nova Iorque se separam e quando se reecontram ambos estão sozinhos. Ela já está com  aproximadamente trinta anos e começa a sentir a angústia do tempo, por isso, por pressão das amigas, decide sair com homens em busca de um relacionamento estável.

Sally traz o mal-estar das mulheres que nasceram pós revolução feminista, que são independentes, mas querem ao mesmo tempo viver um relacionamento amoroso e estável. Deste modo, podemos dizer que ela é produto das contradições de seu tempo, pois mesmo sendo instruída e emancipada financeiramente, não conseguiu se desvencilhar das armadilhas emocionais que a condicionavam a depender afetivamente do homem. Isso porque os homens não aceitaram (e ainda não aceitam) que as mulheres sejam independentes financeiramente e emocionalmente deles.

Este filme sofreu duras críticas das feministas e confesso que na época senti o mesmo. Era angustiante, violento ver mulheres maduras sentadas em um bar com um fichário de nomes, em busca dos homens disponíveis na cidade para que pudessem se casar. À medida que iam descartando os candidatos, o desespero e a decepção cresciam.

Contudo, ao mesmo tempo que a cena era penosa para as mulheres maduras que estavam sentadas à mesa de um bar e que desejavam se casar em razão do relógio biológico apontar para o pouco tempo que restava para procriação, a cena traz essa contradição e diria denúncia. Como explicar que mulheres emancipadas profissionalmente estivessem discutindo em uma mesa de bar questões que as prendiam a uma ideologia? Essas mulheres herdaram a abertura obtida por meio de lutas e enfrentamentos das suas predecessoras que viram na instrução e na profissão uma forma de alçar vôos até então negados pela sua condição feminina. As mulheres dos anos 80/90 herdam a liberdade de suas antecessoras, mas não conseguem resolver o impasse de gênero, já que os homens pareciam não acompanhar a nova mulher que se apresentava diante dele. Assim, muitas entraram em conflito porque o seu empoderamento  afastava os homens, assustados com tanta liberdade e vontade, gerando problemas no plano afetivo, já que não correspondidos.

Seis anos depois de Silkwood, Nora Ephron muda a direção para as comédias-românticas que muito raramente abandonará.

Aos 71 anos, Ephron começou a falar de relacionamentos, a flertar com o cinema norte-americano, ao fazer clara referência, por exemplo, ao filme Tarde Demais Para Esquecer, quando Gary Grant e Deborah Kerr marcam um encontro no alto do Empire State, mas ela não vai porque  sofre um acidente. No filme de Ephron, Sintonia de Amor, novamente com Meg Ryan (Annie), a diretora muda o final, invertendo a situação: é a mulher que espera o homem, Sam (Tom Hanks) e o seu filho que se atrasam.

Ephron falava de um poder das mulheres, mas de uma forma muito velada e menos combativa, que incluía uma convivência com o homem. Ela não acreditava em um jogo de inversões no qual o poder das mulheres dependesse da subalternidade masculina.  Nora mostra que o poder da mulher não precisa ser o mesmo estabelecido pelos homens há séculos, é uma tentativa de ser feminista dentro de uma estrutura feita para controlar a mulher: o casamento e a família, por isso, talvez as contradições sejam tão evidentes.



Três filmes, Três diretoras

Nesta semana, três filmes dirigidos por mulheres estão em cartaz:

A Guerra Está Declarada (La Guerre Est Déclarée), 2012,  drama francês de Valérie Donzelli.


Como Agarrar Meu Ex-namorado (One for the Money), 2012, comédia norte-americana de Julie Anne Robinson.


Hotxuá (Hotxuá), 2012, um documentário brasileiro de Letícia Sabatella.

O documentário tem atraído as mulheres do cinema brasileiro, mas o acesso ao produto do ponto de vista comercial é dificultoso. Os dvds custam duas ou três vezes mais do que a ficção. Os filmes considerados de arte também são mais caros do que os comerciais, o que favorece a formação de espectadores para uma estética própria desses filmes, mais próximos da linguagem televisiva. Isso sem contar com as cópias mal feitas, que travam no meio do filme, muitos com problema de série. A mídia para blu-ray só não elimina o DVD porque ainda é cara, mas em compensação, o fato é que depois do blu-ray, os DVDs nunca mais foram os mesmos.

