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Lady Marion de Loxley, de Ridley Scott, 2010

 Em geral gosto dos filmes dirigidos pelo britânico Ridley Scott. Tem sensibilidade para desenvolver filmes com temáticas existencialistas, que levam o espectador a pensar em sua condição humana e ao mesmo tempo em que o coloca como responsável pelo seu destino, como Blade Runner, Thelma & Louise, Até o Limite da Honra, e até mesmo os mais “robustos” com Gladiador, A Lenda, 1492: A Conquista do Paraíso e, apenas para finalizar, o último lançado em 2010, Robin Hood. Dificilmente um filme sob a sua direção passa despercebido pelo público.

O filme Robin Hood, uma releitura de um clássico da mitologia inglesa, foi filmado sete vezes para as telas de cinema. Neste último, dirigido por Scott, chamou-me a atenção a presença marcante de Lady Marion, interpretada pela competente Cate Blanchet, que ao lado de Russel Crowe, diga-se um australiano, que encarna o justiceiro de Nottingham, tenta sobreviver à tirania imperial. Se Robin parte para a guerra contra os inimigos, que sem escrúpulos tentam fazer alianças políticas perigosas, Lady Marion luta para manter a propriedade cultivada para a sobrevivência da população, mas que é ameaçada pelo saqueamento autorizado pelo Rei, além das coletas de impostos escorchantes, colocando a população em situação limite.

Comparando a Lady Marion de Kevin Reynolds (1991) com a de Ridley Scott (2010), vemos o quão diferente elas são. A de Scott é muito mais participativa e articulada com as questões sociais e políticas do que a sua homônima de 19 anos atrás vivida pela atriz Mary Elizabeth Mastrantonio, sempre esperando ser salva por Robin Hood. A Marion vivida por Blanchet sabe se defender e não são poucos os momentos em que ela mostra resistência ao patriarcalismo: quando o xerife a beija forçado, ela morde os lábios dele; quando ela tem que dividir o quarto com Robin Hood, ela o faz se lembrar de que dorme com uma adaga, caso forçasse alguma situação; quando a cidade é queimada e a população presa nas habitações, é ela quem a liberta; quando um homem tenta estuprá-la, ela se defende com um golpe que deixa seu opositor desacordado e, por fim, quando o espectador acha que ela esperará por Robin Hood que parte para a guerra, ela aparece ao seu lado em plena batalha usando armadura e desembainhando uma espada.

Neste momento, há um trecho curioso, quando Robin a repreende por estar ali, ela responde com apenas um olhar, ele a entende e se dirige a ela como um soldado, ordenando que entre em combate. Com todas essas atuações, Lady Marion de Scott é muito mais uma mulher aguerrida e talvez mais próxima das mulheres daquela época, ainda sem o filtro romântico burguês que as colocaria como anjos, como ocorre com Lady Marion de Kevin Reynolds. Apesar de Robin Hood centrar em uma personagem masculina, Lady Marion tem participação e presença equilibrada, ainda que apareça menos vezes que Robin de Locksley. A atuação de Cate Blanchet e a composição da personagem que divide a resposabilidade com Robin Hood de evitar que a tirania destrua a população, faz de Lady Marion uma heróína de personalidade forte, destemida, inteligente e ao mesmo tempo sensível. Mesmo sabendo que com a morte do marido perderia a propriedade, se indigna em aceitar Robin de Locksley como marido, a título de disfarce, para que não perca a propriedade que, segundo sugere o sogro, é passada de pai para filho, neste caso ao marido de Marion, morto em combate. O patriarcado aparece na forma da herança das terras e no arranjo de conjugalidade, forçando Lady Marion a manter as aparências para a população. A convivência faz com que Robin Hood e Lady Marion se apaixonem, como não poderia deixar de ser, e ambos passam a viver na floresta devido às perseguições do Rei.

O desfecho mostra Robin Hood ensinando os meninos a manusearem o arco e a flecha, enquanto que Lady Marion aparece tratando da saúde de uma criança. O curioso é que ambos estão entre crianças e, mesmo na floresta, os papéis estão definidos: ela cuida, exerce papel maternal, enquanto ele treina os meninos para a batalha. Por esse final, percebe-se que enquanto Lady Marion estava sozinha, a sua presença era mais forte, mais aguerrida, tendo que defender-se dos inimigos, já que seu marido estava longe, na guerra, e o seu sogro, era um velho cego, ou seja, incapaz de protegê-la. Porém, mesmo com tantas ameaças, Lady Marion consegue livrar-se dos seus inimigos, evocando uma figura com certa força e poder. No entanto, a ameaça estava sempre a sua espreita, como se exigindo a figura masculina para protegê-la, mais especificamente Robin Hood. Quando uma mulher sofre ameaças em um filme, muitas vezes, devido a internalização do modelo, a espectadora é levada incoscientemente a “pedir” a presença masculina, o que obviamente confirma a internalização de um modelo de segurança com base no sistema de representação que a mulher aprende ao longo da vida. Há uma satisfação quando a espectadora vê a heroína se livrando dos malfeitores sem a intervenção de um homem. Mas como o filme é centrado em Robin Hood a figura viril, protetora, tende a projetar-se, mesmo diante de uma personagem marcante e destemida como a Lady Marion de Scott. A cena que mostra a indispensável presença de Hood, acontece quando Lady Marion, durante a batalha, reconhece o assassino do seu sogro e parte para o combate. Robin Hood a vê sendo afogada pelo inimigo. A câmera lenta mostra o grito desesperador do protagonista como se estivesse antecipando a morte da amada e corre para livrá-la da situação. Esta cena gera grande força dramática por causa da técnica do slow motion e pela proximidade da câmera no protagonista.

Depois de destruir o vilão, porque apenas o herói pode fazer isso, Robin Hood eleva Lady Marion nos braços e a conduz para a praia, sendo ovacionado pelo povo, para desgosto do tirano e invejoso Rei. Neste momento, delimita-se os gêneros, deixando claro que nas narrativas centradas no herói, os valores considerados hegemonicamente como masculinos serão ressaltados em relação ao que se convencionou considerar de valores femininos. A força física, por exemplo, é uma delas. O contraste é um elemento constitutivo no constructo de gênero e neste contexto fílmico, em razão do foco da personagem central, as qualidades dele são acentuadas, isto é, qualidades masculinas de um tempo, um lugar e uma cultura específica.

Mas a Lady Marion de Scott se impôs, defendeu, lutou e amou, nada em que não nos reconheçamos.  

Ficha Técnica:
título original:Robin Hood
gênero:Aventura
duração:2 hr 28 min
ano de lançamento: 2010
site oficial: http://www.robinhoodthemovie.com/
estúdio: Universal Pictures
Imagine Entertainment
Relativity Media
Scott Free Productions
distribuidora: Universal Pictures (EUA)
United International Pictures - UIP
direção: Ridley Scott
roteiro: Brian Helgeland, baseado em história de Brian Helgeland, Ethan Reiff e Cyrus Voris
produção: Russell Crowe, Brian Grazer e Ridley Scott
música: Marc Streitenfeld
fotografia: John Mathieson
direção de arte: David Allday, Ray Chan e Karen Wakefield
figurino: Janty Yates
edição: Pietro Scalia
efeitos especiais:Centroid Motion Capture
Hammerhead Productions
Moving Picture Company
Lola Visual Effects
Plowman Craven & Associates


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