Pular para o conteúdo principal

Encantada (Enchanted, 2007), Kevin Lima


Certa vez li uma crítica sobre o filme Encantada, da Disney, não me lembro onde, pois faz muito tempo, mostrando o quanto o filme tinha inovado, mostrando que a representação de príncipes e princesas como a Disney sempre narrou passava por mudanças, chegando mesmo a dizer que seria uma atitude revisionista da Disney de suas próprias produções. No mundo atual, não caberia mais o comportamento e atitudes dos monarcas de séculos atrás, e deixa claro que a linha entre real e imaginário é tênue e essa imperceptível linha, a meu ver, fica mais evidente em razão de ser um filme e não uma animação. O que é salutar, mas não é uma leitura aprofundada do filme.

Do ponto de vista de gênero e da recepção, como veremos abaixo, pode-se ver o quanto a assimetria de gênero é visível no filme em questão, o que coaduna com toda a tradição dos contos de fada reinscritos após a ascensão da burguesia. Acordei agora há pouco, são 06h da manhã, e me veio a ideia de que a mudança de ambiente sociocultural dos protagonistas – o príncipe e a princesa – não se deu de forma simétrica, já que ao chegar a Nova Iorque o comportamento da princesa torna-se um valor, apesar das pessoas estranharem. Em razão da sua ingenuidade, de sua extrema bondade, doação, o mundo ao seu redor muda: um homem se apaixona por ela, um divórcio prestes a se consumar é desfeito, o amor paira no ar só com a presença da princesa. No entanto, o príncipe, que também possui uma atitude altruísta, além de ser bondoso e ingênuo, fica completamente deslocado, a tal ponto de no final, ele ter que voltar para o mundo da fantasia, para o SEU reino, mas sem "perder a viagem", isto é, com uma mulher que o acompanha para, então, se casarem.

A assimetria de gênero dá-se pela forma que os dois – príncipe e princesa – são tratados pela direção do filme, reproduzindo a ideologia de gênero de que a ingenuidade, a bondade, a doação ao outro, só são valorizados quando “colados” ao corpo da mulher, porém as mesmas atitudes não são valorizadas no homem, e por isso só possível de acontecer no mundo da fantasia, da imaginação, não no mundo real.
Outra observação é que o príncipe e o personagem que se apaixona pela princesa (Edward) não deixam o seu espaço, mas as mulheres, sim. Significa dizer que eles ficam no "reino" deles, onde eles têm autoridade para exercer poder, as mulheres, ao contrário, são desterritorializadas, devem seguir o homem, o que é bastante androcêntrico. Outro aspecto diz respeito a uma ideia de compensação amorosa, é como se as mulheres estivessem sempre em busca do 'grande amor", independente do sucesso que fazem na carreira profissional, por isso, ao ter o seu noivado rompido, a personagem do mundo real une-se ao príncipe imaginário, mostrando a incompatibilidade para a mulher de viver uma vida profissional e um amor. Este só poderia ser experimentado no mundo da fantasia, da imaginação, uma forma de dizer que seria impossível que no plano real uma mulher pudesse vivenciar as duas experiências. Numa escritura simplista, binária e oposicional, o discurso fílmico não contempla a compexa dinâmica vivida pelas mulheres no mundo contemporâneo, na medida em que elege uma mulher sem profissão como modelo de mulher exemplar: amada, querida e desejável. As mulheres que focam a sua realização em um grande amor, acham-no, mas aquelas que seguem a carreira profissional só o encontram na imaginação, é o que o filme diz. Pode haver mensagem mais androcêntrica do que essa? Por outro lado passa ainda a falaciosa ideia de que no mundo real, o homem de espada não teria mais espaço, o que de fato faz sentido, se considerarmos uma tradução "ao pé da letra", mas para impor a sua força o homem desenvolveu outras formas para imputar a sua vontade (claro que existem muitos que não pensam assim) 



Visitando algumas páginas para ver se encontrava o artigo ao qual me referi no início desse texto, acabei encontrando outro. Vejam as duas descrições das personagens feitas por Érika Farinha e observe o que o texto dela nos diz:




