quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O PIANO, 1993, DE JANE CAMPION



Filme: The Piano
Diretora: Jane Campion
Roteirista: Jane Campion
Elenco: Holly Hunter (Ada MacGrath), Ana Paquin (Flora MacGrath), Sam Neill (Alisdair Stewrat) e HArvey Keitel (George Baines)
Ano: 1993



O Piano não é um filme novo, mas é sempre um prazer revisitá-lo.

O filme se passa no séxulo XIX e conta a história de uma mulher escocesa, Ada McGrath , que não fala (ou se recusa a falar) desde os seis anos, e que tem uma filha chamada Flora McGrath. Ada se comunica com as pessoas através de gestos, mas, sobretudo, através de sua filha que lê as anotações em um bloquinho que ela carrega pendurado no pescoço.

A vida de Ada se transforma quando é oferecida em casamento a um homem (Alisdair Stewart) que reside na Nova Zelândia. Ele é um colonizador que negocia com as etnias locais, os maori. Lá vive um outro homem branco (George Baines), culturalmente híbrido, que se apaixona por Ada e que a seduz através do piano, levado durante a viagem, mas que fica na praia devido ao seu peso. Sabendo do valor do instrumento para Ada, Baines trata de buscar o piano, mas condiciona a devolução a algumas concessões: de tocá-la, acariciá-la, enquanto ela toca. No decorrer, Ada resiste, mas, por fim, se apaixona.

Em um dado momento, depois de negociar as "aulas" de piano pelo número de teclas pretas existentes no instrumento, Baines recua em sua estratégia, convencendo-se e convencendo-a de que a estava prosituindo. Mas Ada, acostumada com a recompensa, já estava envolvida e, a partir daí, tornam-se amantes. O marido descobre e amputa um dos dedos de Ada a golpes de machado. Baine e Ada são deportados da Ilha e com um dedo indicador artificial, ela passa a dar aulas de piano na cidade.

O Piano é um filme que trata de várias questões que se entrecruzam: questões étnicas, de gênero, colonização, que nos permitem leituras sob vários prismas. Contudo, fica muito claro que a colonização foi feita dentro de uma política de opressão racial, étnica e de gênero. O filme deixa entrever as contradições, por exemplo, do próprio Baines, homem branco, que, embora tenha acesso a cultura maori, e mais sensível às questões étnicas locais, age dentro de uma lógica de opressão de gênero, já que se utiliza de estratégias de estímulo-recompensa para seu benefício, fazendo Ada subordinar-se e realizar os seus interesses. Ao tentar condicionar o acesso da mulher ao piano através de favores sexuais, o personagem constrói um ciclo em torno do qual a mulher precisaria passar para obter o seu prazer, isto é, o homem se coloca como meio para a mulher obter qualquer tipo de prazer, satisfação, tornando-o necessário. Isso fica claro quando Ada, já com o piano em casa, se nega a tocá-lo. O objeto de desejo de Ada, que era o piano, é substiuído pelo objeto de desejo homem. No final do filme, esses desejos são fundidos, pois ela retoma a relação com Baine e volta a tocar.

As tensões também são mostradas quando Ada está com o marido, já que este se sente desempoderado por não conseguir se aproximar da esposa tanto afetivamente quanto sexualmente. Essa impotência desliza para uma violência extrema quando descobre que Baine e a esposa são amantes, situação que o afronta duplamente em relação a Baine e a Ada, ambos desafiando-o em sua masculinidade. Além disso, o marido é um negociante muito ruim com os maori o que o leva a depender sempre de Baine para mediar o conflito.

Além das questões de gênero, atravessam na narrativa fílmica questões sobre a colonização, ao expor as estratégias, sobretudo da igreja, no processo de aculturação. A religião faz uso do teatro para impor uma moral cristã ao povo maori, induzindo-os a punirem aquele que desafia a ordem patriarcal. Uma cena emblemática mostra os homens nativos incidindo contra o palco em defesa da mulher, vista por detrás de um pano branco sombreada pela luz, que está sendo agredida por um machado - numa clara alusão ao caso de Ada e Baines - por um homem. Esse gesto dos nativos mostra que o patriarcado nos países colonizados esteve atrelado a uma opressão étnico-racial e que naquele grupo étnico a relação de gênero era diferente do que o código ocidental sustentava.

