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AS DUAS TORMENTAS (WAY DOWN EAST), 1920, D. W. GRIFFITH

Direção: D. W. Griffith
Roteiro: Anthony Paul Kelly
Produção: D. W. Griffith
Trilha Sonora: William Frederick & Louis Silvers
Elenco Principal:
Lislan Gish (Anna Moore)
Richard Barthelness (David)
Lowell Shermnan (Lennox Sanderson)
Burr McIntosh
Creighton Hale
Georde Neville

Griffith é um gênio. Exagero? Pode ser, mas foi a primeira palavra que me veio à mente depois de assistir ao seu filme As Duas Tromentas (Way Down East), de 1920. Com os filmes de Griffith fica muito claro perceber como nasceu o cinema como vemos hoje porque a sua estrutura, a linguagem, os temas são semelhantes. Em As Duas Tormentas, o diretor lança mão de recursos de câmera e de montagem que possibilitam acentuar a carga dramática. É um filme que emociona.

A história

A fábula é um melodrama. Narra a história de Anna Moore, uma jovem pobre que reside com sua mãe em Greeville, Nova Inglaterra. Diante das dificuldades financeiras, a mãe de Anna pede que ela procure seus parentes ricos que moram em Boston. A contragosto Anna viaja e chega à casa da tia e das primas em um momento de reunião de amigos da alta sociedade, o que torna a visita de Anna um estorvo. Mesmo assim, devido a outra tia que estava por perto, as duas primas (alusão a Cinderela?) resolveram tratar bem a prima, acolhendo-a. Neste ínterim, Anna que passa a conviver com a tia, é seduzida por Lennox Sanderson, um homem maduro, sedutor, e dependente da fortuna do pai. Ele arma um falso casamento e exige de Anna segredo absoluto. Após o casamento, a lua de mel sela a ruína da protagonista que ao retornar para a casa da mãe conta-lhe a grande novidade. Com o tempo, escreve para o suposto marido uma carta pedindo-lhe que venha urgentemente visitá-la. Ao chegar, Lennox fica ciente da gravidez e percebe que é hora de acabar com a farsa. A mãe quando chega da rua, vê a filha desmaiada de desgosto. Com o passar dos meses, Anna perde a mãe e tem seu filho em uma vila afastada, a fim de esconder a sua “vergonha”. O filho nasce doente e morre em seguida, é quando as mulheres que a acolheram descobrem que ela não tem marido e exige que ela deixe o aposento. Sem rumo, Anna acaba chegando a fazenda dos Bennets onde pede que a empreguem. Neste lugar mora David, um rapaz, único filho do casal de velhos, que se apaixonará por ela. Contudo, Anna esconde o seu passado e passa a conviver com este grupo familiar.

O tempo passa e a afeição da família a Anna cresce, da mesma forma que o amor do rapaz. No entanto, Lennox, que é vizinho desta família, reconhece Anna e exige que ela deixe o lugar, com receio que ela conte a todos o seu infortúnio e o comprometa. Ela resiste, mas, uma das senhoras que testemunhou o parto de Anna chega a cidade e a reconhece quando Anna passa pela rua. A família fica sabendo e expulsa Anna de casa que, vendo-se injustiçada ao ver o casuador de sua desgraça na mesa sendo bem acolhido por todos, exige da família justiça e aponta Lennox como o responsável pelo seu infortúnio. David avança em Lennox e neste momento Anna sai de casa em meio a uma tempestade de neve. David percebe que Anna está ausente e tenta alcançá-la em meio ao nevoeiro. Desesperada, Anna corre em direção ao rio, no intuito de se suicidar, mas sem forças desfalece à margem coberta de gelo. A tempestade melhora e o gelo começa a derreter, levando Anna pela correnteza em direção a cachoeira. David encontra a sua capa e pulando os blocos de gelo chega até Anna que estava próxima a cascata. No momento exato da queda, ele a toma nos braços e a salva. Chegando ao celeiro, ele a deita e a esquenta, tentando reanimá-la, quando chegam os pais e os vizinhos que também estavam a sua procura. O pai pede desculpas a Anna por expulsá-la e é novamente acolhida pela família que consente o casamento do filho com ela. Lennox, aparece e pede Anna em casamento, tentando a sua última cartada para viver dignamente, mas Anna simplesmente lhe vira o rosto. No final, há um casamento coletivo, mesclando o drama à comédia, o que nos faz lembrar as nossas atuais comédias românticas.

Análise

Essa é a história, mas analisar a forma que Griffith estrutura genialmente em imagens não apenas para dar uma coesão narrativa, mas, ao mesmo tempo, acentuando a carga dramática, é um exercício de análise da linguagem cinematográfica, no mínimo, fascinante. Além de trazer à tona o imaginário presente nos contos populares, da moça pobre, órfã, desafortunada, que não apenas fica rica com o casamento, o filme também mostra a sua acolhida socialmente depois de cometer um “erro”, considerando o código puritano vigente. A composição das cenas, misturando a expressão corporal e facial da atriz (o filme é mudo), juntamente com a música de fundo que acompanha todas as cenas, comovem, mesmo com o artifício da divisão das partes (parte I e II). A cena final, quando o personagem sai à procura de Anna pela tempestade de neve é poética, sublime, heróica em todas as suas dimensões e mesmo com problemas na cópia, com alterações de cores, ora está preto e branco ora está amarelada, a montagem e o jogo de câmera, embora sem muita versatilidade, dão o tom de suspense. Enquanto Anna desce rio abaixo deitada desfalecida sobre uma placa de gelo, a visão de sua morte chega ao espectador através de combinações de imagens que se alternam entre: Anna sobre a placa, a força da cachoeira com suas águas espumantes e torrenciais, as placas de desfazendo, algumas são filmadas até serem engolidas pelas águas, sugerindo que o mesmo acontecerá com a protagonista e, por fim, a dificuldade do personagem masculino em alcançá-la. Essas imagens se alternam, transferindo para o espectador a angústia da dúvida, se o rapaz a salvará ou não. Quando a placa onde Anna está deitada está prestes a descer o rio, o rapaz a alcança e a levanta nos braços, no entanto, o seu retorno é difícil, deixando transparecer que os jovens amantes poderiam morrer naquele momento. No meu entender, uma das melhores sequências do filme, senão a melhor. A sequência do degelo é magistral.

Antes de o filme iniciar, o narrador adverte o espectador em relação ao comportamento dos rapazes. A mensagem é dirigida para aqueles que tentam violar as jovens, trazendo transtorno a todos e é por meio da moral cristã que a voz narrativa irá direcionar as suas admoestações. Uma crítica também à educação das jovens, mas, sobremaneira, à educação dos rapazes, principalmente aqueles que, herdeiros da herança familiar, vivem como bon vivant, sem compromissos, apenas gozando a vida, mesmo que para isso cause a desgraça alheia. Neste caso, ter relações sexuais fora do casamento com uma jovem casadoira. O discurso da sedução do homem em relação às mulheres não tem sido muito freqüente, mas o filme aborda o tema, mostrando de forma bastante pedagógica, didática até, como os homens conseguiam os seus favores sexuais: as palavras encantatórias, as promessas de casamento, a melhoria das condições de vida, tudo isso aos ouvidos de uma jovem sem contato social, portanto, ingênua, é um deleite.

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