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ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS DE FAMÍLIA NO CINEMA DE MULHERES

Nos dois filmes roteirizados por Callie Khouri, O Poder do Amor e Divinos Segredos, o álbum de fotografias aparece como elemento de conexão entre o passado e o presente. Nos filmes, o álbum é mostrado para que as personagens possam entender, compreender a sua história e, assim, perceberem que o presente nada mais é do que uma consequência do passado e, também, uma projeção (de permanência ou ruptura) para o futuro, a ser construído com base na superação ou não resolução dos traumas e desajustes.

Em O Poder do Amor, Grace (Julia Roberts) logo após ter passado por uma decepção em seu casamento (infidelidade), se pergunta como chegou ali, tendo abandonado a sua carreira de veterinária (faltava apenas um ano) para se casar. A irmã pega o álbum e mostra que ela tinha escolhido, e que nada foi um acidente, rompendo com o ciclo de vitimização que envolve a mulher e não a faz sair do ciclo de dor e ressentimentos. O álbum, metáfora da história, documenta as ações e contribui para que a mulher se veja como sujeito responsável pelo seu curso. Já em Divinos Segredos, as Ya-Yas mostram para Sidda (Sandra Bulock) o álbum de fotografia da mãe, com quem a personagem não mantém boas relações. Este fato faz com que a vida pessoal de Sidda seja complicada, transtornada, tendo que conviver com os fantasmas do passado que a atordoam, dificultando a sua relação com o noivo. Mãe e filha não se falam e é justamente através do álbum de fotografias, isto é, com a compreensão do passado de sua mãe, seus problemas e heranças traumáticas, que a filha passa a quebrar a sua resistência, descortinando histórias, sentimentos, sonhos não realizados, passando a entender não apenas o passado, mas o presente também.

O álbum de fotografias também aparece no filme A Casa dos Espíritos, escrito por Isabel Allende, no qual Clara (Meryl Streep) mostra uma caixa a sua filha Branca (Wynona Rider) quando esta expressa sua mágoa pelo pai. A mãe tenta dissipar o ódio da filha, já que o pai também é produto da sociedade, pendindo-lhe que olhasse para trás, para a história, com outro olhar, mais compadecido e menos ressentido. A superação só poderia vir com um olhar de tolerância (que não tem a ver com aceitação), mas apontando para a mudança e instaurando uma nova escrita na história.

O álbum de fotografia tão presente nas narrativas de mulheres trata-se de um objeto fundamental de ligação entre passado e presente das mulheres, uma forma de contar história, a história da cotidianidade, a micro-história, a da família. A construção do álbum está relacionado à experiência feminina, já que as mulheres cuidavam dos registros da intimidade. O álbum é também o ponto de conexão entre as mulheres como pode ser visto nos filmes roteirizados por Callie Khouri e escrito por Isabel Allende.

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