Pular para o conteúdo principal

Por Amor (Personal Effects, 2009)

Informações Técnicas
Título no Brasil: Por Amor
Título Original: Personal Effects
País de Origem: EUA / Alemanha
Gênero: Drama
Classificação etária: 12 anos
Tempo de Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento: 2009
Estréia no Brasil: 03/04/2009
Estúdio/Distrib.: Imagem Filmes
Direção: David Hollander

Elenco

Michelle Pfeiffer ... Linda
Ashton Kutcher ... Walter
Kathy Bates ... Gloria
Spencer Hudson ... Clay
John Mann ... Hank
David Lewis ... Bruce
Rob LaBelle ... Paul Camden
Aleks Paunovic ... Tom Friedinger
Brian Markinson ... Henry Finneran
Sarah Lind ... Annie

Por Amor (Personal Effects, 2009) é o primeiro filme dirigido pelo diretor David Hollander, conhecido por atuar mais em TV através dos seriados Heartland e The Guardian. O filme é estrelado pela veterana Michelle Pfeiffer e o desconhecido (pelo menos para mim) Ashton Kutcher, descompasso não apenas de experiência profissional, mas, também, de geração/idade.

A narrativa dramática gira em torno dos protagonistas Linda (Michelle Pfeiffer) e Walter (Ashton Kutcher) que por viverem experiências semelhantes, apesar das diferenças entre ambos, passam a viver um romance. Embora a temática da perda esteja presente no filme, a espera é uma palavra que no final aparece repetidamente enunciada pelo personagem Hank, filho de Linda, que é surdo e mudo. Linda perdeu o marido alcoólatra assassinado a tiros, enquanto Walter vive um sentimento de culpa e revolta provocado pela morte da irmã, assassinada brutalmente por um desconhecido. Linda e Walter vivem em uma cidade não identificada no filme, mas que se caracteriza por ser climaticamente fria e estruturalmente pequena. O título do filme em português tem pouco a ver com o título original, como quase sempre acontece. O que literalmente poderia ser traduzido como “efeitos pessoais”, recebe um verniz sentimentalista e clichê, aliás, nada mais clichê do que as frases sentimentalistas, e se transforma em Por Amor, no Brasil. Contudo, efeito pessoal corresponde muito mais ao tema proposto para mostrar o efeito que as tragédias desencadeiam na vida das pessoas, ou ainda, como a violência generalizada, sobretudo de gênero (já que uma das mortes envolve uma mulher encontrada nua sobre as pedras) afeta cruelmente a vida das pessoas. Assim, a história de amor atravessa a narrativa fílmica nada mais é do que um recorte, um aspecto do filme, já que os protagonistas Linda – uma mulher viúva, de meia-idade, com um filho surdo-mudo, que trabalha com eventos para casamento – e Walter – um rapaz de aproximadamente vinte e cinco anos, que mora com a mãe (divorciada do marido que se casa novamente no filme) e a sobrinha, que trabalha em uma empresa fazendo propaganda na rua vestido de pássaro, introspectivo, atleta de lutas marciais – antes de viverem um relacionamento amoroso, trazem consigo uma carga de sofrimento muito grande, o que torna, inclusive, a aproximação de ambos possível.

Para além da questão da violência (e do desgosto) que é o elemento desencadeador do encontro e envolvimento dos protagonistas, o filme coloca em tensão a relação entre pessoas de idades/gerações diferentes, mas que, para além das assimetrias identitárias, se tocam naquilo que as une: o sofrimento da perda. Neste sentido, o filme busca minimizar as diferenças para focar nas semelhanças, talvez porque a relação entre pessoas de idades diferentes, sobretudo quando a mulher é mais velha, ainda provoque algum mal-estar. Porém, apesar das personagens não externalizarem abertamente as suas diferenças geracionais, existem veladamente marcas que apontam para um conflito de idades.