O Piano é um filme para ser ver muitas vezes por tudo que ele faz sucitar.




segunda-feira, 29 de junho de 2009

TINHA QUE SER VOCÊ (Last Chance Harvey, 2008)


É sempre um prazer assistir a um filme com dois excelentes atores. Dustin Hoffman (Harvey) e Emma Thompson (Kate) contracenam em um filme suave e ao mesmo tempo repleto de conflitos existenciais. Ele, um músico de sessenta anos, que trabalha com jingles, mas que aspirava ser pianista de jazz, divorciado, vai a Londres para o casamento da filha e de onde recebe a notícia de que está demitido, aliás um fantasma que aparece quando vamos chegando à velhice. A substituição por alguém mais jovem (mas nem sempre mais talentoso, como mostra o filme) é inevitável devido ao preconceito geracional que se instalou em uma sociedade onde tudo é descartável e onde a novidade impera. Ela, uma mulher de quarenta anos, que trabalha no aeroporto preenchendo questionários, mas que aspira ser escritora, daí o curso de redação, cuida da mãe, a quem tem apenas como companhia, mesmo sem morar com ela, uma mulher divorciada, que passa o tempo observando um vizinho polonês por quem sente medo e atração.

Harvey e Kate se encontram em momentos difíceis. Ele tinha acabado de ser demitido e ter seu papel de pai substituído pelo padrasto em conduzir a noiva ao altar. Ela teve um encontro amoroso frustrado, pois o homem com quem estava no bar na noite anterior era mais jovem e, o pior, não havia assunto para ambos. É nesse clima que eles passam a se conhecer e tudo muda na vida dos dois. Apesar de tantos problemas pessoais, ambos mantêm a leveza, abrindo-se um para o outro, transformando um encontro aparentemente casual em uma amizade. A cumplicidade e o companheirismo seduziram ambos e a partir daquele momento fortaleceram-se mutuamente. Ele, que havia saído do casamento da filha decepcionado, retorna a pedido dela e ela que havia tido uma noite sem sentido vive um momento de empatia e, finalmente, sintonia com alguém. Motivados mutuamente seguem juntos para a festa de casamento da filha dele.

Kate é uma mulher inglesa introspectiva e cada vez mais pressionada pelas amigas a encontrar alguém, muito comum de acontecer quando se é solteira e já com certa idade. Elas se incubem de armar encontros para Kate, mas que não funcionam. Kate é uma mulher sensível, intelectual, que gosta de literatura. Divide seu tempo com o trabalho, as leituras e um curso de redação. Em sua primeira conversa com Harvey (Dustin Hoffman), a personagem mostra que tem consciência de sua cultura, da influência do código aristocrático vitoriano que imprimiu uma rigidez na forma do ser inglês, atribuindo a Lady Diana os créditos de ter provocado uma fissura nesse código, permitindo maior abertura para uma afetividade, para a exteriorização dos sentimentos. O código vitoriano recebeu uma crítica sutil vindo de um olhar crítico da personagem que reconhece as limitações em que foi educada e busca dar o salto, isto é, sendo direta, revelando-se aos poucos para seu interlocutor igualmente sensível.
Curioso é que nesse primeiro contato de Harvey e Kate, ela está lendo um livro intitulado The Wayward Note, de uma possível escritora chamada Anita Harman. Acontece que o livro não existe. Segundo o site da IMDB http://www.imdb.com/title/tt1046947/faq, o livro e a escritora foram inventados especialmente para o filme, caso contrário, teriam de pagar pelos direitos autorais. De qualquer sorte, escolher uma escritora e não um escritor e um título cuja tradução poderia ser, entre outras possibilidades, Notas de uma Desobediente, ou de alguém que resiste a algo, me parece bastante significativa.

