quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Meu primeiro filme

Quando fui ao cinema pela primeira vez tinha 08 anos. O filme era uma animação da Disney - Cinderela.

Eu não me lembro muito bem desta experiência, apenas me recordo de que era algo diferente das diversões costumeiras (subir em árvores, nadar na praia, empinar arraia, pescar siris, etc). Ia ver a história de uma menina criada por sua madrasta que muito a maltratava, assim com as suas filhas, e que um príncipe seria a solução dos problemas da jovem ultrajada, chamada de gata borralheira, uma mulher que andava suja de borralhos (cinzas) ou que representava a sujeira, a pobreza. Esta, por sua vez, seria superada por meio do casamento com o príncipe, afastando-se não apenas dos maltratos, mas da pobreza.

Outros filmes me impressionariam mais, porém projetados na televisão, a exemplo de Lessie, com Liz Taylor bem meninota. O sucesso do filme foi tamanho que ganhamos um collie e o chamamos de Apollo, sim, porque coincidiu com a época do projeto Apollo, nome dado ao foguete que levaria o homem para a Lua.

Depois disso, os filmes passaram a ser vistos na televisão, pois a ida ao cinema era muito desgastante em razão da distância. Assitimos muitos clássicos, já que naquele momento a televisão adquiria da indústria cinematográfica os direitos de exibição. Os filmes exibidos na sessão da tarde eram dos anos 40 e 50 e o mais curioso de tudo isso é que  suspiramos enamoradamente pelos mesmos atores que minha mãe suspirava quando jovem, com a diferença de que, para nós, eles já estavam velhos ou mortos.

Meu tio me falou de cinema

A vida da gente daria um belo roteiro para um filme, por isso que a matéria-prima do roterista será sempre o cotidiano das pessoas.

Era um domingo e estávamos visitando uma parente em um hospital e foi ali que começamos a falar de cinema.

O meu tio tem aproximadamente 55 anos e foi criado na Roça da Sabina, bairro do Chame-Chame, Salvador. No dia que nos encontramos no hospital, conheci uma de suas faces e fiquei impressionada como ele foi formado pelo cinema: ele gosta mesmo é de faroeste e possui quase todos os filmes em casa. Soube da animação "Rango" por ele e logo fui adquirir uma cópia, já que venho estudando também os filmes de animação.

Um dos momentos interessantes da nossa conversa aconteceu quando mencionei o filme "os brutos também amam" (Shane), protagonizado por Alan Ladd. Lembro-me de ter falado sobre a maneira pela qual a mulher tinha se apaixonado pelo protagonista, e do sofrimento dela quando ele partiu, no que ele me corrigiu  dizendo que todos naquele filme, homens, mulheres e crianças, tinham sido de alguma forma tocados por Shane, se apaixonado por ele. Achei a intervenção do meu tio muito interessante, pois ele de fato tinha olhado o filme de uma forma diferente da minha.

Outro momento interessante da nossa conversa foi quando ele me falou sobre a sua experiência no cinema, sobre a leitura do filme. Os filmes não eram dublados, mas legendados, e ele gostava de recontar o filme para os amigos. No entanto, as pessoas perguntavam na época como ele conseguia contar a história. Ele acabou revelando que nem se dava conta de que não contava os diálogos como apareciam no filme, mas inventava falas e as performatizava quando estava como os amigos.

O cinema propiciou este encontro com a imaginação, com o reconto, enlaçando ideias, pensamentos, atitudes, valores. De fato, meu tio sempre foi um bom contador de histórias, mas não conhecia esta história da vida dele.

II CURSO CINEMA E MULHER

O II Curso Cinema e Mulher entrou em recesso natalino, mas retomará as suas atividades em fevereiro, nos dias 06 e 14, quando concluiremos o curso com um TCCEX.
Boas Festas!

Se for dar um presente neste Natal, dê um DVD ou um livro.

Minha tia me falava de cinema

Eu tinha 18 anos quando a minha tia-avó me falou de um casal de atores de quem ela gostava muito. Provavelmente estávamos conversando sobre cinema, mas não me recordo exatamente o quê. Imagino que ela, uma doceira nascida em 1914, não tivesse ido muito ao cinema em Salvador, até porque pegar o bonde da linha 12 para ir ao centro deveria ser muito difícil, além de outras possíveis dificuldades. A periferia era periferia mesmo. Nelson Eddy e Janeth MacDonald eram dois artistas de Hollywood que atuaram juntos em muitos filmes nos anos 30, quanto a minha tia-avó era uma jovem de vinte e poucos anos e deveria ter se encantado com um dos filmes protagonizados pelos dois.

