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AS POSSIBILIDADES DE ESTUDO SOBRE CINEMA

Quando pensamos em cinema, mais especificamente em uma análise sobre o cinema, nos damos conta de inúmeras possibilidades de realização desse estudo. Evidentemente que o papel da crítica nos últimos vinte anos mudou ou pelo menos não há a consensualidade (ou falsa consensualidade) que se tinha em acreditar na voz da crítica como a voz de deus. Durante o século XIX e a primeira metade do século XX, alimentou-se a ideia de que a racionalidade era objetiva e, portanto, neutros eram os resutados de suas investigações. Com base na suposta neutralidade, impôs-se uma universalidade paradigmática pela qual as práticas sociais deveriam ser compreendidas. Se houvesse uma discrepâcia entre a teoria e a prática, o problema estava na prática e jamais na teoria.

Após os anos 60, a partir dos questionamentos feitos pelos movimentos sociais e com a entrada dos sujeitos pertencentes a esses movimentos nas universidades, passou-se a duvidar da neutralidade da ciência e de sua própria epistemologia, isto é, questionava-se em que bases epistemológicas estariam alicerçardas as "verdades" proferidas durante séculos.  

Foi basicamente no final dos anos 70, mais amplamente durante os anos 80, que os e as intelectuais oriundos(as) desses movimentos ou sensíveis a eles, realizaram estudos metalinguísticos sobre a construção do pensamento ocidental. Atualmente, não há consenso (ainda bem) sobre A melhor teoria, ao contrário acredita-se que existe uma teoria mais adequada ao estudo e enfoque de uma determinada discussão. Assim, existem várias maneiras de abordar um tema, um objeto, sem que pretensiosamente se defenda uma "verdade". Na melhor das hipóteses, acredita-se que as verdades são múltiplas.

Do que a ciência não abre mão (e nem poderia, pois faz parte de seu ethos) é de que as leituras sejam assentadas em bases teóricas. Essas bases são escolhidas de acordo com a identificação do analista, isto é, a escolha do dispositivo teórico é subjetiva, perpassa pela identificação, pela experiência sociocultural do analista, enfim, não é nada neutra. O acúmulo de vida será absorvido e somado ao dispositivo e ao tema.

Assim, estudar cinema perpassa por todos esses aspectos, o que certamente fez mudar também a forma de ver o cinema. Se antes separava-se a estrutura do conteúdo, as análises mais contemporâneas buscam entrelaçar essas duas esferas, mostrando inlcusive as contradições nelas. Alguns analistas trabalham com a teoria do autor, estudando o percurso de cada diretor e comparando diacronicamente as suas produções. Teoria bastante questionada porque em cinema a autoria é diluída pela inserção de várias contribuições no resultado fílmico, muito embora a maneira de ver seja ainda do diretor, no entanto, as pressões internas (produtoras, por exemplo) e externa (bilheteria) tem influenciado o "olhar" do diretor, sobretudo se estamos falando das produções voltadas para grandes lucros. Nos últimos vinte anos, dispositivos de outras áreas do conhecimento têm contribuído para o estudo do cinema: o conceito de negociação dos estudos culturais, de gênero das teorias feministas, de discurso da análise do discurso, o conceito de classe da teoria marxista, o conceito de sonho e fantasia  da psicanálise, o conceito de tempo-espaço e da narratividade da história, enfim são várias as possibilidades de se estudar teoricamente o cinema.
Estuda-se o cinema italiano, o francês, o norte-americano, o brasileiro, mas deve-se atentar para outros aspectos. Um filme de um diretor brasileiro que é filmado em outro país, com elenco de outro país, falado em idioma de outro país, financiado por empresas de outro país, pode ser considerado brasileiro? Pode ser uma questão simples, mas do jeito que as produções fílmicas estão sendo feitas, não é tão fácil adjetivar um filme, pois as produções em conjunto com empresas de diferentes países é o que se tem mais visto, inclusive como forma de internacionalização dos filmes e, naturalmente, ampliar os negócios.

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