São três filmes diferentes, pertencentes a gêneros distintos: drama, comédia-romântica e drama-documental, respectivamente. O primeiro é uma retextualização de Romeu e Julieta, sendo que a ficção passa a interferir na vida do casal protagonista, uma vez que ambos acreditam que alguma coisa de trágico acontecerá em razão dos seus nomes fazerem referência a clássica tragédia teatral.

O segundo trata de uma peripécia já vivida no cinema de uma outra perspectiva. Jennifer Aniston e Gerard Butler protagonizaram um filme semelhante no qual Butler, vive um policial, contratado para ser um caçador de recompensas de sua ex-esposa (Aniston), uma jornalista perseguida por outras pessoas também (por sinal não vi o filme apesar de a roteirista ser uma mulher, Sarah Thorp). O filme da diretora Robinson é muito semelhante ao de Andy Tannant, mas esse lugar-comum pode ser um exercício interessante do ponto de vista da análise de gênero, pois neste a protagonista, Stephanie (Katherine Heigl), é uma recém-demitida e divorciada que por intermédio de seu primo Vinnie (Patrick Fischler) passa a trabalhar como caçadora de recompensas. A sua primeira tarefa é capturar o policial aposentado Joe (Jason O'Mara), um ex-namorado do colégio que a seduziu. Vejam que nos dois filmes os policiais estão presentes. Tal como o filme de Tennant, este também é roteirizado por mulheres, são elas: Karen McCullah Lutz, Kirsten Smith, Liz Brixius que se basearam no livro de Janet Evanovich, uma autora conhecida por seus best sellers "chick lit" ou literatura cor-de-rosa.
 
O terceiro filme é uma tendência no cinema brasileiro, sobretudo quando feito por mulheres. O documentário se aproxima muito do cinebiografia porque não deixa de se basear na vida de um ser social. Foi assim com Valdick Soriano, dirigido por Patrícia Pillar. Hotxuá é baseado na festa da batata, um ritual realizado pela etnia indígena Krahô, que vive em Palmas (TO), que delimita a passagem da estação da chuva para a seca.

A filmagem documental etnográfica tem sido muito importante para a preservação da memória do Brasil e as diretoras estão sensíveis a essas questões identitárias, dando um caráter político e artístico ao cinema.

CINECLUBE DA UNEB - CINEMA E MULHER

A abertura do cineclube da UNEB, do setorial Cinema e Mulher, não trará uma diretora, mas um diretor. Trata-se do filme documentário ATABAQUES NZINGA, de Octávio Bezerra, filme de 2007.

A ficha técnica é formada por:

Título Original: Nzinga.
Origem:
Brasil, 2007.
Direção:
Octávio Bezerra.
Roteiro:
Rose La Creta.
Produção:
Ana Giannasi e Rose La Creta.
Fotografia:
Hélio Silva e Guerrinha.

Edição:
Sueli Nascimento.
Música:
Naná Vasconcelos.
 
Por esta relação, vemos que o filme foi roteirizado por uma mulher, Rose de La Creta, e produzido por duas, Ana Giannasi e a própria Rose de La Creta. Além de contar com a edição de outra mulher, Suely Nascimento. A ficha apresenta um equilíbrio de gênero ao trazer a mesma quantidade de mulheres e homens em sua produção.
 
Mas a minha escolha para esta primeira exibição deu-se por ser um dos poucos filmes nacionais e comerciais cujo tema trata da identidade da protagonista, mas uma identidade alicerçada na ancestralidade, isto é, na busca de uma jovem negra por sua origem, sua história. O início do filme se passa na Bahia, dentro de um terreiro de candomblé, durante o recolhimento. Portanto, nesta primeira parte, o filme se passa durante o roncó se estendendo até  a saída, quando a protagonista se torna-se filha de Oyá e herdeira da guerreira Nzinga.
 
Neste processo de autodescoberta, feita através do jogo de búzios, a protagonista revela uma angústia existencial, pois  sua dupla orfandade - já que não conheceu seu pai e a sua mãe a abandonou - a deixa triste e deprimida (alusão clara ao banzo, sentimento de saudade da África e de tristeza que os escravizados sentiam, levando muitos a cometerem o suicídio). Esta orfandade também sugere uma conotação mais ampla, uma metáfora para os sujeitos diaspóricos, que tiveram e têm dificuldades em traçar a sua árvore genealógica por causa da separação forçada imposta pelo colonizador sobre os escravizados, entre sujeitos da mesma nação e também graus de parentesco, estratégia de controle contra possíveis rebeliões.
 