Em meio a tantos relacionamentos fortuitos, o filme “Tinha que Ser Você” resgata um tipo de comportamento entre casais que há muito não vemos, pois com a onda do “ficar” em que apenas o prazer sexual conta, relações pautadas em cumplicidade e companheirismo são cada vez mais raras. Mostra ainda que a vida não é um caminho aberto para ser seguido, mas experimentado. O personagem, mesmo abatido com tantas desventuras, não perde a serenidade e tenta tirar da situação algum aprendizado, mostrando-nos que a vida é um constante aprender, independente da idade. No final, quando ela pergunta a ele onde mora, brincando de preencher o questionário, ele responde que está em transição. Esta palavra é a síntese da vida. Nada é certo, seguro, planejado, a vida vai se desenhando na medida em que vivemos.

sábado, 27 de junho de 2009

Lipstick Jungle, 2008 (SERIADO)

Lipstick Jungle, 2008 (Versão Piloto)

“"Selva de Batom" é uma divertida comédia que segue a vida de três amigas quarentonas da alta sociedade e seus problemas profissionais e pessoais. Com muito humor, essas modernas mulheres se apóiam nos triunfoCor do textos e nas lágrimas para vencer na Big Apple americana.” Sinopse exibido por um site que comercializa o DVD do filme.

A diversão do telespectador tem sido cada vez mais sádica. As pessoas se divertem com o desespero alheio, o sofrimento do outro, haja vista a sinopse acima sobre o seriado.
Assisti durante os festejos juninos ao filme Lipstick Jungle, de 2008, que trata de três mulheres bem-sucedidas que vivem em Nova York conflitos cotidianos de como se realizar profissionalmente, mantendo-se em seus postos nas mais poderosas corporações, e emocionalmente, na família ou nas relações amorosas. Duas delas são casadas: uma com um músico que não consegue se dar bem profissionalmente e a quem ela mantém, juntamente com dois filhos e a outra é casada com um homem mais velho, mas que não tem mais interesse sexual por ela. A terceira mulher, solteira, nesse episódio, passa por uma experiência profissional fracassada, buscando compensação em um relacionamento com um homem rico, mas que ao se aproximar dela em um momento de fragilidade manipula e a aprisiona psiquicamente e emocionalmente, presenteando-a com jantares e sexo, ao mesmo tempo em que a desqualifica dizendo-lhe que enquanto mulher estaria fadada ao fracasso, devido a sua “natureza” emotiva.

O filme assemelha-se muito a Sexy in the City até porque foi baseado no livro da mesma escritora Candace Bushnell. Para uma feminista, é um filme difícil de assistir, embora seja classificado como comédia e as sinopses, para efeito de venda, insistam em chamá-lo de divertido. A mensagem produzida pode ser visto como um backlash, na medida em que reforça a idéia de incompatibilidade entre os dois espaços (profissão e casa), pois as mulheres realizadas profissionalmente passam por situações insuportáveis, humilhantes em sua vida particular, pessoal, afetiva, empurrando-as para a esfera doméstica. A personagem que aparece menos problemas no final é a solteira que encontra o grande amor.

O final é desconcertante, apavorante para as mulheres que querem seguir uma carreira, ocupando cargos de poder. É um apelo às mulheres para não prosseguirem nesses espaços, pois são hostis a elas e, por isso, não sobreviverão na “selva”. A mulher solteira terá seu trabalho clonado por uma outra mulher, disfarçando assim uma polaridade entre os sexos, mas que apenas mostra que a competição se dá em um mundo masculinizado, pelo modelo competitivo vigente, pelas estratégias empregadas para vencer e a supressão de qualquer afetividade vista como impedimento de sucesso profissional nesse modelo de sociedade. O mundo lá fora é para homens ou para quem adota a sua lógica. O funcionário demitido irá processar a sua chefe por assédio e a outra casada será perseguida pelo seu chefe, a fim de encontrar alguma falha de conduta e ser desmoralizada pelos encontros extraconjugais. A solteira terá um "final feliz" dentro do código androcêntrico, pois encontra "o homem dos sonhos" - rico, jovem e bonito. Claro que esse happy end representa o que a ideologia de uma classe dominante quer para as mulheres continuarem em suas casas, cuidando do marido e dos filhos. Por isso, apresenta o desfecho da mulher solteira como o caminho a ser seguido pelas mulheres porque as outras terão de passar por complicações no mundo profissional e pessoal.

Encerro o meu texto com um comentário extraído do mesmo site supracitado, em epígrafe, feito por uma internauta que, pelo visto, envolveu-se e viciou-se nas desventuras e sofrimento das protagonistas:

“ Assim como o seriado Sex and the City o Lipstick Jungle é envolvente e viciante... Mulheres, o mundo feminino tem um novo seriado!”

