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ALGUÉM TEM QUE CEDER (SOMETHING’S GOTTA GIVE, 2003)

Ficha Técnica:

Direção: Nancy Meyers
Produção: Nancy Meyers
Roteiro: Nancy Meyers

Elenco Principal:

Diane Keaton: Erica Barry
Jack Nicholson: Harry Sonborn
Keanu Reeves: Julian Mercer
Amanda Peet: Marrin Barry


Nancy Meyers assina a produção, a direção e o roteiro desse filme. Tem se especializado no gênero “comédia romântica”, dirigindo e produzindo filmes como O amor não tira férias (The Holiday, 2006), Do que as mulheres gostam (What women want, 2000). Além disso, escreveu os roteiros de O pai da noiva (Father of the Bride, 1995) e os citados anteriormente.

Em Alguém Tem Que Ceder, Meyers, aos 60 anos de idade, aposta em uma temática pouco usual no cinema norte-americano, mas que tem sido pontuado em alguns filmes visto que as mulheres que estão atrás das câmeras estão hoje “na casa” dos sessenta: os relacionamentos amorosos de uma mulher madura. Erica Barry (Diane Keaton) é uma dramaturga bem-sucedida que acolhe em sua casa de praia o namorado de sua filha, Harry Sanborn (Jack Nicholson). Durante a hospedagem, Sanborn sente fortes dores no peito e vai parar no hospital onde Erica conhece um jovem médico (Kenu Reeves) que se encanta por ela.

Sanborn é uma personagem que parece ter colado à pele de Nicholson, assim como o astronauta Garret Breedlove, no filme Laços de Ternura em que aparece constantemente em farras com mulheres com a metade de sua idade. Em Alguém Tem Que Ceder, acontece a mesma coisa, já que a filha de Érica tem muito menos que a idade de Sanborn. Esse jogo de idades torna-se elucidativo para entendermos, do ponto de vista das relações de gênero, como as mulheres foram alijadas de sua sexualidade na fase madura de sua vida, já que para o Ocidente a sexualidade na mulher está muito mais vinculada à reprodução do que ao prazer, este destinado às prostitutas. Com a idade as mulheres vão sendo excluídas do seu próprio corpo, pois precisam não dizer que fazem sexo por prazer. Já o homem, para afirmar-se enquanto tal necessita estar constantemente ladeado de mulheres jovens que possam lhe auferir virilidade, também uma imposição da sociedade como marca distintiva de ser homem. No filme, a ênfase recai na personagem feminina, uma mulher de sessenta anos que é disputada por dois homens: um de trinta e o outro de sessenta.

Durante o romance com Sanborn, Erica flagra-o com uma mulher mais jovem o que a faz sofrer. Contudo é no sofrimento que Erica escreve um roteiro de uma comedia romântica que consegue encenar e obter grande sucesso, arrancando risos da platéia. A leveza com que o texto se apresenta dentro da tragédia da vida, parece ser privilégio d e algumas pessoas que chegam à velhice com a sabedoria de tirar proveito das situações mais desesperadoras. É com essa leveza que Erica escolhe ficar com Sanborn e não com o médico mais jovem, já que com este jamais teria a cumplicidade que tinha com Sanborn, metaforicamente simbolizada pela troca dos óculos. No restaurante, enquanto ela está jantando com o médico (Reeves), Sanborn aparece para lhe devolver os óculos, enquanto ela está com os dele. Nesse momento, ela percebe que o relacionamento seria mais significativo se estivesse com um homem com quem pudesse compartilhar as dores e as alegrias de uma geração. Havia algo em comum entre eles que os tornavam historicamente herdeiros.

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