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Mostrando postagens de Junho, 2011

Terras perdidas (A Thousand Acres), de Jocelyn Moorhouse, 1997

Certa vez em uma entrevista perguntaram a diretora Nora Ephron sobre a relação entre as personagens femininas em seu filme, o que levou a diretora a citar uma matéria em que uma escritora indignava-se sobre a forma que a amizade entre as mulheres eram distorcidas nos filmes:
...eu acabei de ler uma matéria muito briguenta em algum lugar, acho que foi no Wall Street Journal ou algo assim, não consigo me lembrar direito. Foi escrita por uma mulher que tinha lançado um livro sobre amigas mulheres e ela estava muito nervosa porque dizia que as amizades femininas são sempre distorcidas nos filmes. No cinema elas são mostradas como alegres e fabulosas... e eu pensei "Bom, espera então até ela assistir ao nosso filme!". (site Omelete)
O que me chama a atenção é que os filmes dirigidos por mulheres que mostram solidariedade e cumplicidade entre elas parecem incomodar mais do que os que trazem homens que se ajudam mutuamente em qualquer situação corriqueira. Os filmes de ação em geral …

Frankenstein & E.T: o estranho mundo para as mulheres

O que pode haver em comum entre Frankenstein, de Mary Shelley, e E.T, de Melissa Mathison? As criadoras dos monstros mais famosos da história da literatura e do cinema, respectivamente, são mulheres. O que as diferenciam? Elas viveram em épocas e lugares diferentes, tendo possivelmente motivações situacionais distintas para criarem seres quase humanos. Shelley põe em questão a relação criador/criatura e, assim como Mathison, mostra que a criatura é um ser deslocado do espaço social o que pode funcionar como a metáfora da própria mulher. O mito frankestaniano estaria na tradição bíblica se atentarmos para a ideia de que a mulher foi criada a partir de uma parte de um outro ser vivo, neste caso o homem, o que não difere da base constitutiva que norteia o pensamento de Dr. Frankenstein, de criar um ser a partir de outros seres. Quem já teve a oportunidade de assistir ao filme sabe que o ser criado em laboratório é resultado da reunião de várias partes do corpo de seres recém-mortos. Essa…

Filmes em exibição em Salvador

Dos 31 filmes em exibição em Salvador no dia 26 de junho de 2011, 13 eram de origem norte-americana, mostrando que a maior fatia do mercado de exibição cinematográfica privilegia os filmes dos Estados Unidos. Desses, 05 são brasileiros, a mesma proporção dos filmes italianos. No entanto, se pensarmos em um contexto mais amplo, vemos que embora o número de filmes norte-americanos seja maior do que o de outros países, no cômputo geral, as outras produções superam os filmes lançados pelos Estados Unidos que possuem aproximadamente 42% dos filmes lançados em solo baiano. Os outros ficam com 58%, sendo que Salvador exibe apenas 16% dos filmes brasileiros. Em relação ao gênero, prevalece o drama. Já em termos de direção, no que toca ao sexo, as mulheres ainda são minoria esmagadora. Dos 31 filmes, apenas 03 são dirigidos por mulheres, sendo que dois unicamente por elas. O mais curioso é que um desses filmes é uma animação, campo pouco ocupado pelas mulheres. Os documentários aparecem com ci…

Katryn Bigelow e Mary Shelley

Uma postagem rápida. Lendo sobre Frankenstein, vi o seguinte enunciado proferido por Mary Shelley e que poderia ser parafraseado por qualquer mulher de hoje, inclusive Katryn Bigelow:
Como é que eu, então uma jovem, pude pensar e discorrer sobre um assunto tão horrível?”( SHELLEY, 2002, p. 5). Guardando as devidas proporções e considerando que Shelley tinha 18 anos quando começou a escrever a sua história, o que a aproxima de Bigelow é o fato de que ainda se vincula os gêneros das narrativas ao sexo. Shelley questiona-se sobre a sua pouca maturidade e pouco traquejo em um gênero que a consagraria, muito embora fique implicitado que a dificuldade também estava atrelada ao fato de ser a única mulher do grupo.

Bigelow, no século XXI, mostra que os gêneros narrativos ainda estão atrelados ao gênero.  De qualquer sorte, ambas entraram em uma espaço de pouco ou nenhum acesso às mulheres: as narrativas de terror (embora criadoras delas) e de guerra.

Ecos do Oscar concedido ao filme Guerra ao Terror, de Katryn Bigelow

''Depois que você trabalha há anos em um estúdio, você se sente como uma das pernas de uma centopéia, útil como uma espécie insignificante em um módulo operacional ...". (Francis Marion, roteirista)
Recentemente estive conversando com um aluno do curso de Comunicação sobre filmes, direção e mulheres, aliás uma trilogia que rende uma boa conversa. Uma conversa que me proporcionou um olhar suplementar às minhas reflexões sobre o filme Guerra ao terror, de Katryn Bigelow, vencedora do Oscar de melhor diretora em 2010. Lembro-me de ter lido na época em que ocorreu a premiação um e-mail escrito por um homem, por sinal indignado, pelo fato de Avatar não ter ganhado o Oscar naquele ano. O referido autor sugeria em seu texto que se deveria ver os filmes para além das questões de sexo (não mencionou gênero), já que Avatar seria muito mais crítico em relação à sociedade, do que Guerra ao Terror, que, segundo o crítico, trazia uma imagem condescendente dos norte-americanos em relação…