É muito significativo como o candomblé aparece  no filme como ventre gerador de identidades, de resistência contra o esquecimento, contra o apagamento da memória que liga os sujeitos diaspóricos à origem africana. É o espaço de força vital, de ligação ancestral com uma função não apenas espiritual, mas de civilização.
 
A personagem, depois de sua saída do recolhimento, segue para o Rio de Janeiro, orientada por sua Yá a se mudar para se desenvolver mais (aqui o olhar do sudeste sobre o nordeste). É importante ressaltar que o atabaque está presente na vida de Nzinga, que sonha com eles e com seus ancestrais. O atabaque aparece no filme como metáfora do ancestral, chamando a personagem para assumir o seu papel de sujeito da história, que é a história dela, mas também de uma coletividade. Ou seja: o candomblé religa este sujeito perdido a um grupo, e este sujeito que deverá reinscrever a história, se apropriando de sua dor e enfrentando os desafios desta nova escrita. Este sujeito é uma mulher. Esta é Nzinga.
 
Você está em Salvador? Venha assistir a este filme!

Dia: 24 de outubro
Horário: 12h,
Local: Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia, Auditório Jurandyr Oliveira.

Depois da exibição, ficaremos para conversar um pouco.

 
 
 
Fotos divulgação.

domingo, 28 de abril de 2013

As Ladies Marian em duas versões de Robin Hood

Mesmo quando o filme traz um homem na figura central da trama, não deixo de observar como as mulheres são vistas pelos seus roteiristas e diretores.

Uma personagem instigante é Lady Marian que aparece nos filmes como par romântico de Robin Hood. A literatura mostra que nem sempre foi constante a forma de representar esta personagem e isto pode ser perceptível quando tomamos dois filmes recentes sobre o legendário arqueiro.
 
Uma das versões é a de Kevin Reynolds (1991) Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (Robin Hood, Prince of Thieves) que traz  Mary Elizabeth Mastrantonio como a atriz que desempenha o papel de Lady Marion. A sua primeira aparição no filme já mostra um conflito de gênero quando luta com Robin Hood (Kevin Costner) inicialmente com a espada e depois no corpo-a-corpo, quando é vencida. Neste momento, ela está usando uma armadura preta. Com a presença de Robin Hood, Lady Marion vai perdendo este ar mais agressivo e tornando-se dependente da proteção dele. Robin já havia prometido ao irmão de Lady Marion, morto em batalha, que a protegeria. Lady Marion é forçada a se casar com o xerife de Nothigham (Alan Rickman) que trava uma luta mortal com Robin Hood no dia do casamento, logo após a benção do bispo. Uma luta que Lady Marion só assiste.
 
Já a versão de Ridley Scott, 2010, Robin Hood (Robin Hood) traz como Lady Marion  a atriz britânica Cate Blanchett. A personagem vive com o sogro e espera o retorno do seu marido, um nobre cavaleiro da guarda de Ricardo Coração de Leão, que ao morrer pede que Robin Logstride, um arqueiro, retorne para informar ao pai sobre sua morte. Durante a ausência do marido, Lady Marion protege a aldeia de roubos e tenta se livrar do assédio do cobrador de impostos. A atração entre Robin e Lady Marion é gradativamente apresentada em sequências que mostram ora uma simetria de gênero ora as assimetrias, a exemplo da cena em que ela tenta salvar um filhote de animal de um afogamento. Robin prevê a frustração da iniciativa e resgata o filhote, dando a entender que as mulheres seriam mais emotivas e, por isso, mais impulsivas e  fadadas a gestos sem sucesso. Apesar disso, no final, durante a batalha decisiva que se dá na praia, Lady Marion usa armadura e alinha-se aos cavaleiros para atacar o inimigo. Como não cabe à heroína matar o antagonista, ao travar uma luta contra o malfeitor, desequilibra-se do cavalo e quase é afogada pelo oponente. Quando Robin percebe a investida contra a amada, resgata -a e de quebra mata o inimigo. Esta cena é muito parecida com a do filhote que está se afogando até ser resgatado por Robin Hood. Neste sentido, a assimetria de gênero é reforçada para destacar o papel de gênero atribuído ao homem em duas dimensões sociais (micro e macro): salvar a mulher e libertar o país do inimigo.
 
