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O estranho caso...

Apesar do blogue tratar sobre a mulher, não poderei deixar de comenta aqui o filme O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008), de David Fincher.

Trata-se da história de Benjamin Button, narrada em primeira pessoa, que chega ao espectador pela voz da filha, Caroline (Julia Ormond), quando no hospital, ao acompanhar sua mãe (Kate Blanchet), começou a ler os escritos de seu pai, sob a iminência da chegada de um furacão.

A história parece simples: um homem que nasce velho e morre quando bebê. Contudo, a questão é bem mais complexa, pois ele é único. Trata-se, portanto, da construção da identidade de um indivíduo que, ao nascer biologicamente velho (mas uma criança por dentro) se relaciona em um ambiente formado por adultos e velhos. Quando vai alcançando a maturidade (50 anos), resolve sair de casa em busca da independência, conseguindo emprego em uma embarcação. A partir daí, passa a cumprir os rituais considerados masculinos, em companhia de homens simples e rudes, que envolve bebida e sexo, mas, também, as frustrações vividas por eles, por exemplo, ao saber que o Capitão queria ser artista, mas que foi desmotivado. Contudo a sua vontade latente fez com que transformasse seu corpo em tela, tatuando-o. É um misto de frustração, mas de esforço em superá-la, subvertendo as limitações impostas pela sociedade.

A morte (física e simbólica) é um tema sobre o qual o filme trata, já que presente em toda a narrativa. Só que a morte não está vinculada a um envelhecimento, no sentido que a gente tem de velhice, isto é, associado a uma degenerescência física, mas ao contrário, ao "nascimento", na regeneração, criando no espectador uma desacomodação. Pitt está hoje com 40 anos, mais próximo portanto do momento em que as personagens (Daisy e Benjamin) chegam no meio da vida e se conectam, por estarem na mesma idade, só que a partir daí ele decresce e remoça e ela decresce e envelhece. Tanto a velhice quanto a infância são mostradas como uma "morte" mas de ângulos diferente.

Que efeito tem a morte na direção contrária? Que sentido tem a velhie para nós e como o espectador reage diante da mudança de direção? A morte, independente da direção, acontece de qualquer jeito e com as mesmas características. A degenerescência e a regenerescência (não vi outro termo) produzem dependência, problemas de memória, só que a perspectiva muda. É um filme muito bom para desacomodar, descristalizar, desestruturar com visões congeladas, que são socialmente construídas e muitas vezes não percebemos por já estarem sedimentadas. Acontece que o sentido dado a velhice/morte é a que nós conhecemos. Se tivéssemos a experiência de Benjamin, a partir do sentido de morte que engendramos, muito provavelmente a infância seria vista como os piores momentos da nossa vida e passaríamos a vê-la com desprezo, valorizando a velhice.

Estava lendo uma resenha do filme da Folha online onde aparece o trailler. A narração - do próprio Benjamin - menciona não apenas a "disfunção" - viver ao contrário dos outros - mas a solidão de carregar esse "des-ajuste". O fato da pessoa estar deslocada do seu entorno, a transforma em um ser solitário. Se formos para a literatura, vemos que Scott F. Fitzgerald fazia parte da Geração Perdida ("lost generation") o que já nos informa algo: "refere-se a um grupo de celebridades literárias estadunidenses que viveram Paris e em outras partes da Europa no período de tempo em que se viu o fim da Primeira Geurra Mundial, no começo da Grande Depressão."

(http://pt.wikipedia.org/wiki/Lost_Generation)

Os temas desse grupo de escritores giravam em torno de um desilusão de uma ordem burguesa pós-guerra: o abandono, a angústia, a desesperanaça, entre outros. O fato do filme iniciar com o produto desse ambiente - um relógio que girava ao contrário - já explicita o impacto de uma guerra nas vidas humanas. O relógio foi montado com a dor de um pai que viu seu filho morrer na guerra. O relógio que girava ao contrário era para trazer de volta os filhos mortos pela guerra. O pai morre de desgosto. Benjamin que nasce no final da guerra de 14, vive um outro momento de guerra, a de 45 e nessa ele participa. É uma vida que se tranforma dentro de um contexto de morte.

Ao construir uma personagem que logo é abandonada pelo pai por nascer diferente, nos remete a várias outras questões: a maldade humana, a rejeição, de um lado, e a generosidade e acolhimento, do outro.

Há também outros pontos interessantes que podemos levantar, como a relação familiar (distante do vínculo biológico) como algo construído na relação, a partir da afetividade. Esse ambiente familiar é amplo, pois ele mora com os pais adotivos - casal de negros - que ao mesmo tempo é um asilo. Uma outra questão é do ponto de vista das identidades, já que não se trata apenas de uma vida que corre ao contrário, pois se entendemos que a identidade se constrói a partir do olhar do outro sobre nós também, o que significa para o outro (os velhos do asilo, por exemplo) ser criança (se é que eles viam assim, acho que eles o viam como velho) com uma aparência senil, com todos os problemas de saúde do velho? Como o personagem irá construir a sua identidade sabendo-se que o outro o vê como velho, mas que ele sabe que não é (se é que ele sabe, pois acho que ele não tem essa dimensão de imediato, ele vai se conhecendo à medida que o tempo vai passando). Por outro lado, independente de jovem ou velho ninguém sabe por antecipação o que é ser um ou outro, ambos vão construindo à medida que vão vivendo. Achei interessante aquela parte do filme sobre como aconteceu o acidente com Daisy. Como uma ação em algum lugar, aparentemente sem nenhuma conexão com outras vidas, acabam tendo uma relação, muito embora as pessoas envolvidas jamais saibam. Acho que fica aqui uma reflexão sobre a responsabilidade dos nossos atos.


A vida de Benjamin vai sendo costurada pelos atos das pessoas que fazem parte da vida dele: de um lado pessoas que o abandonaram, rejeitaram; de outro lado, pessoas que amaram e acolheram.

"Amadurecer é coisa terrivelmente difícil. Fica muitomais fácil passar de uma infância à outra." (Scott F. Fitzgerald)

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