Pular para o conteúdo principal

Lipstick Jungle, 2008 (SERIADO)

Lipstick Jungle, 2008 (Versão Piloto)

“"Selva de Batom" é uma divertida comédia que segue a vida de três amigas quarentonas da alta sociedade e seus problemas profissionais e pessoais. Com muito humor, essas modernas mulheres se apóiam nos triunfoCor do textos e nas lágrimas para vencer na Big Apple americana.” Sinopse exibido por um site que comercializa o DVD do filme.

A diversão do telespectador tem sido cada vez mais sádica. As pessoas se divertem com o desespero alheio, o sofrimento do outro, haja vista a sinopse acima sobre o seriado.
Assisti durante os festejos juninos ao filme Lipstick Jungle, de 2008, que trata de três mulheres bem-sucedidas que vivem em Nova York conflitos cotidianos de como se realizar profissionalmente, mantendo-se em seus postos nas mais poderosas corporações, e emocionalmente, na família ou nas relações amorosas. Duas delas são casadas: uma com um músico que não consegue se dar bem profissionalmente e a quem ela mantém, juntamente com dois filhos e a outra é casada com um homem mais velho, mas que não tem mais interesse sexual por ela. A terceira mulher, solteira, nesse episódio, passa por uma experiência profissional fracassada, buscando compensação em um relacionamento com um homem rico, mas que ao se aproximar dela em um momento de fragilidade manipula e a aprisiona psiquicamente e emocionalmente, presenteando-a com jantares e sexo, ao mesmo tempo em que a desqualifica dizendo-lhe que enquanto mulher estaria fadada ao fracasso, devido a sua “natureza” emotiva.

O filme assemelha-se muito a Sexy in the City até porque foi baseado no livro da mesma escritora Candace Bushnell. Para uma feminista, é um filme difícil de assistir, embora seja classificado como comédia e as sinopses, para efeito de venda, insistam em chamá-lo de divertido. A mensagem produzida pode ser visto como um backlash, na medida em que reforça a idéia de incompatibilidade entre os dois espaços (profissão e casa), pois as mulheres realizadas profissionalmente passam por situações insuportáveis, humilhantes em sua vida particular, pessoal, afetiva, empurrando-as para a esfera doméstica. A personagem que aparece menos problemas no final é a solteira que encontra o grande amor.

O final é desconcertante, apavorante para as mulheres que querem seguir uma carreira, ocupando cargos de poder. É um apelo às mulheres para não prosseguirem nesses espaços, pois são hostis a elas e, por isso, não sobreviverão na “selva”. A mulher solteira terá seu trabalho clonado por uma outra mulher, disfarçando assim uma polaridade entre os sexos, mas que apenas mostra que a competição se dá em um mundo masculinizado, pelo modelo competitivo vigente, pelas estratégias empregadas para vencer e a supressão de qualquer afetividade vista como impedimento de sucesso profissional nesse modelo de sociedade. O mundo lá fora é para homens ou para quem adota a sua lógica. O funcionário demitido irá processar a sua chefe por assédio e a outra casada será perseguida pelo seu chefe, a fim de encontrar alguma falha de conduta e ser desmoralizada pelos encontros extraconjugais. A solteira terá um "final feliz" dentro do código androcêntrico, pois encontra "o homem dos sonhos" - rico, jovem e bonito. Claro que esse happy end representa o que a ideologia de uma classe dominante quer para as mulheres continuarem em suas casas, cuidando do marido e dos filhos. Por isso, apresenta o desfecho da mulher solteira como o caminho a ser seguido pelas mulheres porque as outras terão de passar por complicações no mundo profissional e pessoal.

Encerro o meu texto com um comentário extraído do mesmo site supracitado, em epígrafe, feito por uma internauta que, pelo visto, envolveu-se e viciou-se nas desventuras e sofrimento das protagonistas:

“ Assim como o seriado Sex and the City o Lipstick Jungle é envolvente e viciante... Mulheres, o mundo feminino tem um novo seriado!”

Um novo seriado, mas com velhas ideologias. Será que não percebemos?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

RECÉM-NASCIDOS NO CINEMA

Sinal dos tempos.
Recentemente fui assistir ao filme de animação Rio, no Shopping Salvador Norte, e me deparei com uma cena absurda: um bebê recém-nascido dentro da sala de exibição. Como se não bastasse o carrinho de pipoca e outras guloseimas dentro da sala e das bandejas repletas de frituras, exalando óleo requentado por todo o espaço, temos agora mais esta.
Durante a projeção do filme, o bebê chorava compulsivamente, forçando os espectadores a pedirem constantemente silêncio. Fico me perguntando o que leva os pais a cometerem tamanha tentantiva infanticida, submetendo o seu próprio filho a uma sala extremamente fria, ensurdecedora e repleta de ácaros e outros microorganismos prontos para atacarem o corpo frágil e indefeso do bebê. Imagino que os pais deveriam zelar pelo bem-estar dos seus filhos, serem responsáveis pela sua saúde e não o inverso. Fico me perguntando ainda o que levaria o empresariado a acobertar tal malefício, em nome de uns míseros “reais”.

Trata-se, a meu ver, de …

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NOS FILMES

Uma mulher casada ou solteira é submetida a maus tratos pelo marido ou amante. Esta ideia já serviu de roteiro para vários filmes e a postagem aqui seria longa se analisássemos cada um deles. Alguns destes filmes foram dirigidos por homens, outros por mulheres, mas o importante é que o tema tem sido bastante filmado ao longo dos séculos. O que isso significa?
No dia 08 de março, o mundo se volta às questões da violência contra a mulher, não que em outros dias esta situação não seja acompanhada com intervenção de entidades e de pessoas, mas neste dia formou-se uma rede de ações que dão visibilidade a um problema sério no tecido social. Um problema que adoece a sociedade, transformando os homens em criminosos e as mulheres em cadáver.
A sociedade tem sido a mortalha para muitas mulheres.
Os filmes que tratam da violência contra a mulher são em geral ambientados no espaço domiciliar, com maridos violentos que buscam a todo custo submeter às mulheres a maus tratos físicos e psicológicos. …

As Ladies Marian em duas versões de Robin Hood

Mesmo quando o filme traz um homem na figura central da trama, não deixo de observar como as mulheres são vistas pelos seus roteiristas e diretores.
Uma personagem instigante é Lady Marian que aparece nos filmes como par romântico de Robin Hood. A literatura mostra que nem sempre foi constante a forma de representar esta personagem e isto pode ser perceptível quando tomamos dois filmes recentes sobre o legendário arqueiro. Uma das versões é a de Kevin Reynolds (1991) Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (Robin Hood, Prince of Thieves) que traz  Mary Elizabeth Mastrantonio como a atriz que desempenha o papel de Lady Marion. A sua primeira aparição no filme já mostra um conflito de gênero quando luta com Robin Hood (Kevin Costner) inicialmente com a espada e depois no corpo-a-corpo, quando é vencida. Neste momento, ela está usando uma armadura preta. Com a presença de Robin Hood, Lady Marion vai perdendo este ar mais agressivo e tornando-se dependente da proteção dele. Robin já havia prome…