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ALGO QUE VOCÊ PRECISA SABER, 2009.

QUELQUE CHOSE À TE DIRE é um drama francês de Cécile Telerman, diretora que também assina o roteiro. O filme narra a história de uma família com todas as suas contradições. Parece um velho mote, mas o filme não deixa de ser bem feito, embora em um determinado momento a narrativa acelere. Apesar de centrar-se em uma família, outros núcleos serão afetados, pois seus membros passam a se relacionar com pessoas que, apesar de serem a princípio desconhecidas, são bem mais próximas do que se imagina.

A família Celliers é formada por Henry Celliers (Patrick Chesnais), empresário de influência e aposentado, marido de Mady Celliers (Charlotte Rampling), uma dona-de-casa que abandonou a sua paixão, a pintura, depois de sofrer uma desilusão amorosa quando jovem, ao se apaixonar pelo seu professor com quem teve um filho, Antoine (Pascal Elbé), empresário falido que tenta esconder do pai adotivo a sua situação. Alice Celliers (Mathilde Seigner) é uma das filhas de Mady e Henry que, assim como a mãe, desenvolveu o gosto pelas artes plásticas. Alice conhece o policial Jacques ao ser flagrada por porte de drogas e com quem vem a ter um caso. Esta aproximação será crucial, pois Jacques descobre que Alice é irmã de Antoine, por quem desenvolverá um sentimento de ódio ao saber que seu pai, no testamento, deixou toda a obra para o seu filho “ilegítimo”.

O filme de Cécile Telerman tematiza questões profundas nas relações familiares, como infidelidade, casamento sem amor, desgaste nas relações, filhos ilegítimos, mentiras, que acabam marcando indelevelmente as vidas das pessoas envolvidas. Telerman fez questão de mostrar como as relações familiares não são um problema em si, mas que aquelas pautadas em segredos e mentiras, sobretudo em relação ao passado, tendem a arruinar vidas e provocar desarmonia.

As mulheres do filme são cinco e todas sofrem ou sofreram com os casos extra-conjugais. Mady sufocada em seu segredo por ter engravidado de seu amante que era casado; a mãe de Jacques que sofreu com as aventuras amorosoas do marido, levando-a abandonar o seu filho, Jacques; Annabelle que sofre ao engravidar do seu amante, também casado; a esposa de Jacques que engravida, mas logo é abandonada por ele e Alice que, depois de vários abortos de seus relacionamentos, resolve engravidar de Jacques, quando este decide ficar com ela.  As gravidezes aparecem em momento de crise ou de união. Mas é um fato curioso que o estado de gravidez se repita com tanta ênfase e de maneiras diferentes. De qualquer sorte, existem, nas histórias das mulheres, mágoas em relação aos maridos e aos amantes. As que eram casadas, atormentam-se com o fantasma da infidelidade dos maridos e dos filhos frutos desses relacionamentos, muitas vezes a mágoa é transferida para os filhos. Por outro lado, as amantes esperam que os filhos que elas levam dos homens possam acelerar a decisão deles em abandonar as esposas, coisa que não aconteceu com Mady, daí a depressão, mas aconteceu com Annabelle, sua filha, que teve um filho com um médico casado e que no final aparece posando para a foto com a família.

As úlimas cenas do filme são reservadas ao reencontro dos membros da família, agora mais ampla, diferente das cenas inciais do filme em que os membros se reunem com certo mal-estar e dirigindo-se mutuamente de forma rancorosa. Contudo, para chegar a esse momento, as máscaras precisavam cair, permitindo que cada um falasse o que estava sentindo, inclusive se separassem para que pudessem se encontrar novamente. O filme aparentemente pode passar uma imagem apologética da família feliz, mas mostra que para se chegar a um convívio respeitoso, faz-se necessário que as relações sejam francas e honestas. É com base nesse princípio que as várias vidas se refazem, de uma maneira mais leve e harmoniosa, com cada um aceitando e entendendo as histórias do outro.

Acesse o link para informar-se sobre local e horário de exibição: http://www.cineinsite.com.br/filme/filme-fichatecnica.php?id_filme=34524

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