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CORALINE, de Henry Selick, 2009

Escrever sobre animação será mais freqüente entre as minhas análises fílmicas, já que estou envolvida com disciplinas e projeto de pesquisa que favorecem o estudo de filmes feitos para o público infantil e juvenil, o que, obviamente, não tira a seriedade da abordagem, do estudo. Já tinha, em outra postagem, feito uma leitura de Alvin e os Esquilos 2, de Betty Thomas. Como  direção de mulheres em animação é bem mais rara, decidi postar um reflexão sobre um filme dirigido por um homem, mas cuja protagonista é uma menina.

O filme de animação de Henry Selick é todo feito a partir da técnica stop motion que utiliza modelos reais – em geral massas de modelar – e que são filmados quadro-a-quadro, em linguagem cinematográfica, fotograma por fotograma. É uma dessas animações que nos chama a atenção não apenas pela técnica, mas pelo tema e tratamento dado a ele. Coraline nos remete ao ambiente gótico, misterioso, com doses de suspense e terror. O traço longuíneo do desenho faz referência ao estilo gótico, reforçando o caráter sombrio e de perigo à sua personagem. É um filme ambientado em uma atmosfera sombria, lúgubre, quase toda escura, bem dentro da proposta do romance do escritor britânico Neil Gaiman, do qual o filme foi adaptado.

O filme pode ser resumido da seguinte forma: Coraline muda-se com seus pais para uma velha mansão intitulada Casa Cor-de-Rosa (como ocorre também com As Crônicas de Spiderwick, cuja família também se muda para uma mansão quase em ruínas). Coraline é filha única de um casal que é mostrado sempre em atividade profissional. A visão que a personagem tem de sua família é a que se quer passar para o espectador: pais muito atarefados com seus projetos profissionais e que pouca atenção é dada a ela. O ponto de vista da menina chega aos olhos do espectador que não leva muito tempo para perceber que ela está insatisfeita com a forma que seus pais a tratam e que, por isso, cobra mais atenção dele. Ela também põe em questão o modelo familiar em que vive, com papéis de gênero não tão bem demarcados, já que os pais não são vistos desempenhando os papéis convencionais. Tanto a casa quanto o jardim estão abandonados, pois os pais estão envolvidos com o trabalho.

Na concepção da protagonista, os pais deveriam dar mais atenção a ela, assim como a casa e o seu entorno. Curiosamente, os dois realizam as atividades profissionais em casa, colocando em questão a divisão sexual dos espaços de trabalho em pública e privada, já que ambos estão no mesmo espaço. Porém, a questão não é mais espacial, mas diz respeito agora a busca de equilibro entre as atividades profissionais e as atividades familiares. O curioso é que na divisão das tarefas domésticas, o pai fica responsável em fazer as refeições, o que é questionado pela filha, pois não gosta do tipo de comida que o pai prepara, chegando mesmo a questionar o motivo pelo qual a sua mãe não a faz. Na divisão das tarefas, explica a mãe, o pai ficou com esta parte. De certa forma, a mãe aparece no desenho com atitude mais positiva do que o pai, meio desligado e apático.

Neste ínterim, Coraline tem acesso a uma boneca que é a sua semelhança, mas que possui botões no lugar de olhos. O desejo de Coraline é que seus pais possam lhe dar mais atenção e por conta disso, ela chega a desejar outro tipo de arranjo familiar. O cartaz do filme é emblemático: uma porta que lança uma rajada de luz em seu rosto que encantado e ao mesmo tempo surpreso encara a passagem como um meio para alcançar o seu desejo. A frase: “be careful what you wish for” destaca exatamente a palavra “desejo” (wish) e “careful” (cuidado), apontando para um possível perigo por desejar algo que não possui. Ao atravessar uma porta encantada, Coraline entra em contato com outra casa na qual está uma cópia dos seus pais, porém com botões no lugar de olhos. Esta casa é vista, a princípio, limpa, arrumada, decorada, e seus pais cumprindo as tarefas tradicionais de gênero: a mãe cuidando da casa e o pai do jardim todo desenhado na forma de seu rosto. O problema é que toda aquela “perfeição” sufoca Coraline que, extremamente paparicada pelos pais, passa a ficar aterrorizada com o excesso de zelo, de presença dos dois. Uma presença sinistra que a apavora. Percebe que a mãe “perfeita” é uma mulher má e o seu pai “perfeito” é um fantoche nas mãos da esposa. Depois de mil peripécias, Coraline consegue escapar do mundo dos “botões” e volta para a sua verdadeira casa na qual passa a ter outra visão de seus pais. A forma pela qual Coraline passa a vê-los, quando “retorna” do mundo aterrorizante paralelo, faz com que os enxreguem de forma mais complacente e esta percepção é mostrada ao espectador diante da mudança de comportamento dos pais. Os pais mudaram ou a filha passou a vê-los de forma diferente motivada pelo contato com outra experiência?

O protagonismo de Coraline chega a ser marcante, já que trata de uma menina que atravessa praticamente sozinha as desventuras de encontrar o ponto de equilíbrio entre aquilo que deseja e o que tem de fato, levando-a a ser mais indulgente com os pais. Do ponto de vista de gênero, o filme avança ao trazer uma menina auto-suficiente, mas que vive também as limitações de sua idade. Forte e determinada a conseguir realizar o seu desejo, Coraline mostra-se também impotente ao perceber que não tem ainda maturidade para enfrentar certos obstáculos. Imprensada e sem liberdade em seu mundo mágico e “perfeito”, volta-se para a realidade e percebe nele a alegria de ser livre, com todas as imperfeições.



título original:Coraline
gênero:Animação
duração:1 hr 41 min
ano de lançamento: 2009
direção: Henry Selick
roteiro: Henry Selick, baseado em livro de Neil Gaiman
produção: Claire Jennings e Mary Sandell
música: Bruno Coulais e They Might Be Giants
fotografia: Pete Kozachik
direção de arte: Phil Brotherton, Jamie Caliri, Tom Prooste e Dawn Swiderski
figurino: Phil Brotherton, Jamie Caliri, Tom Prooste e Dawn Swiderski
edição: Christopher Murrie e Ronald Sanders
efeitos especiais:Gentle Giant Studios

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