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Miranda Priestly: "That's all"

"Her face is a map of the world
Is a map of the world
You can see she’s a beautiful girl"
(Sunddenly I See, KT Tunstall)






Direção: David Flankel
Roteiro: Aline Brosh McKenna
Baseado no romance de: Lauren Weisberg
Elenco: Meryl Streep (Miranda Priestly), Anne Hathaway (Andrea 'Andy' Sachs), Emily Blunt (Emily Chalton, Stanley Tucci (Nigel), Simon Baker, (Christian Thompson), Adrian Grenier (Nate)

Poderia começar a falar sobre o filme de qualquer ponto, mas o cartaz de divulgação me chamou a atenção, pois parece dizer muito sobre como dirigir o sentido do público, induzindo-o a participar dos significados antecipados, isso quando o cartaz cumpre a sua real função de promover e divulgar o filme. Isso torna o cartaz um elemento pré-textual contextualizador de grande importância na ancoragem dos sentidos do filme. O cartaz ativa a nossa memória - e com ela o código social que nos faz sentir pertencentes a um grupo - ao trazer a imagem de um scarpin vermelho, salto tipo agulha para simbolizar a feminilidade da mulher urbana de classe média. Tal texto não nos chamaria nos chamaria tanto atenção, se não fosse a atualização desse código, isto é, ao formular o enunicado, aparece um elemento insólito: um "tridente" na ponta do salto.

Toda essa simbologia - vermelho, sapato de salto, tridente - ratifica um discurso secular ocidental que vincula a mulher à sedução, ao mal. No caso específico da protaginista, Miranda Priestly (Meryl Streep), a marca da maldade prevalece em relação à sedução. Miranda é uma mulher sedutora, mas é uma sedução pelo cargo que possui e pelas portas que se abrem a partir desse lugar, de ser editora-chefe de uma grande revista de moda: "trabalhe para ela e o mundo é seu", setencia Emily, uma de suas assistentes. O sentimento de admiração e ao mesmo tempo ódio que ela alimenta se misturam, o que a torna lendária. É assim que a sua assistente se refere a ela:"the legend". Essa "adoração" misturada com bajulação faz com que as pessoas do seu entorno não arrisquem tanto, exceto Nigel, seu braço direito, e Andrea que passa a ter a confiança, depois de ter passado pelos rituais de confiabilidade. Mas nada seria estranho ou diabólico se fosse um homem em seu lugar, mas como é uma mulher acaba se tornando alvo de comentários e de crítica. Miranda é uma alta executiva dedicada a sua carreira e age como tal: quer otimizar seu tempo, exige igual dedicação de seus funcionários, sobretudo os que estão diretamente ligados a ela, pontualidade, rapidez, criatividade, enfim, resultados. Nada estranho dentro de uma lógica de mercado, sobretudo da moda.

O mal é representado pela mulher poderosa, independente, admirada, que sabe negociar, mas tudo isso é colocado em conflito com a sua vida pessoal. No filme, é a mulher executiva que será comparada ao mal e, para culminar, ela é representada como uma mulher divorciada e em crise com o casamento: "Lá está ele esperando por ela de novo", diz o marido de Miranda quando ela falta a um encontro.

Anne Hathaway (Andrea) é uma jovem recém-formada em jornalismo que sai de Ohio para Nova Iorque para tentar encontrar um emprego. Vira uma das assistentes de Miranda e tenta adequar-se a um ambiente de trabalho diferente daquilo que idealizava ao sair da faculdade, mas acaba desenvolvendo estratégias conciliando o ideal com o real. O conflito ocorre pelo choque entre culturas diferentes, já que ela é do interior e se muda para uma cidade como Nova Iorque, uma metrópole, com novos códigos. Nesse aspecto as relações no trabalho refletem a lógica das relações sociais, de disputas, de poder e as mulheres estão nesses espaços.

Um dos personagens masculinos mais misóginos do filme é o namorado de Andrea, Nate, um jovem que trabalha como chefe de uma lanchonete. Nate festeja o dia em que a namorada lhe comunica sobre a sua saída do emprego na Runaway: "Andrea, que bom. Parabéns. Está livre". Os dois rompem, mas retomam a relação quando Andrea sofre uma grande decepção no trabalho, percebendo como se dão os jogos e as relações de força quando o poder está em disputa.

Miranda, por sua vez, respeita a saída de Andrea e dá "boas referências" suas a um jornal que pretende contratá-la.

Andrea e Miranda são duas mulheres com histórias muito semelhantes. Apesar de pertencerem a gerações diferentes, vivenciam um conflito ainda sem solução para as mulheres atuais que é conciliar a realização profissional com a realização pessoal (como se a profissão não fosse uma realização pessoal). O filme parece querer mostrar que as duas esferas não são conciliáveis para as mulheres, pois para se dedicarem ao trabalho e à vida familiar precisam reconfigurar as relações familiares que, por sua vez, encontra forte resistência por parte dos homens com os quais convivem. Essa resitência é que torna a vida da mulher tão dilacerante e insuportável, como se para construir uma carreira tivesse de abrir mão de interesses familiares. Apesar do filme terminar com uma aparente conciliação entre esses dois espaços, com Andrea e Nate reatando o romance, não é muito difícil constatar os problemas que virão, a menos que ela renuncie a sua carreira. O sorriso de Miranda, no final do filme, parece querer nos dizer algo que só poderá se revelar no futuro. Um sorriso que é imediatamente substituído por um breve e imperativo "Go!" dirigido ao seu motorista, mostrando as várias faces da personagem, capaz de gestos de ternura e ao mesmo tempo mais enérgico. Vale ressaltar que, embora Miranda escolha os verbos imperativos com alta carga de ironia, esse efeito é logo atenuado pelo suave tom de sua voz que além de baixo é cadenciado.

Algumas falas de Miranda:

"É difícil encontrar militares mulheres femininas e magras?" (sobre a possibilidade de uma matéria com mulheres militares)
"Por que ninguém está pronto?"
"That's all" (sempre que não queria mais ouvir o seu interlocutor)

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