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CINEMA E MULHER NO ESPAÇO UNIBANCO

Os filmes de hoje tiveram como tema a violência contra a mulher.

O filme de Jacco, dirigido por Daan Bakker, de produção holandesa, de 2009, é um curta de 17 minutos. Trata da história de um menino que narra como se estivesse produzindo um filme - narrando e editando. O que vemos são os efeitos do recurso, já que em nenhum momento vemos ele portar uma câmera. O curta por meio da linguagem cinematográfica e por meio da metalinguagem mostra como uma criança interage com o mundo, selecionando, recortando, inserindo falas, transformando a realidade. A exemplo de uma cena em que duas meninas aparecem recostadas em suas duas motos e que não dão a mínima atenção para o personagem, no entanto, ele inverte a realidade dizendo que estão super interessadas nele.  

O curta  mostra, sobretudo, a visão de um menino a partir dos problemas familiares, de um pai viciado em jogo e a mãe que, mesmo infeliz, não consegue sair da situação em que se encontra. O pai chega a vender objetos da casa para dar conta do vício. Esta cena é muito criativa, já que, sem referências linguísticas, setas desenhadas apontam para o objeto que será vendido, dando um tom trágico-cômico ao evento, próprio da visão de uma criança que, mesmo em situações dramáticas, contra espaço para criar, inserir o seu olhar. Outro momento de criação, dá-se quando durante uma briga dos pais, ele reinventa falas elogiosas sobre as agressões, dublando-as, mostrando um mecanismo de defesa.  

Já a sequência intitulada Luchadoras, dirigido por Benet Román, cuja produção é mexicana e espanhola, tem duração de 13 minutos, também de 2009. É um filme cuja história se passa na Cidade do México e que, numa forma de documentário, com personagens mulheres que falam de suas experiências e expectativas em relação à vida. Entremeando com dados estatisticos deprimentes em relação à mulher, o curta traz temas como o analfabetismo, a pobreza, a baixa remuneração, o machismo, a exclusão da vida política, entre outros aspectos. Mas, também, mostra mulheres que conseguiram alçar vôos e que sinalizam para possibilidades de mudanças.


Outro curta intitulado Homem Furioso, de 2009, foi dirigido por Anita Killi, da Noruega, com duração de 20 minutos. Trata de um menino que convive com os pais em extrema em situação de violência. É uma animação que mostra um pai descontrolado e que deixa vir à tona um monstro, visualmente mostrado ao espectador na forma de uma sombra preta que toma conta de todo o corpo do homem. A esposa é representada de maneira resignada, mas o menino, cansado de ver as cenas diariamente, pede ajuda ao Rei, escrevendo-lhe uma carta, que é entregue por um cachorro. No entanto, antes de se decidir se escreveria ou não, a essa hesitação, os passarinhos começam a pedir que ele conte. O rei bate à porta da casa do menino e leva o pai para um espaço de recuperação. Esta hesitação do menino mostra a dificuldade da criança denunciar a violência doméstica. Neste sentido, a violência contra a mulher é deslocada para a violência contra a criança, já que a mulher só aparece no início e a agressão não é vista, mas ouvida pela criança, que está em seu quarto presenciando as ações. É do seu ponto de vista que a narrativa transcorre e não da mãe.


O filme A noivinha, 2010, foi dirigido por Leslaw Dobrucki e é uma produção polonesa de 14 minutos de duração. Narra a difícil história de mulheres turcas que muito jovens são forçadas a se casarem em nome dos costumes. O curta enfoca a situação de extrema violência das mulheres que são agredidas de diferentes maneiras. As mulheres quando se divorciam, por meio da fuga, vivem às escondidas ou são mortas. A personagem do filme consegue fugir e ser adotada por uma família, mas mesmo assim é tida como fugida pela família do noivo que não cessa de persegui-la.

Por fim, A ordem das coisas, de César Esteban Alenda e José Esteban Alenda, uma produção espanhola de 2010 com 19 minutos. O filme mostra uma personagem feminina, Julia, que não sai da banheira. Todo o filme se passa neste espaço e é construído a partir da busca do marido pelo cinto, que pertencera a seu pai e avô. A ênfase no histórico cinto leva o espectador a relacionar a violência a uma estrutura secular fruto do patriarcado. O espectador se depara constantemente  com o som cadenciado da gota d'água, distorcida pelo seu eco, que metaforiza a vida da protagonista que se esvai. O filho, quando criança, descobre que o cinto fica escondido na banheira, e quando percebe o que ele representa, já jovem, foge de casa, por não suportar ver as marcas da violência no corpo da mãe, porém desde cedo era incitado a procurar o cinto juntamente com o pai. No entanto, ao perceber que o pai não cumprira a promessa de consertar o avião que havia escapulido da mão enquanto omitia o paradeiro do cinto, vê que todo o discurso do pai é falacioso. Os familiares que visitam em um dado momento culpabilizam a mulher pela situação, encorajando-a a colaborar e devolver o cinto.

Vale ressaltar que todos os personagens envelhecem, menos a mulher. No final, a água da banheira transborda e neste ínterim a mulher retira a aliança e emerge no meio do mar. Na sequência, ela aparece apenas metonimicamente por meio do plano em detalhe dos pés e as pegadas na areia, e, em seguida, no plano geral, quando ao longe ela aperece andando.

A câmera desloca o foco para a beira da praia onde várias banheiras dispostas paralelamente com os cintos.

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