Um novo seriado, mas com velhas ideologias. Será que não percebemos?

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O Leitor (The Reader, 2008)


“It doesn't matter what I think. It doesn't matter what I feel. The dead are still dead.” Hanna Schmitz

O filme mais recente que vi foi O Leitor, antes mesmo da noite do Oscar. Sabia que os comentários feitos em relação ao envolvimento de uma mulher madura (Kate Winslet/Hanna Schmitz) e um jovem (David Kross/Michael) não era o eixo principal do filme, mas acreditar nisso parecia justificar a ida de muitos ao cinema. O filme é muito mais que uma história de amor entre pessoas de gerações diferentes e, o fato de ter sido visto por esse ângulo, já me permite alguns questionamentos: por que interessa às pessoas irem ao cinema para ver essa relação? O que as pessoas querem ver ou sentir a partir disso? Essa é uma discussão interessante e embora reconheça isso, por ora, penso que seja oportuno dizer que o filme é uma história de amor, sim, mas entre a personagem Hanna e a palavra, entre uma mulher analfabeta e a escrita.

O filme se passa nos anos 50, após a Segunda Guerra Mundial, quando a Hanna Schimtz, ex-vigilante do campo de concentração, passa a viver em situação difícil como “cobradora”. Para lidar com os horrores de uma realidade tão desumana vivida nos campos de extermínio, refugia-se na literatura através da qual consegue ter algum prazer e alívio diante do que fez. Era analfabeta e por isso precisava de alguém que lesse para ela. Foi quando conheceu Michael, um adolescente que, diante de sua curiosidade, logo após ter sido cuidado por ela quando o encontrou febril na rua, próximo a sua casa, passou a freqüentá-la, surgindo dali uma cumplicidade de prazeres mútuos.

Porém, quase dez anos depois, Hanna seria acusada pelas mortes das pessoas durante o holocausto. Foi incriminada por ter escrito o relatório, mas envergonhada de dizer que não sabia escrever e diante da imposição da Corte de fazê-la redigir em um papel para comparar a caligrafia, assume a responsabilidade de ter comandado as práticas no campo de concentração. No julgamento está presente Michael que mesmo percebendo naquele momento as suas limitações não interveio, alegando que ela mesma preferia ocultar esse fato.

Condenada a prisão perpetua, Hanna passa a viver das fitas cassetes que Michael lhe envia até que, não querendo mais depender dele, resolve aprender sozinha a escrever, ouvindo os fonemas pronunciados por Michael e comparando as formas escritas. Hanna se liberta, embora fisicamente presa, através da escrita. Quando está para sair da prisão, certamente por revisão do seu processo, Michael vai buscá-la, pois não há ninguém a sua espera na sociedade. Michael lhe assegura um emprego e um imóvel para morar. Durante a conversa percebe que diante de si existe um outro Michael, indiferente, um estranho. Quando retorna ali uma semana depois para buscá-la, ele tem notícia de seu suicídio. A morte passa a ser a saída para Hanna já que não teria mais sentido a sua existência, pois já estava completamente livre, inclusive para decidir sobre a sua própria vida.

Um filme espetacular que me emocionou muito pelofato de perceber nele como uma força interior, uma necessidade de liberdade, pode impelir alguém a realizar algo tão revolucionário mesmo em condições extremamente adversas, a tal ponto de modificá-la substancialmente. Vi o suicídio de duas formas: como o momento da consciência de plenitude, pois não se tem mais o que esperar do mundo, e, por outro lado, como forma de acabar com o sofrimento que a aguardaria, de desajuste com um mundo fora do presídio tão indiferente e estranho quanto foi o seu encontro com Michael adulto.
Um canto de amor à literatura, à palavra. TOCANTE.

A forma como ela aprendeu a ler mostra como um desejo maior que vem de dentro do indivíduo, através do fascínio pela palavra, com todos os seus encantos, consegue neutralizar as forças negativas que incidiam sobre ela. A literatura, a palavra, era o seu oxigênio, precisava daquele gesto para sobreviver, talvez, por isso, um filme tão visceral e extraordinariamente poético.

Citações:

"Young Ilana Mather: [Testifying in court] Each of the guards would choose a certain number of women. Hanna Schmitz chose differently.
Judge: In what way differently?