Se compararmos os dois filmes, vemos que a versão de 2010 está mais próxima de uma representação feminina mais ativa, companheira e lutadora. As relações de gênero se apresentam mais simétrica do que na versão anterior. Mesmo em casa, a presença de Lady Marion é decisiva para a sobrevivência da aldeia já que ela ara a terra, planta, colhe e estoca o alimento enquanto os maridos estão fora em batalha. Na cena em que está prestes a ser estuprada, se defende e consegue livrar-se do inimigo, golpeando-o e matando-o, sugerindo que nem sempre uma mulher terá um homem ao seu lado para livrá-la dos incômodos e que terá de encontrar sozinha meios para sair de situações embaraçosas e, no extremo, violentas. 

Ambas as narrativas não escapam do peso da tradição e ao olhar masculino por detrás das câmeras. Afinal, o filme é sobre Robin Hood e não Lady Marion, mesmo com alguns momentos de equiparação de gênero ao longo do texto.

Como seria um filme do ponto de vista dela?
 
foto divulgação

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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ex Terminadora (ExTerminators, 2009)


Quem assina a direção desta comédia é um diretor, mas o roteiro é de Suzanne Weinert. O título nos leva a pensar no que essas mulheres exterminam e a começar pela capa do DVD vemos que se trata de um ajuste de contas entre mulheres e agressores.

Suzanne Weitener
Tudo começa quando uma delas Alex (Heather Graham) é demitida do emprego pelo chefe que em tom cerimonioso e ao mesmo tempo jocoso a despede. Ao chegar mais cedo em casa, encontra o marido com outra mulher mais jovem que a trata por cunhada, supondo que o marido a tivesse apresentado como irmã. Para dissipar a sua angústia, atira-se ao consumo e na disputa por uma blusa acaba socando um homem que comprava a mesma peça para a namorada. A justiça decreta sessões de terapia coletiva quando Alex conhece um grupo de mulheres que foram agredidas, usurpadas por seus namorados, chefes ou maridos.

Nestes encontros, Alex conhece Stella (Jennifer Coolidge), dona de uma empresa de extermínio de animais nocivos herdada de seu avô. Stella, infeliz no casamento, pede divórcio ao marido que trata de roubá-la. Quando retorna para casa, Stella flagra o assalto e desnorteada invade o espaço com carro, atropelando o marido. Afinal, o seu problema era usar o carro como arma. As contigências da vida levaram-na a mudar o objeto de extermínio. Nikki (Amber Heard) uma assistente de dentista é assediada no trabalho. Ela também foi traída quando adolescente na escola. Um rapaz ia oferecer dinheiro para que ela tivesse relações sexuais com o irmão que era retardado. Como ela queria um vestido que não podia comprar, aceitou a tarefa, mas o rapaz não quis pagar. Ela o ameaçou e obteve o valor combinado.  Kim (Joey Lauren Adams) é uma mulher espancada pelo marido; Marsha (Farah White) é uma mulher rica instisfeita e Danielle (Eloise DeJoria) encomenda a morte do esposo. Todas elas têm seus motivos para se livrar dos agressores e as técnicas variam: morte por arsênio, perseguição e “acidentes” de carro, pistola de choque, tortura, entre outras. À medida que elas vão agindo, o número de participantes das sessões vai aumentando, sugerindo que as sessões só teriam efeito se elas não tivessem mais contato com os agressores.

O ambiente é o Texas, como é usual, pois as diretoras gostam de trazer o Oeste dos Estados Unidos como cenário para contextualizar as ações machistas. No bar, como de praxe, enquanto as mulheres estão bebericando, os homens as desrespeitam. Em uma das cenas, o marido de Kim chega no bar e exige que a mulher volte com ele para casa, mas ela resiste e leva um tapa. Nikki toma as dores e parte para cima do marido em defesa da amiga. Em outro momento, um rapaz passa a mão nas nádegas das mulheres enquanto elas passam para o sanitário. Mais uma vez Nikki percebe que as mulheres se sentem desencorajadas para enfrentar o rapaz, embora se mostrem constrangidas, e ateia fogo nele com o isqueiro. Parece uma atitude insana, mas haveria outrra forma? As mulheres são desrepeitadas e nada podem fazer, a não ser indignarem-se, até que uma delas cometa uma "loucura", isto é, enfrente os agressores.