Enquanto Linda mostra-se apaixonada por Walter e externa isso, Walter parece sentir o peso de um envolvimento maior, já que durante a declaração de amor de Linda, ele a interrompe com um simples “Linda...” com entonação suplicante, mas ele não chega a completar a frase, pois ela retoma o turno e segue dizendo o quão ele é importante para ela e para o filho. Linda várias vezes sinaliza para uma estabilidade, buscando um estado de felicidade que há muito tempo não sente. E aqui me parece que temos uma aspecto importante: a ausência completa de prazer, não apenas sexual, mas, de uma alegria de viver a absorve, o que a faz lançar-se em uma aventura amorosa, muito embora, para ela, de contornos mais sérios. Daí, provavelmente, a conexão que ela estabelece com o personagem que, embora mais jovem, também tem em sua história de vida marcas cruéis, dolorosas. Ele, no entanto, que saiu de Iowa onde era atleta, e retorna a cidade natal devido a tragédia com a sua irmã, não se mostra emocionalmente tão decidido. Ao contrário: o personagem parece viver em função de uma sessão judicial que colocará em liberdade ou condenação o homem que ele supõe ser o assassino de sua irmã, mas que ao saber do veredicto e de que o homem de fato não é o assassino, fica totalmente perdido.

Walter é um homem de poucas palavras, tem dificuldades em expressar seus sentimentos. Suas raras frases são truncadas, quase monossilábicas, o que mostra não apenas introspecção, mas falta de amadurecimento. Embora o ator tenha 32 anos, o personagem pode passar por 25. Já Linda é uma mulher cuja atividade profissional lhe permite maior desenvoltura (ela organiza casamentos) ao mesmo tempo em que a coloca em uma eterna busca por um par. Ela busca se aproximar de Walter e o envolve em sua vida a começar pelo filho por quem ele passa a ter uma relação de cuidado, de proteção, um misto de pai com irmão mais velho, talvez a relação que ele deveria ter com a sua irmã. Compensação ou não, a vivência de Walter passa a ser em função do filho de Linda que, por sua vez, fortalece os laços de proximidade convidando Walter a ir a um casamento organizado por ela.

Cada vez mais envolvidos, salientando que em nenhum momento os dois aparecem fazendo parte de outros círculos de amizade, exceto a família, no caso dele, o casal passa a se ver com freqüência, criando uma atmosfera romântica, perfeita, mas que, em termos de linguagem cinematográfica, precisa ser rompida. Outro núcleo de ação mostra Walter presente no julgamento do homem que supostamente seria o agressor de sua irmã. Ele, no entanto, convicto de sua condenação, não aceita que a sentença tenha sido favorável ao homem, inocentando-o. Vale ressaltar que este homem é retardado e, de fato, inocente, acentuando o sentimento de culpa de Walter em relação a sua irmã, a quem deveria ter protegido e não um homem com limitações. Esta ação desencadeia uma instabilidade na relação entre Linda e Walter, pois, com o veredicto e sabendo que o assassino de sua irmã sequer foi encontrado – como acontece na vida real -, ele decide voltar para Iowa. Neste momento, Linda se desespera, mas sem perder a tranqüilidade, e se mostra como a pessoa mais indicada para ajudá-lo naquele momento, ao mesmo tempo em que deixa claro que o papel de Walter não é ser o seu salvador. Ela se esforça em acentuar um discurso em que ela se coloca em uma posição de poder, embora, no final do filme, ela inverta, aceitando já o afastamento dele. O casal se separa e só reaparece no casamento do pai de Walter organizado por Linda. Antes disso, o filho de Linda questiona Walter sobre a sua partida, o que desencadeará uma nova peripécia, uma nova experiência de perda para a mãe e para o filho.

