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REFLEXÕES FEMINISTAS SOBRE CINEMA

Que as mulheres estão fazendo cinema, isso é indiscutível. Para a crítica feminista fílmica, a questão é muito mais sobre "como" essas mulheres estão dirigindo ou produzindo roteiros. O que significa dizer: se as mulheres estão mudando a forma de fazer cinema.

Se observarmos bem, os filmes sobre os quais a mídia tem destacado é a comédia romântica e as mulheres estão percebendo o sopro dos ventos. As diretoras atualmente, de uma forma geral, estão diringindo comédia romântica, pelo menos no que diz respeito aos filmes de longa-metragem. Algumas conseguem enveredar em um outro gênero, dirigindo dramas, guerra ou terror, mas grande parte delas são responsáves pelas mais aclamadas comédias românticas. A representante-mor desse filão é a diretora Nora Ephron, seguindo de outras não menos famosas como Nancy Meyers, Susan Seidelman e a própria Callie Khouri que, depois de escrever o roteiro dramático e feminista para o filme Thelma e Louise, dirigido por Ridley Scott, dirigiu uma comédia, não tão romântica e não menos feminista intitulada Loucas por Amor, Viciadas em Dinheiro. Críticas e juízos à parte, penso que o volume de filmes com essa abordagem não é uma exclusividade das mulheres que dirijem, mas sem dúvida, elas têm alcançado destaque nesse gênero. Se é escolha das diretoras ou indução das produtoras, não saberia assegurar, mas é fato que o poder econômico pesa bastante na hora de fazer um filme e dizer que idéias devem ou não fazer parte dele. Se atentarmos para o fato de que na diretoria das empresas cinematográficas, no início do século passado, os banqueiros tinham assento garantido na direção das "majors", não seria muito absurdo afirmar sobre a influência do capital e da ideologia de classe presente nos filmes, mas também  a de gênero, de etnia e outras representações sociais.  Fazer parte do seleto grupo de diretores significava estar disposto a fazer parte de um projeto de nação, com raras exceções aos de temáticas socialistas, como o filme Como Era Verde O Meu Vale, 1941, de John Ford.

Os filmes se popularizam, isto é, ganham adesão das massas, quando  passam a ser vendidos para as TVs e é nesse momento que os filmes entram nos lares, assim como os seriados. Nos anos 70, os filmes que eram exibidos na "Sessão da Tarde" eram aqueles produzidos nos anos 50 cuja narrativa fílmica girava em torno de um homem e uma mulher. Os folhetins de M. Delly não poderiam ser melhor filmados. A estratégia encontrada pelas grandes produtoras para não sucumbir à televisão era vender os filmes para elas, abrindo assim uma novo nicho no mercado bastante lucrativo: as televisões. Com estas, os filmes seriam exibidos em proporções maiores, popularinzado não apenas o filme, mas a forma de narrar, a ideologia hollywoodiana e em contrapartidas as televisões estariam conquistando a adesão das massas e melhorando o seu ipobe. Com a adesão, as empresas passariam a investir mais nos comerciais.

Portanto, uma geração de mulheres foram educadas assitindo a esses filmes que tinham sido vistos por suas mães: "Melodia Imortal", Suplício de Uma Saudade", "Sete Noivas para Sete Irmãos", "O Pirata", "Cisne Negro",  filmes em geral produzidos durante ou posterior à segunda guerra cuja narrativa é desenvolvida pela ação dos protagonistas, comumente um casal. No entanto, o crescente interesse por esse gênero, seja pelo público adolescente ou adulto, predominantemente feminino, mas com interesse masculino também, nos leva a pensar no que pode motivar esse interesse.

Sabemos que os filmes dos anos 40 e 50 eram feitos para entreter, isto é, os musicais eram uma forma de projetar um mundo menos doloroso do que aquele que se via na realidade social. Jean Claude-Bernadet em seu pequeno e valioso livro intitulado O Que é Cinema, diz que os musicais que mostravam reproduções idênticas de mulheres buscavam mostrar a condição na qual os espectadores se encontravam, isto é, aparentemente o filme estararia cumprindo um caráter lúdico, mas também expunha a sua lógica de mercado, de produção em série: o mais do mesmo.

Os filmes dirigidos por mulheres pode nos dizer muito mais do que uma história de amor e acredito que cabe a crítica fílimica feminista observar, através dos dispositivos teóricos interdisciplinares, como elas estão mostrando e se há alguma ambiguidade ou contradição no que dizem. Utilizando os conceitos de eixo de memória e eixo de formulação que Eni Orlandi apresenta em seu livro Análise do Discurso. O que faz parte do acervo cultural e que permite a adesão do espectador, a familizarização dos sentidos, e o eixo que reivindica a atualização, o que faz parte da enunciação, o ato de fala.

