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A INDOMÁVEL MALLOTTE (MARLENE DIETRICH)

Origem: Estados Unidos
Ano: 1942
Gênero: Clássico
Duração: 83 Min.
Produtora: Universal Pictures
Direção: Ray Enright
Elenco: John Wayne, Marlene Dietrich, Randolph Scott

No filme A Indomável, The Spoilers (1942), de Rex Beach, pertence ao gênero western e traz em seu cast Jonh Wayne, um dos mais populares atores que incorporou lendárias atuações de pistoleiros imbatíveis sempre em tensão com a lei, e Marlene Dietrich, de performances memoráveis, faz o tipo que a consagrou nas telas: a de mulher implacável, de personalidade forte. Neste filme, ela vive Cherry Mallotte, proprietária do Northiest, um salão, através do qual mantém certo controle da cidade, já que muitas informações que chegam até ela são oriundas dos clientes do salão. Mallotte é uma mulher atraente, inteligente, estrategista que consegue, por meio da sedução e do artifício da linguagem, desviar-se das acintosas “cantadas” dos seus clientes e, também, homem de confiança.

A história se passa no Alaska durante a “corrida do ouro” no ano de 1890. Ray Glennister (John Wayne) é proprietário de uma mina de ouro, mas que perdeu o seu direito de posse devido a manobra entre um empresário (detentor de prestígio pelo capital) e Estado (detentor de prestígio e poder de juiz). A filha do juiz se apaixona por Glennister, mas quando ele percebe o golpe se afasta da moça. Glennister perde a mina, por tentar se adequar à lei, e percebe logo que está sendo ludibriado, retomando a mina através da união de outros mineiros.

A presença de Mallotte é constante e importante em diferentes momentos do filme, já que direta e indiretamente, é ela quem salva a vida de Glennister. A sua perspicácia a faz suspeitar da filha do juiz que pretendia fugir, a ser presa pela justiça de Seattle, juizado mais próximo do Alasca. Neste momento ela fica sabendo que Glennister tinha sido preso por apropriação “indevida”, mas que não seria julgado, mas assassinado em uma emboscada. Malotte arma uma situação e consegue avisar Glennister da armadilha, permitindo-lhe que recupere a mina. Enquanto isso, ela tenta distrair o usurpador seduzindo-o até seus aposentos.
O título do filme em português busca centrar a narrtativa na força de Mallotte/Dietrich que, sem dúvida, alavanca a história, trazendo-a no centro e em primeiro plano no cartaz de divulgação do filme.

A narrativa se desenvolve mostrando um homem dividido entre a lei e a justiça, nem sempre coincidentes, o que não é muito original, mas o western mostra a distância entre a lei e a justiça, levando Glennister a afastar-se da lei devido a deslealdade do Estado para com o povo. Ao perceber a usurpação, o povo se revolta e impõe a justiça com as suas regras.
As presenças marcantes de Dietrich nas cenas em que aparece, transforma as suas aparições em puro espetáculo não apenas em beleza, mas em expressividade dramática, muito embora o filme não seja um drama. O olhar lânguido, o corpo altivo e as roupas exuberantes compõem a personagem que, sendo a única do bar e proprietária, mantém o controle da situação através do jogo, da bebida e de mulheres. Um destaque neste filme é da Idabelle, a empregada de Mallotte, uma mulher negra que sonha com um marido negro chegando em um dos navios. Há uma cena em que Wayne aparece disfarçado com carvão em todo o rosto e ela não o reconhece, ficando feliz por finalmente um homem negro aparecer-lhe. Uma de suas frases curiosas é a de que estava cansada de ouvir dizer que esquimó era oriundo da Virgínia, mostrando que as relações inter-raciais se davam entre minorias não-brancas, no Alasca entre negros e esquimós, mas nunca entre negros e brancos, mas, sobretudo um deslocamento provocado pela ironia da empregada que mostra uma questão importante para a análise do discurso: a recepção. Embora tenham disto isso a ela, obviamente ela não acreditou. O filme ousou em colocar falas, gags, em uma personagem negra e mulher que, quando aparece em cena, cria situações que explicitam a segregação racial e os problemas das mulheres negras que, longe de sua comunidade, aguarda a chegada de um homem negro para se casar. Em geral, essas mulheres acompanhavam as mulheres brancas que iam para lugares distantes em busca de novas oportunidades, naquela época, advindas do ouro. Quando Wayne aparece disfarçado de carvão, ela diz que ele estava mais atraente daquela forma, sinalizando para uma alternância estética, partido de outro olhar, construindo outra possibilidade de realização do desejo, da inscrição do belo.

As cenas que acontecem no quarto de Mallotte, a partir do diálogo entre ela e a sua camareira, são interessantes para percebermos as questões de gênero e raça nos Estados Unidos e no cinema hollywoodiano que, como sabemos, inventou a América para o mundo e para si mesmo. Neste processo de conquista de territórios, as mulheres desempenharam papel crucial, muitas vezes de liderança local, a exemplo da personagem vivida por Claudia Cardinale que no filme A Conquista do Oeste, Once Upon a Time, herda do marido irlandês uma cidade. Uma das cenas mais belas do cinema é a construção da cena de um plano médio, com foco central em Cardinale, que vai se transformando em plano geral por meio de uma posição de câmera em ângulo plongé, fazendo com que o espectador acompanhe a sua presença mesmo com o distanciamento focal, quando ela aparece no meio de uma quantidade enorme de homens que estão construindo a ferrovia e, consequentemente, a cidade.

Mallotte (Dietrich) aparece como proprietária, uma mulher poderosa, chegando mesmo a propor um empréstimo financeiro a Wayne para o resgate da mina, e também como estrategista política, intervindo no bem-estar da sociedade e no cumprimento da justiça, ainda que por métodos pouco convencionais para o domínio jurídico.

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