Disposto a voltar para Iowa, antes disso Walter assiste ao casamento de seu pai e Linda comparece na condição de organizadora do evento. Ao ver Walter, sai rapidamente do recinto e senta-se em uma sala anexa onde passa a desenhar. Quando Walter entra, se dirige a ele com tranqüilidade, mostrando a sua importância na vida dela e do filho – a inversão - que com a ajuda dele se tornou campeão em judô e uma pessoa melhor. Ali mesmo ela se despede de Walter e lhe dá um beijo afetuoso no rosto, mostrando uma aparente aceitação. Quando ele olha o desenho esboçado, percebe que existe uma paisagem, um ambiente sem pessoas, mostrando, de forma metafórica o que representava a sua ausência na vida dela: o vazio. Walter retorna para a sala onde o casamento está acontecendo e percebe que a sua vida também não tem muito sentido sem Linda, sobretudo ao ver a felicidade das pessoas em seu entorno e da alegria de estarem juntas. Aquela visão lhe conectou aos momentos que passou ao lado de Linda e percebe que estar ao seu lado lhe confere a alegria que ele acabara de testemunhar. E sai para encontrá-la. Além disso, o fato de ter internalizado uma culpa por não estar por perto para proteger a irmã talvez tenha desencadeado um sentimento de responsabilidade diante daquelas pessoas com que tinha íntima relação.
O filho de Linda, acreditando que o afastamento de Walter está relacionado ao homem que foi julgado como agressor de sua irmã, parte para matá-lo, até porque ele havia, em outro momento, seguido Walter e presenciado a intenção dele em matar o homem. Walter chega à casa de Linda que, por sua vez, dá falta do filho e da arma. Walter sai a sua procura e o encontra de arma apontada para o homem, assim como fez Walter em cena anterior. Durante o tiro, Walter se joga contra o corpo do homem para protegê-lo e é ferido.

O filho de Linda é preso e o espectador passa a ouvir os seus pensamentos com a câmera em super close up, captando apenas os olhos. Neste momento ele fala da espera reiteradamente. Então, fazemos um retrospecto e percebemos que a espera, de fato, lastreia a narrativa: a espera de Linda por alguém que possa amar, a espera de Walter por alguém que pudesse amenizar a sua culpa, a espera de Walter sobre a sentença da morte de sua irmã, a espera do menino por alguém que pudesse compartilhar seus sofrimentos. Enfim, todos esperavam, de alguma forma, por pessoas que pudessem lhes trazer de volta a vida, que pudessem apaziguar seus espíritos dilacerados pelos infortúnios.

O filme termina com Linda sentada diante de uma mesa, fumando, visivelmente preocupada e pensativa, enquanto, da janela, aparece Walter segurando nas mãos um balde de lixo, puxando a perna ferida. Linda acena para ele com pouca emoção e assim o filme termina. Um final tão incerto quanto a relação dos dois. Um final realista, sem espetáculos, mas visceral e denso, como é a vida real de todos nós.

Neste sentido, o filme provoca uma desacomodação em relação ao que convencionalmente se espera das relações, isto é, o que a sociedade e a cultura definem como um ideal de felicidade conjugal. Em geral, a expectativa gira em torno do casamento - mesmo que não termine com a cerimônia, mas fica a sugestão - e o espectador está tão imerso nas convenções sociais, sedimentadas por outros textos e discursos, que ao se deparar com um filme em que a relação se baseia em um sentimento de reciprocidade para além de um sentimento romantizado, ou que não termine com um casal se beijando ou sorrindo espetacularmente, lhe antecipa já um fracasso. No entanto, o final rompe com o clichê, embora o título do filme em português direcione para isso, pois o final feliz mostra o casal distante fisicamente e tensos. Eles estão ligados, mas preocupados já que as suas vidas estão entrelaçadas a um evento desolador que é a prisão do filho de Linda. A tristeza visível de Linda diante da prisão do filho funde-se a alegria de ter Walter ao seu lado, o que obviamente contrasta com os finais dos filmes de amor em que quase inexiste a contradição de sentimentos. O amor, nestes filmes, reina absoluto. Em Por Amor, as emoções antitéticas são vividas ao mesmo tempo, como acontece na vida real e, talvez, o filme deva ser visto muito mais por esse ângulo, do que como uma simples história de amor coerente, harmoniosa. Embora o personagem seja bastante jovem em relação a ela, as suas experiências são muito dolorosas.

O final não poderia ser diferente: a vida não é um "mar de rosas", embora as pessoas se esforcem em torná-las melhor.