Por outro lado, sabemos o quão é difícil entrar em um circuito majoritariamente controlado por homens sem ter que estabelecer algumas negociações. O enfrentamento radical leva a exclusão ou aos filmes "independentes", aos curtas, aos documentários exibidos em circuitos poucos comerciais. Assim, para fazer parte do seleto grupo de diretores, penso que algumas estratégias foram usadas pelas mulheres com o propósito de se aproximarem-se de um lugar historicamente masculino, portanto, fazendo cinema dentro de um código aceitável na cultura patriarcal, isto é, tratando de temas ligados ao campo das emoções. 

Katryn Bigelow venceu com um filme de guerra, um gênero pouco explorado pelas mulheres, mas ao gosto dos americanos, sobretudo se o protagonista é corajoso (quase inconsequente), inteligente e sensível, acho que aqui pode haver um diferencial. É um filme que não leva o espectador a uma vertiginosa e sangrenta espetacularização dos horrores da guerra, como Platoon de Oliver Stone, mas a uma guerra psicológica, em que os homens são colocados não no limite de sua força, mas de sua inteligência e sensibilidade.

Acredito que as diretoras dos filmes de longa-metragem tem constuído um percurso muito interessante, muitas iniciando na televisão e passando depois para o cinema, emprestando uma linguagem específica da televisão para os longas. Algumas se mantém nas duas esferas. Há ainda aquelas que começam produzindo e só depois se lançando como diretoras, ou ainda iniciam como atrizes e fascinadas com o "dedo de deus", resolvem também partir para a produção, deixando em seu percurso profissional a sua marca na condução da narrativa fílmica.

Muitas delas estão na maturidade e raras são aquelas que estão na "casa" dos trinta, como Sarah Polley, que se mostrou tão boa diretora quanto atriz. Em A Vida Secreta das Palavras, Polley se utiliza com cuidado de um clichê comercial uma história de amor entre duas pessoas que se percebem complementares, com suas dores e experiências traumáticas. Contudo, o pano de fundo é uma crítica à guerra, sobretudo para aqueles e aquelas que conseguem sobreviver à destruição, pois uma vez que não morreram, precisam viver em sociedade, buscando equilibar-se apesar de toda a dor vivida e tentando não transferi-las para as pessoas do seu entorno. Apesar de ter perdido a audição, a personagem mantém-se distante das pessoas do seu entorno. O fato de se alimentar a vida toda de arroz branco, frango e maçã gera um fato curioso quando no navio, atuando com enfermeira de um ferido durante as suas férias, ela se depara com o resto da comida do paciente e é tentada a experimentar. O novo sabor ativa seus sentidos, abrindo-lhes para novos paladares o que a leva a se comportar de uma forma diferente, já que evitava muita conversa com o paciente.

Assim como Polley, as diretoras  tem buscado por temas cuja personagem central é geralmente uma mulher. Os resultados são diversos. Algumas tentam enfatizar a cumplicidade feminina, a amizade, outras mostram que a "rivalidade" entre as mulheres depende dos papéis sociais. Em A Sogra (Monster-in-Law, 2005), por exemplo, comédia romântica protagonizada por Jane Fonda e Jennifer Lopez, as mulheres disputam a atenção de um homem, filho e futuro marido, respectivamente. Ainda assim, no final, elas se reconciliam e chegam em um acordo, quebrando um ciclo de ódio, já que a sogra de Viola (Jane Fonda) também a perseguiu, atribuindo-lhe a responsabilidade pela morte do filho. A história se repetiria, caso Charlotte (Jennifer Lopez) não mudasse as regras do jogo. O filme termina com uma reconciliação de ambas ou pelo menos uma aparente reconciliação, pois o filme acaba exatamente com o casamento. O filme é dirigido por um homem, Robert Luketic, e escrito por uma mulher, Anya Kochoff.

Existem vários aspectos estratégicos sobre a forma das mulheres dirigirem os longas, sobretudo se considerarmos as condições de produção dessas mulheres. É uma pesquisa muito e um estudo que nos possibilitaria entendimentos sobre a inserção das mulheres nos circuitos de produção para as massas. O que elas estão filmando e como estão fazendo para terem seus projetos aceitos e produzidos.

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