Um outro filme pelo qual ela tinha muito apreço era Dio, Come Ti Amo, sobretudo pela música interpretada por Gigliola Cinquetti. Certa vez, quando a minha tia-avó ainda era viva, visitei-a com um namorado e enquanto estávamos conversando no sofá (era assim que se namorava, pelo menos na presença dos pais ou familiares), ela se levantou da outra sala e quase imperceptivelmente pegou o LP e pôs na vitrola, saindo discretamente em seguida, sem sequer nos dirigir o olhar. Não estudou cinema, mas sabia que um fundo musical melódico podia reforçar qualquer cena idílica.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Amanhecer, Breaking Down

No filme, Bella e Edward jogam xadrez
remetendo à capa do livro, um exemplo
de Tie In.
O filme que trata da primeira parte do último livro da escritora norte-americana Stephanie Meyer começa com o tão esperado e previsível casamento de Bella e Edward, para desgosto de Jacob, o lobo-amigo-de-infância que nutre um confuso amor pela protagonista. Confuso porque não se sabe se resultado de um imprinting, de uma amizade ameaçada com a aproximação do seu natural inimigo ou sentimento de propriedade fruto de uma competição com o vampiro.

Do ponto de visto ideológico, o filme destaca valores assegurados pelas instituições sociais: a família, a obediência (ao que é “certo”), o casamento e também deixa entrever que mesmo em caso de risco para a mãe, o feto deve ser considerado em primeiro lugar. As cenas são extremamente violentas porque mostram a protagonista magérrima que morre assim que dá a luz a uma criança. O aborto aparece como uma via impensável, mesmo que esteja destruindo a mãe, o que deixa claro a ideologia antiaborto do filme.

Mquiagem e recursos digitais
deixaram a protagonista cadavérica.
O filme também deixa muito claro que o aborto é uma decisão da mãe, incluindo a concepção. Durante a lua-de-mel, Edward parece não querer ter relações sexuais com Bella, temeroso com o que possa lhe acontecer, ao passo que Bella insiste. Este evento contribui para o sentido de que se ela engravidou foi em razão de sua impetuosidade humana, o que reforça a ideia machista de que é a mulher que seduz o homem e por conta disso todas as consequências devem ser atribuídas a ela. Edward deixa transparecer isso em uma de suas falas quando lembra a Bella de que eles seriam apenas um casal. Assim, a decisão pela concepção e continuidade ou não da perigosa gestação incide sobre a mulher, como se apenas ela participasse de todo o processo, deixando a difícil escolha para ela. Mesmo que seja uma opção difícil, não podemos deixar de notar no filme um discurso de que se as mulheres abortam ou não é em função de suas escolhas, o que não é totalmente verdade, já que no processo dessa escolha existem práticas discursivas que orientam a decisão, deixando entrever que para além das subjetividades, existem outras regulações simbólicas (leis, discursos punitivos e condenatórios, premiações, etc) que influenciam a atitude responsiva da mulher. O mito sacrifical materno aparece no filme para nutrir e orientar as espectadoras.
O filme termina de uma forma que nos remete a Avatar. Neste filme, quando a câmera em plano de detalhe se aproxima do rosto do protagonista, Jake Sulle, na direção dos seus olhos, eles se abrem subitamente para mostrar ao espectador que o personagem está vivo não mais como terráqueo, mas como ser de Pandora. Em Amanhecer, a mesma coisa acontece, sendo que para mostrar que Bella tinha passado para outra forma de vida, seus olhos não apenas se abrem, mas mostram as pupilas avermelhadas, como as de um vampiro.

Cabe nesta metáfora a ideia da passagem de uma vida para outra e que essa transposição depende da escolha de cada um. Uma vida seria a humana, da qual Bella abre mão para unir-se, em uma outra forma de existência, a Edward, o que nos remete à crença de uma vida após a morte. Tornar-se vampiro significa viver para sempre, adquirir imortalidade. De onde ecoam essas ideias. Vocês já ouviram isso antes?

sábado, 17 de dezembro de 2011

Sugestões TCCEX - II curso cinema e mulher

Amores possíveis, Sandra Werneck
Carlota Joaquina, Carla Camurati
A Falta que me faz, Marília Rocha
Meninas, Tata Amaral
Olhar estrangeiro, Lucia Murat
Pequeno dicionário amoroso, Sandra Werneck
A Via-Láctea, Lina Chamie
Hotel Atlântico, Suzana Amaral
A Hora da Estrela, Susana Amaral
As melhores coisas do mundo, Laís Bodanzky
Bicho de Sete Cabeças, Laís Bodanzky
Chega de Saudade, Laís Bodanzky
Antonia, o filme, Tata Amatal
Uma Vida em Segredo, Suzana Amaral
Avassaladoras, Mara Mourão
Como ser solteiro, Rosane Svartman
Topografia de um desnudo, Tereza Aguiar
É proibido fumar, Anna Muylaert

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O ENVELHECIMENTO EM UMA COMÉDIA-DRAMÁTICA


"Achei o filme muito feminino. Mulheres envelhecendo são vistas como uma tragédia e foi preciso uma cineasta mulher para ver diferente.” (Isabella Rosselini)



