Pular para o conteúdo principal

Camille Claudel, 1988 (França), de Bruno Nuytten


Assisti há pouco tempo o filme Camille Claudel, do cineasta francês Bruno Nuytten, e é sempre um prazer rever a história de uma mulher que viveu cada momento de sua vida de forma intensa, incompreendida, considerada pelo discurso hegemônico como inadequada, mesmo para a recém revolucionária França do século XIX. O filme biográfico trata do percurso de vida de uma jovem escultora francesa que se viu diante de suas paixões: a escultura e Rodin, com quem estudou e viveu uma paixão avassaladora. Diante da impossibilidade de viver na condição de amante, já que Rodin era casado, e de ter esperança que Rodin rompesse com a esposa, Claudel mergulha vertiginosamente sobre o seu trabalho, perseguida pelo fantasma de Rodin que passa a ser aquele que a explorou . Por conta disso, decide viver trancafiada e isolada para, em seguida, ser internada pelos familiares em um manicômio.

A escultura para Camille Claudel representava a expressão da sua existência, as suas emoções, as suas experiências amorosas talhadas com paixão, dor e morte. Nesse filme, as cenas exigem do espectador a leveza e a contemplação de quem está observando uma obra de arte. As cenas possuem passagens suaves, com poucas mudanças de ambiente, oscilando entre alguns interiores das residências, em geral de Camille, e nunca o de Rodin, poucas ruas e o atelier. Em termos de linguagem artística, o filme explora a jogo de iluminação, sonorização, além de mostrar um diálogo com outras artes como a fotografia, literatura. música e pintura. Além disso, apresenta as artes fortemente ligadas e dependentes da mídia, o jornal, de quem os artistas esperam alguma benevolência e promoção por parte da crítica.

O filme Camille Claudel é uma produção cuidadosa. Uma excelente reconstituição histórica, com cenas de expressão realista, bem ao gosto do filme francês. O filme segue a tradição da escola européia que explora bem as interpretações dos atores, com gestos e movimentos meticulosos, como se esculpidos, associando o enredo fílmico a um contexto que naquele momento refletia uma França após a revolução burguesa que dava esperanças para uns - nesse caso, os homens que mantinham relações com a burguesia - mas que era hostil às mulheres, sobretudo aquelas que não se "enquadravam" nos horizontes de expectativa da classe hegemônica. Não é à toa que no filme as mulheres são representadas ora como esposas silenciosas e assexuadas - que buscam desesperadamente afastar as amantes de seus maridos - ora como amantes, a quem os momentos de prazer são compartilhados de forma intensa, mas instáveis.
Vendo-se explorada pelo amante e empresário, Claudel acaba justificando a sua clausura, se afastando de todos. O seu medo traduz a dificuldade da mulher naquela época em exercer uma profissão, sem a intermediação de alguém que a "apresentasse", que a legitimasse. O fato de depender profisionalmente do homem - ter a sua obra assinada por Rodin - contribuiu para acentuar a dependência amorosa, numa relação de dupla subordinação psicológica.

Comentários

  1. Adorei o filme [ O estranho caso ]. E o que efeitos gráficos e artisticos há mão foram bem trabalhados. Perfeito ;)

    ResponderExcluir
  2. Obrigada, Azânia, pelo seu comentário. Está gostando das outras matérias?

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

RECÉM-NASCIDOS NO CINEMA

Sinal dos tempos.
Recentemente fui assistir ao filme de animação Rio, no Shopping Salvador Norte, e me deparei com uma cena absurda: um bebê recém-nascido dentro da sala de exibição. Como se não bastasse o carrinho de pipoca e outras guloseimas dentro da sala e das bandejas repletas de frituras, exalando óleo requentado por todo o espaço, temos agora mais esta.
Durante a projeção do filme, o bebê chorava compulsivamente, forçando os espectadores a pedirem constantemente silêncio. Fico me perguntando o que leva os pais a cometerem tamanha tentantiva infanticida, submetendo o seu próprio filho a uma sala extremamente fria, ensurdecedora e repleta de ácaros e outros microorganismos prontos para atacarem o corpo frágil e indefeso do bebê. Imagino que os pais deveriam zelar pelo bem-estar dos seus filhos, serem responsáveis pela sua saúde e não o inverso. Fico me perguntando ainda o que levaria o empresariado a acobertar tal malefício, em nome de uns míseros “reais”.

Trata-se, a meu ver, de …

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NOS FILMES

Uma mulher casada ou solteira é submetida a maus tratos pelo marido ou amante. Esta ideia já serviu de roteiro para vários filmes e a postagem aqui seria longa se analisássemos cada um deles. Alguns destes filmes foram dirigidos por homens, outros por mulheres, mas o importante é que o tema tem sido bastante filmado ao longo dos séculos. O que isso significa?
No dia 08 de março, o mundo se volta às questões da violência contra a mulher, não que em outros dias esta situação não seja acompanhada com intervenção de entidades e de pessoas, mas neste dia formou-se uma rede de ações que dão visibilidade a um problema sério no tecido social. Um problema que adoece a sociedade, transformando os homens em criminosos e as mulheres em cadáver.
A sociedade tem sido a mortalha para muitas mulheres.
Os filmes que tratam da violência contra a mulher são em geral ambientados no espaço domiciliar, com maridos violentos que buscam a todo custo submeter às mulheres a maus tratos físicos e psicológicos. …

As Ladies Marian em duas versões de Robin Hood

Mesmo quando o filme traz um homem na figura central da trama, não deixo de observar como as mulheres são vistas pelos seus roteiristas e diretores.
Uma personagem instigante é Lady Marian que aparece nos filmes como par romântico de Robin Hood. A literatura mostra que nem sempre foi constante a forma de representar esta personagem e isto pode ser perceptível quando tomamos dois filmes recentes sobre o legendário arqueiro. Uma das versões é a de Kevin Reynolds (1991) Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (Robin Hood, Prince of Thieves) que traz  Mary Elizabeth Mastrantonio como a atriz que desempenha o papel de Lady Marion. A sua primeira aparição no filme já mostra um conflito de gênero quando luta com Robin Hood (Kevin Costner) inicialmente com a espada e depois no corpo-a-corpo, quando é vencida. Neste momento, ela está usando uma armadura preta. Com a presença de Robin Hood, Lady Marion vai perdendo este ar mais agressivo e tornando-se dependente da proteção dele. Robin já havia prome…