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O Guarda-Costas (The Bodyguard, 1992), Mick Jackson

Revi recentemente o filme O Guarda-Costas (The Bodyguard, 1992), Mick Jackson, estrelado por Withney Houston e Kevin Costner. O filme narra a história de uma cantora famosa indicada ao Oscar de melhor canção, mas que, sofre, na vida pessoal, de problemas com a sua segurança, com fãs que a querem assediá-la e mesmo matá-la. Abalada psicologicamente por se sentir tão vulnerável, assim com a sua família, formada por seu filho e irmã, seu assessor resolve contratar um guarda-costas experiente, acostumado a proteger lideranças políticas como o presidente da república dos Estados Unidos. Acontece que, ao se tratar de uma mulher, a função de proteger, associada a profissão, ao se entrecruzar com o sistema patriarcal-burguês, adquire uma feição duplamente representada pela ideia de proteção do homem à mulher. O filme apresenta à leitora (encobrindo obviamente a ideologia de dependência) a “sua” imagem distorcida, conforme a visão do discurso hegemônico em relação ao gênero. Por isso que a ideia de uma mulher desprotegida que acaba se apaixonando pelo seu guarda-costas agrada tanto a espectadora, já que o filme cria a ilusão na mulher de que ela é dependente do homem, facilmente introjetado devido à situação de perigo em que ela é constantemente exposta, podendo, a meu ver, por meio de um abuso da ilusão, reunir em um mesmo homem aquele que a protegerá no espaço público e privado. Mesmo ela sendo poderosa, famosa, endinheirada, continua, dentro da estrutura social patriarcal, vista como indefesa, necessitando de um homem que possa suprir as suas carências (lembrando de que ela é mãe solteira) e ao mesmo tempo lhe proporcionar segurança em relação aos fãs e desafetos. O controle mental é materializado nas práticas sociais:

O filme colocou o ator Kevin Costner, na época, segundo revistas do ramo, como o homem mais desejável do mundo, obviamente, devido ao imaginário de protetor suscitado pelo personagem. Significava dizer que ele representava alguém que estava disposto a dar a vida para salvar a do outro, no caso do filme, a mulher, e em quem ela poderia confiar. A ideologia cumpre o seu papel de encobrir o controle social e mental sedimentando um discurso histórico através de uma história de amor inter-racial. (LEIRO, 2011, p.03)

O aspecto inter-racial no filme é outro componente importante, pois se trata da relação amorosa entre uma cantora negra norte-americana e um homem branco, biotipo europeu, mostrando uma pretensa universalidade sobre a dependência emocional da mulher ao homem, este profissionalmente em condição subalterna à ela, mas que, ao se tornar seu amante, ganha importância dupla, redimensionando o aspecto protetor, minimizando, atenuando o desnivelavamento o homem branco em relação à mulher negra, e que, pela importância dele na vida dela, o filme acaba por centralizar na figura dele. O filme termina com o afastamento de ambos, desfecho previsível, muito embora o amor permaneça, unindo-os. É um final feliz porque a vitória do amor se consuma. Na cena final, aparece a cantora performatizando a clássica canção I Will Always Love You, enquanto ele aparece na condição de guarda-costas em uma conferência, aparecendo atrás e em pé (posição de prontidão, confiança e controle) de lideranças políticas. Vale destacar que a música, de autoria de Dolly Parton, cantora conhecida pela sua performance country, foi escrita em 1973 e lançada em 1974. Em uma das estrofes, há a seguinte referência ao desfecho do filme:

Doces, amargas lembranças
São tudo o que eu levo comigo
Então, por favor, não chore
Nós dois sabemos que eu não sou o que você precisava.
O amor sublima o rompimento porque eternizado, mesmo em situação adversa a união entre eles.  Se a voz da canção for tomada como feminina, em razão de ter sido escrita por uma mulher branca, (o que não é um critério muito seguro, já que Michael Sullivan e Paulo Massadas são experts em escrever do ponto de vista de uma ideia de mulher que eles têm), poderia se cogitar o lugar do eu-lírico como instância de poder, já que ela toma a decisão de romper com a relação, isto é, a racionalização do relacionamento parte da mulher. No filme, também temos dados que mostram essa atitude da mulher, já que é ela quem está partindo e ele fica na pista de voo vendo o seu avião decolar. Mas esse empoderamento, embora importante dentro de uma visão feminista, é doloroso por conta das expectativas, dos construtos de gênero que estabelecem relações desiguais e de dependência emcional das mulheres aos homens, dos embates oriundos dos desafios das mulheres empoderadas ao se movimentarem na sociedade patriarcal. Se existe um salto qualitativo no filme é o de mostrar a projeção da figura paterna que as mulheres  criam no homem , mas que, ao fundir-se com a história de amor, embalada pela música melódica, acaba por encobrir possibilidades mais reflexivas, ratificando a convenção, mostrando o filme como propagador dos ideais hegemônicos de gênero.
É válido destacar que a canção foi o single feminino mais bem sucedido da história e é a 6ª música de maior sucesso conforme dados fornecidos pela mídia anglo-americana. Ela ficou em primeiro lugar por 14 semanas nos Estados Unidos e Reino Unido. Destaco também uma informação importante sobre a música: ela foi considerada por analistas clínicos como “tortura psicológica” por seus quatro acordes repetitivos. Se isso for, não menos torturadores são os inumeráveis “acordes” com que os discursos sexistas têm se repetido historicamente.

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