Pular para o conteúdo principal

MOÇA COM UM BRINCO DE PÉROLA (GIRL WITH A PEARL EARRING, 2003)

Como não se comover diante de uma cuidadosa produção fílmica que tem como contexto a criativa história sobre o quadro pintado por um dos mais importantes pintores holandeses?

Longe de ser um filme sobre o pintor Johannes Vermeer (1632-1675), considerado ao lado de Rembrandt um dos grandes pintores da Holanda, o filme é sobre uma de suas obras: A Moça com um Brinco de Pérola. O que nos chama a atenção é que o filme é baseado no romance homônimo da escritora norte-americana Tracy Chevalier que por sua vez se baseou na pintura de Vermeer para criar uma das mais singelas adaptações de romance para o cinema sobre a possível história da musa inspiradora do artista. O roteiro do filme é assinado por Olivia Hetreed.

Muitos quando veem um quadro e percebem nele a presença viva de alguém, se perguntam inevitavelmente sobre a identidade da modelo, sobretudo quando a imagem nos passa uma realidade, nos faz sentir que há vida naquela tela. Naquela época, a modelo era uma ilustre desconhecida, não tinha fama. A modelo era uma pessoa comum, daí porque provavelmente a escritora tenha optado por eleger como musa uma criada.

Um quadro do século XVII que inspirou um livro e que por sua vez foi transformado em roteiro de um filme. A Moça com um Brinco de Pérola é um filme com uma excelente fotografia, atuações impecáveis, um canto à arte da qual o cinema se orgulha em dialogar. Muito mais do que uma história de amor exclusivamente entre um homem e uma mulher, oriundos de classes sociais diferentes, o filme delicadamente mostra o transbordamento do amor das personagens Johannes Vermeer (Colin Firth) e Griet (Scarlett Johansson) através da arte. A beleza encontra os pincéis do artista que através das combinações de cores e técnicas e no cuidadoso movimento das suas mãos constrói a ilusão, da qual o cinema também faz parte. Reinventa o real e arrebata o espírito de quem vê. Assistir ao filme Moça com Brinco de Pérola é como admirar um quadro, sobretudo de Vermeer cuja característica de suas obras era a de aproximá-las da realidade. O artista no filme parece não perder a sensibilidade mesmo diante de sua condição financeira difícil, já que vive de suas pinturas. Ele é capaz de superar os conflitos familares e profissionais por meio da arte, transformando o comum, o cotidiano, em beleza, prazer estético. E, convenhamos, o ator Colin Firth convence nesse aspecto

Mas o cinema não se resume apenas a uma boa narrativa e aos bons desempenhos dos atores. O filme é construído a partir de outras linguagens, como a música, por exemplo. Alexander Desplat (o mesmo que esteve à frente da trilha sonora do filme Lua Nova) é responsável por uma das mais belas canções do cinema: Griet's Theme.  

Em relação a presença da protagonista Griet, vale mencionar que apesar da atriz Scarlett Johansson emprestar suavidade e delicadeza à personagem, ela soube dosar a imagem virginal de Griet à imagem de mulher forte, segura, de comportamento muito mais próximo das pessoas de sua classe social. Essa alquimia, no filme, parece ter chamado a atenção do pintor (e que leva o leitor a compartilhar e ser cúmplice dessa epifania), mas, um aspecto certamente prevaleceu, pois apesar das adversidades e de suas limitações, Griet possui sensibilidade para a arte e mesmo sem saber ler (texto escrito) é capaz de captar, ler as imagens, enxergar além do que os olhos humanos podem alcançar. A condição de vida que leva não favorece o exercício da contemplação, pois como criada, trabalhadora braçal, o seu tempo é destinado a serviços árduos e pesados. Contrastivamente, a personagem se esforça para não sucumbir aos problemas que a cercam como: ser acusada de roubo pela filha do casal que a odeia; ser assediada pelo mecenas que tenta estuprá-la e, por fim, ser expulsa da casa pela esposa enciumada. A vida parece não ser fácil para Griet, mas a arte a salva e a liberta e nela encontra algum prazer. Inconscientemente, é inevitável que o espectador não deseje que Griet e Vemeer fiquem juntos, há uma expectativa sedimentada no imaginário popular, folhetinesco, mas o filme mostra que a vida e suas regras não podem aprisionar o sentimento e ao senti-lo não precisar estar aprisionado ao casamento. Aliás, não há qualquer relação lógica entre amor e casamento. O brinco de pérola é o objeto que produz o conflito quando associado ao contexto. A pérola simboliza a "perfeição e incorruptibilidade, é um símbolo de vida longa e fertilidade". Por ser uma jóia, foi considerada símbolo da nobreza. No filme, o brinco de pérola pertencia à esposa de Vemeer, mas cedidas à Griet pela sogra do pintor para que posasse para um quadro. A conveniência foi mais forte que o preconceito e a criada pôde usar um pertence de sua patroa, nivelando-as. A esposa naturalmente sentiu-se ultrajada. A impossibilidade de serem usados novamente pela esposa fez com que os brincos fossem entregues a Griet, como símbolo de um sentimento puro que havia nascido entre o pintor e a sua musa.