Comentários

  1. Quem trabalha como "frango" é ele e não a irmã, a luta é greco-romana e não judô e o casamento é do melhor amigo não do pai dele e a mãe dele não casa de novo, você assistiu o filme?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, assisti ao filme faz um tempo, mas, diante de suas obserações, vou revê-lo. Só posto filme que já vi, até porque não faz parte da minha formação (e ética profissional) me basear em sinopses e outros textos mais superficiais. Obrigada pela postagem e colaboração. Oportunamente, postarei um comentário a respeito.
      Lúcia Leiro.

      Excluir
  2. Assisti o filme e algumas coisas ficaram truncadas, não consegui captar o que queria mostrar. O post foi muito esclarecedor. Muito bom!!!

    ResponderExcluir
  3. Lúcia
    Sua resenha é muito interessante.
    Mas procedem as observações do Thiago.
    Sds.
    Luiz Cesar

    ResponderExcluir
  4. Parabéns! Excelente análise! Uma das melhores que já vi sobre filmes!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

RECÉM-NASCIDOS NO CINEMA

Sinal dos tempos.
Recentemente fui assistir ao filme de animação Rio, no Shopping Salvador Norte, e me deparei com uma cena absurda: um bebê recém-nascido dentro da sala de exibição. Como se não bastasse o carrinho de pipoca e outras guloseimas dentro da sala e das bandejas repletas de frituras, exalando óleo requentado por todo o espaço, temos agora mais esta.
Durante a projeção do filme, o bebê chorava compulsivamente, forçando os espectadores a pedirem constantemente silêncio. Fico me perguntando o que leva os pais a cometerem tamanha tentantiva infanticida, submetendo o seu próprio filho a uma sala extremamente fria, ensurdecedora e repleta de ácaros e outros microorganismos prontos para atacarem o corpo frágil e indefeso do bebê. Imagino que os pais deveriam zelar pelo bem-estar dos seus filhos, serem responsáveis pela sua saúde e não o inverso. Fico me perguntando ainda o que levaria o empresariado a acobertar tal malefício, em nome de uns míseros “reais”.

Trata-se, a meu ver, de …

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NOS FILMES

Uma mulher casada ou solteira é submetida a maus tratos pelo marido ou amante. Esta ideia já serviu de roteiro para vários filmes e a postagem aqui seria longa se analisássemos cada um deles. Alguns destes filmes foram dirigidos por homens, outros por mulheres, mas o importante é que o tema tem sido bastante filmado ao longo dos séculos. O que isso significa?
No dia 08 de março, o mundo se volta às questões da violência contra a mulher, não que em outros dias esta situação não seja acompanhada com intervenção de entidades e de pessoas, mas neste dia formou-se uma rede de ações que dão visibilidade a um problema sério no tecido social. Um problema que adoece a sociedade, transformando os homens em criminosos e as mulheres em cadáver.
A sociedade tem sido a mortalha para muitas mulheres.
Os filmes que tratam da violência contra a mulher são em geral ambientados no espaço domiciliar, com maridos violentos que buscam a todo custo submeter às mulheres a maus tratos físicos e psicológicos. …

As Ladies Marian em duas versões de Robin Hood

Mesmo quando o filme traz um homem na figura central da trama, não deixo de observar como as mulheres são vistas pelos seus roteiristas e diretores.
Uma personagem instigante é Lady Marian que aparece nos filmes como par romântico de Robin Hood. A literatura mostra que nem sempre foi constante a forma de representar esta personagem e isto pode ser perceptível quando tomamos dois filmes recentes sobre o legendário arqueiro. Uma das versões é a de Kevin Reynolds (1991) Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (Robin Hood, Prince of Thieves) que traz  Mary Elizabeth Mastrantonio como a atriz que desempenha o papel de Lady Marion. A sua primeira aparição no filme já mostra um conflito de gênero quando luta com Robin Hood (Kevin Costner) inicialmente com a espada e depois no corpo-a-corpo, quando é vencida. Neste momento, ela está usando uma armadura preta. Com a presença de Robin Hood, Lady Marion vai perdendo este ar mais agressivo e tornando-se dependente da proteção dele. Robin já havia prome…