Isabella Rosselini e William Hurt no cemitério
Assisti no dia 04/12 ao filme "Late Bloomers", já referido neste blog, da diretora Julie Gravas. Confirmando o que havia dito antes, o filme trata de uma questão central: o envelhecimento. Os personagens Adam e Mary,  vividos por William Hurt e Isabela Rosselini, respectivamente, formam um casal sexagenário que experimenta todas as mudanças trazidas com o avançar da idade: limitações físicas, lapsos de memória, perda de lugar no campo profissional, perda da visibilidade social, entre outras questões. Acontece que mesmo envelhecendo juntos, a forma de Mary e Adam responderem ao envelhecimento é diferente: ele se preocupa em não perder espaço (e poder) no âmbito profissional, empenhando-se em um projeto arquitetônico para o qual não consegue patrocínio, contando apenas com jovens voluntários que em um determinado momento anunciam a necessidade de um apoio financeiro, de alguém que aposte em um projeto para a construção de um museu. Adam abraça a ideia e dá início ao projeto às escondidas, já que o projeto para o qual foi convidado a desenvolver é um espaço de convivência para velhos, o que ele obviamente evita assumir.


Já a esposa, preocupada com os lapsos de memória, empenha-se em se manter mentalmente em atividade, buscando ressocializar-se, já que não trabalha há muito tempo, diferentemente do marido, e por isso parte em busca de atividades sociais como voluntária para exercitar a memória que ela acredita estar perdendo. Além disso, tenta sentir-se sexualmente atraente, preocupando-se com aspectos relacionados à beleza a fim de se manter visível, o que para a mulher significa ser jovem.



“Não gostava muito de andar em Roma, com os caras assobiando, ou fingindo tropeçar e passando a mão na sua bunda. Sempre achei ameaçador, não me sentia lisonjeada. Quando isso foi embora com a idade, meio que gostei.” (Isabella Rosselini)




Adam passa a conviver com os estagiários e com isso muda a alimentação (passa a comer pizza, beber redbull); altera o horário de dormir (ao virar a noite em um bar); muda o vestuário (trocando a camisa social por uma jaqueta de couro preta), e se nega a ter em casa equipamentos e suportes que o façam se lembrar da idade. A esposa corta os cabelos, faz visitas frequentes ao espelho e resolve, por sugestão médica, fazer atividades físicas. No lugar onde faz natação, conhece um homem que resolve cortejá-la, o que os leva a ter um affair. Adam também tem a oportunidade de viver um momento íntimo, quando uma jovem estagiária se despe à sua frente, mas o ato sexual não se concretiza e o filme deixa transparecer o ponto de vista do personagem que atribui à idade da estudante a não consumação do gesto.

Do ponto de vista de gênero, o filme deixa explícito que a invisibilidade da personagem feminina passa pelo código social que a condiciona a existência da mulher à beleza e, por conseguinte, à juventude. A necessidade do cortejo já aponta para isso, o que não acontece quando o assunto é o trabalho, aparecendo como uma ação que independe de um reconhecimento profissional, como no homem, e mais uma intervenção social. Neste sentido, fica demarcado como a sociedade separa as atividades por gênero, sendo que no filme há um leve deslocamento de peso, já que a atividade voluntária passa a ser mais importante porque corresponde a realidade, enquanto que o projeto quixotesco, de construção de um museu, aparece já destinado a não existir, mal consegue sair da maquete.

Ao escolher o museu, acredito que a diretora buscou metaforizar o desejo da personagem em fixar o tempo, embalsamá-lo, mas já mostrando a impossibilidade. O filme mostra que o velho não tem que viver do passado, mas do presente, daí o centro de convivência aparecer com mais funcionalidade em um mundo que envelhece, mas que não permite que mulheres e homens envelheçam com dignidade, respeitando as suas dimensões humanas. Há uma cena hilariante em que Mary pensativa e deprimida com a sua invisibilidade se nega a aceitar a vaga de assento em um ônibus feita por um jovem.
Do ponto de vista geracional, o filme, ao confrontar mulheres de idades diferentes, destaca a superficialidade das mais jovens, fruto de uma sociedade veloz que não oferece tempo para dar consistência às ideias e ações. Na cena em que Rosselini vai visitar uma organização “filantrópica” e se autodeclara feminista, a jovem a encara sem conseguir disfarçar a sua indiferença, continuando a pronunciar frases aceleradas e vagas. O desrespeito às pessoas velhas que realizam naqiele espaço um trabalho voluntariado fez com que Mary irrompesse indignada de dentro de uma sala.

O filme é uma comédia-dramática ao estilo europeu, sobretudo em se tratando de uma diretora, mesclando questões sérias com leveza. Existem partes do filme que as emoções chegam a se confundir, pois não sabemos se rimos, se ficamos consternados com as dificuldades das personagens em envelhecer ou se contemplamos especularmente o estado de lucidez das personagens sobre o estar velho, o que implica em uma consciência de si em tensão com os sentidos que a sociedade projeta sobre o estado da velhice.



FILMES DE TEMÁTICA NATALINA

Enfim, de volta! Depois de anos de ausência, agora já aposentada, resolvi retomar a escrita e os blogs. Hábito do ofício. Ultimamente tenho ...