Pular para o conteúdo principal

Minha tia me falava de cinema

Eu tinha 18 anos quando a minha tia-avó me falou de um casal de atores de quem ela gostava muito. Provavelmente estávamos conversando sobre cinema, mas não me recordo exatamente o quê. Imagino que ela, uma doceira nascida em 1914, não tivesse ido muito ao cinema em Salvador, até porque pegar o bonde da linha 12 para ir ao centro deveria ser muito difícil, além de outras possíveis dificuldades. A periferia era periferia mesmo. Nelson Eddy e Janeth MacDonald eram dois artistas de Hollywood que atuaram juntos em muitos filmes nos anos 30, quanto a minha tia-avó era uma jovem de vinte e poucos anos e deveria ter se encantado com um dos filmes protagonizados pelos dois.

Um outro filme pelo qual ela tinha muito apreço era Dio, Come Ti Amo, sobretudo pela música interpretada por Gigliola Cinquetti. Certa vez, quando a minha tia-avó ainda era viva, visitei-a com um namorado e enquanto estávamos conversando no sofá (era assim que se namorava, pelo menos na presença dos pais ou familiares), ela se levantou da outra sala e quase imperceptivelmente pegou o LP e pôs na vitrola, saindo discretamente em seguida, sem sequer nos dirigir o olhar. Não estudou cinema, mas sabia que um fundo musical melódico podia reforçar qualquer cena idílica.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

RECÉM-NASCIDOS NO CINEMA

Sinal dos tempos.
Recentemente fui assistir ao filme de animação Rio, no Shopping Salvador Norte, e me deparei com uma cena absurda: um bebê recém-nascido dentro da sala de exibição. Como se não bastasse o carrinho de pipoca e outras guloseimas dentro da sala e das bandejas repletas de frituras, exalando óleo requentado por todo o espaço, temos agora mais esta.
Durante a projeção do filme, o bebê chorava compulsivamente, forçando os espectadores a pedirem constantemente silêncio. Fico me perguntando o que leva os pais a cometerem tamanha tentantiva infanticida, submetendo o seu próprio filho a uma sala extremamente fria, ensurdecedora e repleta de ácaros e outros microorganismos prontos para atacarem o corpo frágil e indefeso do bebê. Imagino que os pais deveriam zelar pelo bem-estar dos seus filhos, serem responsáveis pela sua saúde e não o inverso. Fico me perguntando ainda o que levaria o empresariado a acobertar tal malefício, em nome de uns míseros “reais”.

Trata-se, a meu ver, de …

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NOS FILMES

Uma mulher casada ou solteira é submetida a maus tratos pelo marido ou amante. Esta ideia já serviu de roteiro para vários filmes e a postagem aqui seria longa se analisássemos cada um deles. Alguns destes filmes foram dirigidos por homens, outros por mulheres, mas o importante é que o tema tem sido bastante filmado ao longo dos séculos. O que isso significa?
No dia 08 de março, o mundo se volta às questões da violência contra a mulher, não que em outros dias esta situação não seja acompanhada com intervenção de entidades e de pessoas, mas neste dia formou-se uma rede de ações que dão visibilidade a um problema sério no tecido social. Um problema que adoece a sociedade, transformando os homens em criminosos e as mulheres em cadáver.
A sociedade tem sido a mortalha para muitas mulheres.
Os filmes que tratam da violência contra a mulher são em geral ambientados no espaço domiciliar, com maridos violentos que buscam a todo custo submeter às mulheres a maus tratos físicos e psicológicos. …

As Ladies Marian em duas versões de Robin Hood

Mesmo quando o filme traz um homem na figura central da trama, não deixo de observar como as mulheres são vistas pelos seus roteiristas e diretores.
Uma personagem instigante é Lady Marian que aparece nos filmes como par romântico de Robin Hood. A literatura mostra que nem sempre foi constante a forma de representar esta personagem e isto pode ser perceptível quando tomamos dois filmes recentes sobre o legendário arqueiro. Uma das versões é a de Kevin Reynolds (1991) Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (Robin Hood, Prince of Thieves) que traz  Mary Elizabeth Mastrantonio como a atriz que desempenha o papel de Lady Marion. A sua primeira aparição no filme já mostra um conflito de gênero quando luta com Robin Hood (Kevin Costner) inicialmente com a espada e depois no corpo-a-corpo, quando é vencida. Neste momento, ela está usando uma armadura preta. Com a presença de Robin Hood, Lady Marion vai perdendo este ar mais agressivo e tornando-se dependente da proteção dele. Robin já havia prome…