O filme é para ser uma comédia, mas traz questões seriíssimas sobre a violência contra as mulheres e sobre a forma das mulheres agirem em função da impunidade e morosidade da justiça. Com os extermínios, as mulheres começam a buscar ajuda para os seus problemas imediatos, deixando a polícia sem ação, já que as mortes são silenciosas “silent revolution” e elas não delatam uma as outras, mesmo uma delas tendo um relacionamento amoroso com um dos investigadores.

Exterminadoras é um filme para ser visto com olhos críticos porque trata de questões que interessam as mulheres, inseridas em um mundo machista no qual a sobrevivência depende do grau de coragem, resignação ou de loucura. Esta loucura representa a resposta a uma loucura muito maior que é o sexismo e o machismo.

Vale a pena assistir.

Ficha Técnica:

Título no Brasil: Exterminadoras
Título Original: ExTerminators
País de Origem: EUA
Gênero: Comédia
Classificação etária: 16 anos
Tempo de Duração: 92 minutos
Ano de Lançamento: 2009
Estúdio/Distrib.: Vinny filmes
Direção: John Inwood

Elenco Principal:
Heather Graham ... Alex
Jennifer Coolidge ... Stella
Matthew Settle ... Dan
Amber Heard ... Nikki
Joey Lauren Adams ... Kim
Sam Lloyd ... Hutt
Farah White ... Marsha
Drena De Niro ... Dr. Press
Glenn Morshower ... Boss
Kathy Lamkin ... Land Lady
Charlie Robison ... Rick
Andy Buckley ... Steven Cantor
Jeff Schwan ... Detective Pete
Eloise DeJoria ... Danielle

Fontes:
http://www.imdb.com/name/nm0918299/ - IMDB
http://www.imdb.es/title/tt1209378/#comment - IMDB

domingo, 11 de março de 2012

A informante (Whistleblower, 2010)

Denso. Dramático. Angustiante.

Larissa Kondracki e Eilia Kirwan
O filme dirigido por Larissa Kondracki e roteirizado por Eilis Kirwan e a própria Larissa Kondracki é imperdível, sobretudo para quem se interessa pelas questões de gênero e pela violência contra a mulher. Diferentemente dos filmes que comumente assistimos, em que as mulheres são violentadas pelos seus maridos, ou seja, tratados como um assunto privado, o filme de Kondracki destaca o lado público da questão, expondo a rede internacional de tráfico de mulheres, tendo como fundo o momento pós-guerra na Bósnia. A atriz Rachel Weisz vive uma policial, Kathy, que é enviada para a Bósnia para ser mediadora da paz, na condição de pacificadora das Nações Unidas (ONU). Porém, ao chegar à Bósnia vê o quanto as mulheres são maltradas por razões étnicas e de gênero, sendo violentadas abusivamente por homens de diferentes setores da sociedade: donos de bar, policiais e agentes internacionais, todos envolvidos no tráfico de mulheres.

As cenas são fortes e mostram as torturas vivenciadas pelas mulheres forçadas a realizarem as fantasias mais perversas dos homens. Uma delas Raya acaba conhecendo a policial Kathy que pretende defendê-la, mas não consegue diante da corrupção entre os seus colegas de corporação.

O filme expõe uma rede internacional bilionária que vive do tráfico humano e do sofrimento de várias mulheres, adolescentes e jovens que partem em busca de melhores condições de vida e se deparam com situações de extrema violência. Em uma das cenas, Raya é violentada por um cano de ferro, enquanto às outras são forçadas a assistirem a cena, como exemplo a não ser seguido.

Baseado em fatos reais, ficamos perplexos com o fato de pessoas subjugarem outras no limite da degradação humana, animalizando-as e transformando-as em escravas do prazer em uma sociedade decaída e devastada pela guerra. Reconstruir um país com os vícios daqueles que vão promover a paz parece irônico, soa zombeteiro, na medida em que um país fragilizado pela guerra acaba não recebendo ajuda, mas, ao contrário, sendo alvo de traficantes de toda ordem.

Fico imaginando a Grécia...

Mais uma vez as diretoras de cinema mostram um cinema engajado politicamente feminista.