Ficha técnica:

Título original:Girl with a Pearl Earring
Gênero:Drama
Ano de lançamento:2003
Site oficial:http://www.girlwithapearlearringmovie.com/
Direção: Peter Webber
Roteiro:Olivia Hetreed, baseado em livro de Tracy Chevalier
Produção:Andy Paterson e Anand Tucker
Música:Alexandre Desplat
Fotografia:Eduardo Serra
Direção de arte:Christina Schaffer
Figurino:Dien van Straalen
Edição:Kate Evans

Comentários

  1. O conceito do filme é maravilhoso - inclusive sua própria fotografia.

    Belíssima resenha! E parabêns pelo blog! =D

    ResponderExcluir
  2. Obrigada, Márcia. Eu gosto muito do filme e, sobretudo, por esse diálogo entre as artes. Acho criativo e mantém o contato de gerações com a arte.

    ResponderExcluir
  3. O Filme é muito bom...,Scarlett Johansson caiu como uma luva para esse filme, a loira têm beleza e perfil únicos, qual homem saudável que não sente forte atração pela Scarlett??

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

RECÉM-NASCIDOS NO CINEMA

Sinal dos tempos.
Recentemente fui assistir ao filme de animação Rio, no Shopping Salvador Norte, e me deparei com uma cena absurda: um bebê recém-nascido dentro da sala de exibição. Como se não bastasse o carrinho de pipoca e outras guloseimas dentro da sala e das bandejas repletas de frituras, exalando óleo requentado por todo o espaço, temos agora mais esta.
Durante a projeção do filme, o bebê chorava compulsivamente, forçando os espectadores a pedirem constantemente silêncio. Fico me perguntando o que leva os pais a cometerem tamanha tentantiva infanticida, submetendo o seu próprio filho a uma sala extremamente fria, ensurdecedora e repleta de ácaros e outros microorganismos prontos para atacarem o corpo frágil e indefeso do bebê. Imagino que os pais deveriam zelar pelo bem-estar dos seus filhos, serem responsáveis pela sua saúde e não o inverso. Fico me perguntando ainda o que levaria o empresariado a acobertar tal malefício, em nome de uns míseros “reais”.

Trata-se, a meu ver, de …

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NOS FILMES

Uma mulher casada ou solteira é submetida a maus tratos pelo marido ou amante. Esta ideia já serviu de roteiro para vários filmes e a postagem aqui seria longa se analisássemos cada um deles. Alguns destes filmes foram dirigidos por homens, outros por mulheres, mas o importante é que o tema tem sido bastante filmado ao longo dos séculos. O que isso significa?
No dia 08 de março, o mundo se volta às questões da violência contra a mulher, não que em outros dias esta situação não seja acompanhada com intervenção de entidades e de pessoas, mas neste dia formou-se uma rede de ações que dão visibilidade a um problema sério no tecido social. Um problema que adoece a sociedade, transformando os homens em criminosos e as mulheres em cadáver.
A sociedade tem sido a mortalha para muitas mulheres.
Os filmes que tratam da violência contra a mulher são em geral ambientados no espaço domiciliar, com maridos violentos que buscam a todo custo submeter às mulheres a maus tratos físicos e psicológicos. …

As Ladies Marian em duas versões de Robin Hood

Mesmo quando o filme traz um homem na figura central da trama, não deixo de observar como as mulheres são vistas pelos seus roteiristas e diretores.
Uma personagem instigante é Lady Marian que aparece nos filmes como par romântico de Robin Hood. A literatura mostra que nem sempre foi constante a forma de representar esta personagem e isto pode ser perceptível quando tomamos dois filmes recentes sobre o legendário arqueiro. Uma das versões é a de Kevin Reynolds (1991) Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (Robin Hood, Prince of Thieves) que traz  Mary Elizabeth Mastrantonio como a atriz que desempenha o papel de Lady Marion. A sua primeira aparição no filme já mostra um conflito de gênero quando luta com Robin Hood (Kevin Costner) inicialmente com a espada e depois no corpo-a-corpo, quando é vencida. Neste momento, ela está usando uma armadura preta. Com a presença de Robin Hood, Lady Marion vai perdendo este ar mais agressivo e tornando-se dependente da proteção dele. Robin já havia prome…