Pular para o conteúdo principal

FATAL (Elegy, 2008), de Isabel Coitex


Fatal (2008) é um filme estadunidense da cineasta Isabel Coixet, baseado no romance de Philippe Roth e estrelado por Ben Kingsley (prof. David Kapesh) e Penélope Cruz (Consuela). A tradução do inglês "Elegy" (Elegia) para o português "Fatal" provocou algumas confusões por parte da crítica que parece não ter percebido a tradução como uma estratégia de marketing.

Elegia é um gênero de poema lírico que traz um sentido de morte, mas que também possui um sentido erótico entoado por poetas como Goethe e Rilke. É um termo pouco usual na linguagem cotidiana, o que talvez tenha influenciado a tradução em optar pela palavra Fatal, mais comum e que também guarda um sentido de morte e erotismo.
A palavra já serviu a outros títulos de filmes, como "Atração Fatal" (1987), de Adrian Lyne, e romances, a exemplo de "A Mulher Fatal" (1870), de Camilo Castelo Branco, portanto, fazemos parte de um legado cultural formado por um imaginário com base em relações desenfreadas e sexualmente obsessivas que culminam em morte. Portanto, seria esperado associar a fatalidade do filme ao poder erótico de Consuela, atribuído por Kapesh, por sua beleza.
De fato, se nos limitarmos a ver o filme nessa perspectiva, o resumiríamos na folhetinesca história de um homem idoso, de 60 anos, professor universitário, que se apaixona por sua aluna trinta anos mais jovem que ele. Esse eixo foi o mais evidenciado pela crítica, inclusive por meio de sites que publicaram, de forma sensacionalista, a nudez de Penélope Cruz.
Contudo, uma outra leitura me parece mais desafiadora e provocante, inclusive "fatal", pois quando associamos os elementos do filme à palavra elegia, do título original "Elegy", verificamos que o significado de fatal desliza para um outro sentido em relação à personagem feminina, já que ela descobre estar com câncer. O jogo de alternância de sentidos rompe com a cristalização do signo marcado e engessado nas práticas discursivas cotidianas. Os sentidos da palavra fatal, no filme, aparecem num jogo de luz e sombras onde o sentido erótico e de morte se alternam, tocando-se por vezes. Um evento de dor e pesar se tranforma em aprendizado, mudando as vidas das personagens, sobretudo do prof. Kapesh, que tem dificuldades para lidar com os vínculos afetivos.
Por outro lado, retomando as últimas palavras do parágrafo anterior, podemos fazer ainda uma outra leitura, ao associarmos a palavra elegia ao personagem masculino, que é o principal, pois a ação do filme se desenvolve a partir dele em diferentes núcleos: ele e a aluna-amante, ele e a amante mais velha, ele e o amigo poeta, ele e o filho e ele sozinho quando, submerso em seus pensamentos e questionamentos, nos faz conhecer, nós espectadores, a sua dificuldade em lidar com os vínculos, tanto com as amantes quanto com o filho. A fatalidade, nesse sentido, joga com sua dupla face: vida e morte.

Comentários

  1. Ainda não vi o filme , mas o livro é maravilhoso. há muito tempo não encontrava um livro que me fizesse reler as paginas mais de uma vez, tal a profundidade do que esta escrito. FláviaWolf.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

RECÉM-NASCIDOS NO CINEMA

Sinal dos tempos.
Recentemente fui assistir ao filme de animação Rio, no Shopping Salvador Norte, e me deparei com uma cena absurda: um bebê recém-nascido dentro da sala de exibição. Como se não bastasse o carrinho de pipoca e outras guloseimas dentro da sala e das bandejas repletas de frituras, exalando óleo requentado por todo o espaço, temos agora mais esta.
Durante a projeção do filme, o bebê chorava compulsivamente, forçando os espectadores a pedirem constantemente silêncio. Fico me perguntando o que leva os pais a cometerem tamanha tentantiva infanticida, submetendo o seu próprio filho a uma sala extremamente fria, ensurdecedora e repleta de ácaros e outros microorganismos prontos para atacarem o corpo frágil e indefeso do bebê. Imagino que os pais deveriam zelar pelo bem-estar dos seus filhos, serem responsáveis pela sua saúde e não o inverso. Fico me perguntando ainda o que levaria o empresariado a acobertar tal malefício, em nome de uns míseros “reais”.

Trata-se, a meu ver, de …

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NOS FILMES

Uma mulher casada ou solteira é submetida a maus tratos pelo marido ou amante. Esta ideia já serviu de roteiro para vários filmes e a postagem aqui seria longa se analisássemos cada um deles. Alguns destes filmes foram dirigidos por homens, outros por mulheres, mas o importante é que o tema tem sido bastante filmado ao longo dos séculos. O que isso significa?
No dia 08 de março, o mundo se volta às questões da violência contra a mulher, não que em outros dias esta situação não seja acompanhada com intervenção de entidades e de pessoas, mas neste dia formou-se uma rede de ações que dão visibilidade a um problema sério no tecido social. Um problema que adoece a sociedade, transformando os homens em criminosos e as mulheres em cadáver.
A sociedade tem sido a mortalha para muitas mulheres.
Os filmes que tratam da violência contra a mulher são em geral ambientados no espaço domiciliar, com maridos violentos que buscam a todo custo submeter às mulheres a maus tratos físicos e psicológicos. …

As Ladies Marian em duas versões de Robin Hood

Mesmo quando o filme traz um homem na figura central da trama, não deixo de observar como as mulheres são vistas pelos seus roteiristas e diretores.
Uma personagem instigante é Lady Marian que aparece nos filmes como par romântico de Robin Hood. A literatura mostra que nem sempre foi constante a forma de representar esta personagem e isto pode ser perceptível quando tomamos dois filmes recentes sobre o legendário arqueiro. Uma das versões é a de Kevin Reynolds (1991) Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (Robin Hood, Prince of Thieves) que traz  Mary Elizabeth Mastrantonio como a atriz que desempenha o papel de Lady Marion. A sua primeira aparição no filme já mostra um conflito de gênero quando luta com Robin Hood (Kevin Costner) inicialmente com a espada e depois no corpo-a-corpo, quando é vencida. Neste momento, ela está usando uma armadura preta. Com a presença de Robin Hood, Lady Marion vai perdendo este ar mais agressivo e tornando-se dependente da proteção dele. Robin já havia prome…