Pular para o conteúdo principal

AS MULHERES ATRÁS DAS CÂMERAS

Isabel Coixet tem despontado no cinema atual como diretora e/ou roteirista de grande talento e sensibilidade. Nascida na Espanha, seus filmes tematizam a experiência humana em seu limite, daí a morte estar sempre presente em seus filmes, física ou simbolicamente. A morte serve de pretexto para enaltecer a vida, em sua plenitude, longe das banalidades que leva a sociedade consumista a aprisionar as pessoas. Em Minha Vida Sem Mim, 2003, e Elegia, 2008, que no Brasil recebeu a estranha tradução de Fatal, a morte faz-se presente para mostrar o quanto as pessoas se prendem a coisas desimportantes, esquecendo-se, diante do espetáculo da aparência e do extremo individualismo, acentuados por uma sociedade de consumo, a alienação do sujeito da percepção de si. Esse aspecto é bem evidenciado no primeiro filme, Minha Vida Sem Mim, através da fala da protagonista, mãe de duas meninas, que se angustia com o fato de saber que as suas filhas terão de cantar músicas estúpidas que passam na televisão. A morte faz com que a vida ganhe outra dimensão e redireciona o olhar para a leveza, para as pessoas e sua humanidade, antes de serem reificadas. Em Elegia, assim como em Minha Vida Sem Mim, a protagonista também descobre que está com uma doença incurável. O personagem masculino, um homem de aproximadamente sessenta anos, apaixona-se por ela, mas tem receio de entregar-se. A morte aparece para ele duas vezes e faz perder duas pessoas significativas: o seu melhor amigo e confidente e a mulher que amava. Em Minha Vida Sem Mim, a protagonista morre aos 23 anos, em Elegia também a protagonista morre muito jovem, dissociando, dessa forma, a idéia da morte ligada à velhice. Essa recorrência nos filmes de Isabel Coixet parece querer nos dizer o quanto a vida é curta e imprevisível e que essa imprevisibilidade deveria levar as pessoas a uma leveza maior, mudando completamente a forma de ver e sentir o mundo, tornando cada momento melhor para si e para o outro.

A consciência da efemeridade da vida longe de levar a um carpe diem desenfreado, sugere um viver intensamente, mas degustando lentamente cada momento.

As mulheres nos filmes morrem, mas não são mártires. Sendo mulheres, a diretora atinge diretamente a audiência feminina para provocar, não a comoção, mas uma reflexão sobre a precariedade da vida e a necessidade de vivê-la mais intensamente, arriscando-se mais, ousando mais e transcendendo-a muito mais.
“Alguien dijo que desde el momento en que uno tiene vida interior, ya está llevando una doble vida. Las palabras, como manadas de peces, pululan en nuestra cabeza y se agolpan en las cuerdas vocales, pugnando por salir y por ser escuchadas por los demás. Y, a veces se pierden en ese camino entre la cabeza y la garganta. Esta película trata de todas esas palabras perdidas, que durante mucho tiempo vagan en un limbo de silencio (y malentendidos y errores y pasado y dolor) y un día salen a borbotones y cuando empiezan a salir ya nada puede pararlas.” ISABEL COIXET

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

RECÉM-NASCIDOS NO CINEMA

Sinal dos tempos.
Recentemente fui assistir ao filme de animação Rio, no Shopping Salvador Norte, e me deparei com uma cena absurda: um bebê recém-nascido dentro da sala de exibição. Como se não bastasse o carrinho de pipoca e outras guloseimas dentro da sala e das bandejas repletas de frituras, exalando óleo requentado por todo o espaço, temos agora mais esta.
Durante a projeção do filme, o bebê chorava compulsivamente, forçando os espectadores a pedirem constantemente silêncio. Fico me perguntando o que leva os pais a cometerem tamanha tentantiva infanticida, submetendo o seu próprio filho a uma sala extremamente fria, ensurdecedora e repleta de ácaros e outros microorganismos prontos para atacarem o corpo frágil e indefeso do bebê. Imagino que os pais deveriam zelar pelo bem-estar dos seus filhos, serem responsáveis pela sua saúde e não o inverso. Fico me perguntando ainda o que levaria o empresariado a acobertar tal malefício, em nome de uns míseros “reais”.

Trata-se, a meu ver, de …

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NOS FILMES

Uma mulher casada ou solteira é submetida a maus tratos pelo marido ou amante. Esta ideia já serviu de roteiro para vários filmes e a postagem aqui seria longa se analisássemos cada um deles. Alguns destes filmes foram dirigidos por homens, outros por mulheres, mas o importante é que o tema tem sido bastante filmado ao longo dos séculos. O que isso significa?
No dia 08 de março, o mundo se volta às questões da violência contra a mulher, não que em outros dias esta situação não seja acompanhada com intervenção de entidades e de pessoas, mas neste dia formou-se uma rede de ações que dão visibilidade a um problema sério no tecido social. Um problema que adoece a sociedade, transformando os homens em criminosos e as mulheres em cadáver.
A sociedade tem sido a mortalha para muitas mulheres.
Os filmes que tratam da violência contra a mulher são em geral ambientados no espaço domiciliar, com maridos violentos que buscam a todo custo submeter às mulheres a maus tratos físicos e psicológicos. …

As Ladies Marian em duas versões de Robin Hood

Mesmo quando o filme traz um homem na figura central da trama, não deixo de observar como as mulheres são vistas pelos seus roteiristas e diretores.
Uma personagem instigante é Lady Marian que aparece nos filmes como par romântico de Robin Hood. A literatura mostra que nem sempre foi constante a forma de representar esta personagem e isto pode ser perceptível quando tomamos dois filmes recentes sobre o legendário arqueiro. Uma das versões é a de Kevin Reynolds (1991) Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (Robin Hood, Prince of Thieves) que traz  Mary Elizabeth Mastrantonio como a atriz que desempenha o papel de Lady Marion. A sua primeira aparição no filme já mostra um conflito de gênero quando luta com Robin Hood (Kevin Costner) inicialmente com a espada e depois no corpo-a-corpo, quando é vencida. Neste momento, ela está usando uma armadura preta. Com a presença de Robin Hood, Lady Marion vai perdendo este ar mais agressivo e tornando-se dependente da proteção dele. Robin já havia prome…