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MULAS COLOMBIANAS

Maria Cheia de Graça (Maria Llena Eres de Gracia/Maria Full of Grace) é um filme de origem norte-americana e colombiana, lançado em 2004, com roteiro e direção assinados por Joshua Marston. O filme conta a história de Maria, uma jovem de 17 anos, que trabalha tirando espinhos de rosas em uma cidade pequena da Colômbia. Grávida do namorado e tendo dificuldades no trabalho através do qual também ajuda a manter a família, formada apenas por mulheres, Maria se demite e parte para Nova Iorque como “mula”, isto é, arriscando a vida engolindo papelotes de cocaína. A adversidade e a situação de extrema pobreza levam as jovens comlombianas, ávidas por melhores condições de vida, a percorrerem caminhos difíceis, tortuosos, expondo, contraditoriamente, as suas vidas.

O cartaz do filme nos remete, em uma clara intertextualidade, à narrativa bíblica, já que nos faz lembrar da personagem Maria, considerada cheia de graça, por gerar aquele que salvaria a humanidade de todos os pecados e males. Também, faz clara referência à religião católica, que “fundou” a América Latina, ao trazer no cartaz a imagem em close up da protagonista com a cabeça inclinada para trás, recebendo papelotes de cocaína no lugar da hóstia, das mãos de um homem, fato marcante e simbólico, pois representa as relações de poder de gênero que alicerça as práticas socioculturais na América Latina e escudado pela religião.

Assim como a hóstia é ingerida simbolizando ritualisticamente a salvação da alma do pecador, os papelotes da droga são ingeridos ritualisticamente na crença da salvação e libertação das mulheres de todos os “pecados” erigidos das desigualdades sociais. As drogas significam para muitas mulheres a chance real e imediata, como são as necessidades vitais, de sobrevivência, de melhoria de vida, muito embora elas signifiquem também o caminho mais curto para a morte, pois o rompimento dos papelotes no estômago seria fatal para as mulheres. Curiosamente, apenas as mulheres são as “mulas”, os homens comandam, usam os seus corpos para os seus interesses, apesar do “consentimento” delas. O consentimento sem consentimento ao qual se refere Noam Chomsky em seu livro “O lucro ou as pessoas”. Nele, o autor norte-americano fala de uma aceitação induzida pela manipulação da linguagem e que no filme aparece como sendo uma mediação discursiva exclusivamente masculina. A solidão das meninas e o completo desamparo levam-nas a caminhos muitas vezes sem volta, como foi o de Lucy, assassinada depois do estouro do papelote em seu estômago e tendo em seguida seu corpo aberto pelos traficantes para a completa retirada das drogas. A desumanidade vista no diálogo entre os traficantes e as jovens mostra a reificação das pessoas que nada valem como seres humanos, mas apenas como lucro, coisas, meios para terem acesso ao dinheiro ou ao poder. Uma crítica feroz ao sistema capitalista que produz o refugo e depois tenta combatê-lo e usá-lo para manter o próprio sistema.

O sacrifício e a culpabilização, tão ao gosto católico, aparece no filme, mas subvertido pela protagonista que rompe com o ciclo de dependência familiar que a atolava a uma vida medíocre, sem saída, e escolhe refazer a sua vida nos Estados Unidos, mesmo com todas as grandes dificuldades que os latinos passam naquele país.

As mulheres que nascem em um país de cultura historicamente patriarcal e cheio de limitações são vistas apenas como mão-de-obra barata, objeto de prazer dos homens ou como “mulas”, curiosamente todos “servem” aos interesses dos homens que as comandam. A família de Maria, formada apenas por mulheres, exceto o bebê, tem grandes dificuldades em se manter, pois representa um núcleo familiar que sobrevive sem a presença masculina. Estes as abandonaram quando estavam grávidas.O patriarcado que gera homens irresponsáveis e desumanos e mulheres alijadas do seu corpo e desumanizadas mostra a sua face mais perversa no filme que criticamente expões as contradições dessa estrutura social. Esse patriarcado dentro de um sistema econômico capitalista gera a extrema decadência humana nos países pobres que apenas servem como geradores de mão-de-obra barata na sustentação das riquezas dos países desenvolvidos. Os países da América Latina reproduzem a lógica da exploração econômica que, ao se justapor à cultura patriarcal da exploração de gênero, transforma as mulheres pobres em um grupo social duplamente subjugado.

Maria, Juana, Lucy, Carla são personagens de um filme, mas que encontramos em muitos lugares. O mesmo sistema que mostra um estilo de vida prazeroso e confortável para “todos” é o que veda o acesso às mulheres a obtê-los pelos meios lícitos, restando a elas entregarem-se a outros meios perigosos como forma de obterem o mínimo para a sua sobrevivência.

• Título original: Maria, Llena eres de Gracia
• Gênero: Drama
• Duração: 01 hs 41 min
• Ano de lançamento: 2004
• Estúdio: HBO Films / Santa Fe Productions / Tucán Producciones Cinematográficas Ltda. / Alter-Ciné / Journeyman Pictures
• Distribuidora: Fine Line Features / Imagem Filmes
• Direção: Joshua Marston
• Roteiro: Joshua Marston
• Produção: Paul S. Mezey
• Música: Leonardo Heiblum e Jacobo Lieberman
• Fotografia: Jim Denault
• Edição: Anne McCabe e Lee Percy

Elenco principal:

• Catalina Sandino Moreno (Maria Alvarez)
• Yenny Paola Vega (Blanca)
• Virginia Ariza (Juana)
• Johanna Andrea Mora (Diana)
• Wilson Guerrero (Juan)
• John Álex Toro (Franklin)
• Guilied Lopez (Lucy)
• Patricia Rae (Carla)
• Orlando Tobon (Don Fernando)

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