Observe que embora a personagem se sinta deslocada no novo ambiente, ela se adapta, já que é aceitável que a “ingenuidade de uma criança” parta das mulheres, mas não de um homem, por isso o príncipe perfeito não cabe no mundo real, como diz Farinha, ele só existe no mundo da fantasia.

título original:Enchanted
gênero:Comédia Romântica
duração:1 hr 47 min
ano de lançamento: 2007
distribuidora: Buena Vista Pictures
direção: Kevin Lima
roteiro: Bill Kelly
produção: Barry Josephson e Barry Sonnenfeld
música: Alan Menken e Stephen Schwartz
fotografia: Don Burgess
direção de arte: John Kasarda
figurino: Mona May
edição: Gregory Perler e Stephen A. Rotter
efeitos especiais:Tippett Studio / Proof / Realscan 3D / Reel FX Creative Studios

Fontes:
http://www.recantodasletras.com.br/artigos/2517642

Comentários

  1. enchanteeeeed!!!!!!!!!!!!!! preciso assistir esse filme

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

RECÉM-NASCIDOS NO CINEMA

Sinal dos tempos.
Recentemente fui assistir ao filme de animação Rio, no Shopping Salvador Norte, e me deparei com uma cena absurda: um bebê recém-nascido dentro da sala de exibição. Como se não bastasse o carrinho de pipoca e outras guloseimas dentro da sala e das bandejas repletas de frituras, exalando óleo requentado por todo o espaço, temos agora mais esta.
Durante a projeção do filme, o bebê chorava compulsivamente, forçando os espectadores a pedirem constantemente silêncio. Fico me perguntando o que leva os pais a cometerem tamanha tentantiva infanticida, submetendo o seu próprio filho a uma sala extremamente fria, ensurdecedora e repleta de ácaros e outros microorganismos prontos para atacarem o corpo frágil e indefeso do bebê. Imagino que os pais deveriam zelar pelo bem-estar dos seus filhos, serem responsáveis pela sua saúde e não o inverso. Fico me perguntando ainda o que levaria o empresariado a acobertar tal malefício, em nome de uns míseros “reais”.

Trata-se, a meu ver, de …

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NOS FILMES

Uma mulher casada ou solteira é submetida a maus tratos pelo marido ou amante. Esta ideia já serviu de roteiro para vários filmes e a postagem aqui seria longa se analisássemos cada um deles. Alguns destes filmes foram dirigidos por homens, outros por mulheres, mas o importante é que o tema tem sido bastante filmado ao longo dos séculos. O que isso significa?
No dia 08 de março, o mundo se volta às questões da violência contra a mulher, não que em outros dias esta situação não seja acompanhada com intervenção de entidades e de pessoas, mas neste dia formou-se uma rede de ações que dão visibilidade a um problema sério no tecido social. Um problema que adoece a sociedade, transformando os homens em criminosos e as mulheres em cadáver.
A sociedade tem sido a mortalha para muitas mulheres.
Os filmes que tratam da violência contra a mulher são em geral ambientados no espaço domiciliar, com maridos violentos que buscam a todo custo submeter às mulheres a maus tratos físicos e psicológicos. …

As Ladies Marian em duas versões de Robin Hood

Mesmo quando o filme traz um homem na figura central da trama, não deixo de observar como as mulheres são vistas pelos seus roteiristas e diretores.
Uma personagem instigante é Lady Marian que aparece nos filmes como par romântico de Robin Hood. A literatura mostra que nem sempre foi constante a forma de representar esta personagem e isto pode ser perceptível quando tomamos dois filmes recentes sobre o legendário arqueiro. Uma das versões é a de Kevin Reynolds (1991) Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (Robin Hood, Prince of Thieves) que traz  Mary Elizabeth Mastrantonio como a atriz que desempenha o papel de Lady Marion. A sua primeira aparição no filme já mostra um conflito de gênero quando luta com Robin Hood (Kevin Costner) inicialmente com a espada e depois no corpo-a-corpo, quando é vencida. Neste momento, ela está usando uma armadura preta. Com a presença de Robin Hood, Lady Marion vai perdendo este ar mais agressivo e tornando-se dependente da proteção dele. Robin já havia prome…