ANÁLISE DAS CENAS

O filme A Última Legião (The Last Legion), 2007, de Doug Lefler, traz uma personagem feminina, guerreira, vivida por Aishwarya Rai, que luta contra os godos superando-os em agilidade e destreza com as armas. No entanto, ao se encontrar com o protagonista vivido pelo ator Colin Firth, ela deixa de ser tão poderosa, perdendo mesmo o direito de ter um cavalo. Assim como uma criança, a mulher também precisa ser conduzida. Em relação à mulher, fica explícita que a sua depedência tem uma marca de gênero, diferentemente da criança que é em razão da idade. A criança é tutelada pelo adulto e a mulher pelo homem. Será que não havia dois cavalinhos a mais para as personagens?

Cópias de DVD com defeito

As cópias domésticas contam com um novo aliado: as cópias mal feitas dos filmes colocados à venda no mercado. Recentemente, fiz peregrinações quase diárias às lojas para trocar DVDs com defeito. O filme Enrolados, animação da Disney, está com um problema de lote no capítulo 8 (já que testei três cópias e as três apresentaram problemas, inclusive no aparelho da loja), no momento em que Rapunzel e Eugene saem do rio quando a represa se rompe. O filme Sonhos Roubados, de Sandra Werneck, apresenta um travamento no capítulo 12, bem no finalzinho quando as três meninas estão caminhando pela rua. Crepúsculo dos Deuses, um clássico, o mesmo problema dá-se exatamente em 1h20min26s. O Leitor, estrelado por Kate Winslet, também apresenta problema, o filme trava no capítulo 8, quando Michael está do lado de fora fumando um cigarro ansioso pelo veredicto de Hanna, na sequência, há um travamento do disco. O filme Samba, com Sara Montiel, apresenta o mesmo problema dos demais, quando, depois de esta…

Alguém assistiu a esses filmes?

Assisti a um filme feminista há muito tempo ambientado em um espaço mítico, futurista, em que a terra fora devastada pelas guerras e pela ganância desmedida, e em razão disto tornou-se árida, sem riquezas que fornecesse subsistência à sobrevivência humana.
Sempre que me encontro com alguém que se interessa pela temática, narro o filme para ver se já assistiu, mas até agora parece que apenas eu assisti a este filme. Os atores não são conhecidos, o que dificulta mais ainda.
Neste planeta, apenas as mulheres sobreviveram, exceto doze homens que se espalharam pela terra com a missão de resgatar o poder, agora nas mãos das mulheres. Quando assisti ao filme só vi a parte em que um homem chega a uma região em que duas tribos de mulheres são as únicas sobreviventes. Embora desconfiadas, as mulheres o recebem e ao obter a confiança delas, ele começa o seu plano: primeiro provoca uma crise no relacionamento de duas mulheres ao se interessar por uma delas (primeira tentativa de divisão); segundo…

PEQUENOS E BREVES EXERCÍCIOS DO OLHAR

O  filme Foi Apenas Um Sonho, de Sam Mendes, 2008, Frank Wheeler (Leonardo de Caprio), um homem dividido entre viver o seu sonho e manter-se acomodado à realidade aparece representado na cena através da divisão do espelho. O personagem está olhando a foto da esposa April Wheeler.

Em Crepúsculo dos Deuses, 1950, de Billy Wilder, Norma (Gloria Swanson), é uma atriz do cinema mudo que vive do passado glamoroso. Ela sonha em retornar para as telas, pois acha que ainda pode arrebatar o público como outrora. A sua prisão ao passado aparece na cena acima, circundada de fotos antigas.  
Nesta cena, Joe (William Holden) e Betty (Nancy Olson) estão elaborando um roteiro juntos. A iluminação do rosto dela e o sombreamento no dele mostra o contraste de gerações e de potencialidades. Ela é uma aspirante a roteirista, com um longo caminho pela frente, ambiciosa, ele é um roteirista fracassado, tendo-a como uma chance de voltar a escrever para os estúdios.  
No filme Foi Apenas um Sonho, para mostra…

O cinema e A MORAL PARA AS MASSAS

Costuma-se atribuir a D. W. Griffith a paternidade da narrativa cinematográfica, muito embora Helena Maura cineasta e crítica de cinema tenha dito em seu artigo Sexo Frágil e o Cinema - 1896 à 1954 que...

...“Uma das principais representantes desse período foi a francesa Alice Guy-Blaché (1875-1968), a primeira diretora de filmes da história, que chegou a dirigir, produzir e/ou supervisionar cerca de 300 filmes em sua vida. Ela aparece também, causando controvérsias, como a verdadeira criadora da narrativa para o cinema. Teríamos então não um "pai" da narrativa no cinema, Georges Méliès, e sim uma "mãe", Alice Guy, já que seu primeiro filme La Fee aux Choux (algo como A Fada nas Couves), de 1896, foi realizado alguns meses antes do filme de Méliès.”(grifos meus)

Se a narrativa de cinema teve seu início na França ou nos Estados Unidos, por um homem ou uma mulher, a questão é que desde a sua origem ele teve uma tendência para as massas, com histórias melodramáticas em …