Young Ilana Mather: She had favourites. Girls, mostly young. We all remarked on it, she gave them food and places to sleep. In the evening, she asked them to join her. We all thought - well, you can imagine what we thought. Then we found out - she was making these women read aloud to her. They were reading to her. At first we thought this guard... this guard is more sensitive... she's more human... she's kinder. Often she chose the weak, the sick, she picked them out, she seemed to be protecting them almost. But then she dispatched them. Is that kinder?" (http://www.imdb.com/title/tt0976051/synopsis)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

REVOLUTIONARY ROAD (Foi apenas um sonho)

Foi apenas um sonho” é o nome do título escolhido para a tradução de “Revolutionary Road”, filme estrelado por Di Caprio e Winslet, conhecidos pelo par romântico no filme Titanic. Aparentemente parece não ter nada a ver, mas o título original e a sua tradução para o português (BR), associado a trama do filme, parecem evocar um passado, lido pelo presente, como um "sonho" de conquistas que aponta para uma realidade frustrante ou na melhor das hipóteses como uma utopia de juventude que, quando vista pelo presente adulto, aparece como uma experiência de um momento da vida e como escape para os conflitos provocados pelas relações cotidianas. Revolutionary Road (Caminho Revolucionário) representa um dos bairros do subúrbio dos Estados Unidos construído para as famílias de classe média que migraram para esses espaços em busca de segurança e tranqüilidade. Esses espaços começaram a ser amplamente resididos nos anos 50, momento em que o discurso da “mística feminina” será fortemente propagado e, também, questionado pelos intelectuais dez anos depois. Betty Friedan, em 1968, com o livro "A Mística Feminia" e Richard Yales, em 1961, com o romance "Revolutionary Road". A década de 60 representou o momento histórico em que artistas, intelectuais e membros organizados da sociedade civil questionaram os valores da classe burguesa, daí o traço existencialista marcante e presente nos personagens de "Foi apenas um Sonhos", April e Frank Wheeler. Ela que sonhava em ser atriz, acaba se tornando uma dona-de-casa e ele que esperava alçar vôos, que incluía Paris, permaneceu em seu emprego, tentando sustentar a família. É um filme que questiona o sentido de felicidade e de realização de homens e mulheres na família. Se o discurso hegemônico propaga a ideologia da família como o “lar doce”, tranqüilo e seguro, como as imagens das casas oferecem, no seu interior, nas vidas das pessoas o que predomina é justamente o contrário, como afirma o autor Yates em entrevista concedida em 1972:

"Eu acho que isso significava mais como uma denúncia da vida Americana na década de 1950. Porque durante os anos cinqüenta, houve uma conformidade de entusiasmo geral em todo o país, não apenas periferia - uma espécie de cegueira, uma desesperada adesão à proteção e segurança a qualquer preço, como exemplificado politicamente na administração Eisenhower e do Joe McCarthy Witchhunts. Enfim, um grande número de americanos foi profundamente perturbado por tudo isso - sentiu ser uma traição definitiva dos nossos melhores e mais bravos revolucionário espírito - e esse foi o espírito que tentei encarnar na personagem, em April Wheeler. Eu quis dizer que o título que o caminho revolucionário de 1776 tinha chegado a algo muito semelhante a um beco sem saída nos anos cinqüenta."

Está clara a referência aos ideais burgueses que fizeram eclodir a independência dos Estados Unidos, mas que, para o autor, foram traídos pelo programa republicano do então presidente Eisenhower, considerado conservador e que criava operações de "segurança social" por meio de projetos de fortalecimento da
política do país pautados no fortalecimento dos valores familiares burgueses.

O filme mostra o impacto dessas intervenções do Estado na vida das pessoas, vendendo seuas ideais e valores humanos em detrimento a uma vida hipócrita familiar em que as pessoas se vêem destruindo seus projetos de vida profissional, portanto de realização pessoal, para viverem confinadas a uma rotina familiar isolada, onde sonhos foram solapados em nome de um ideal pequeno-burguês de família. A prosperidade material estava longe da realização pessoal dos Wheelers.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A TROCA, Clint Eastwood, 2008

"Se você ri muito, dá a ilusão de que é histérica, se não ri, você é depressiva, se for neutra as emoções se vão." (Carol Dexter, personagem de A TROCA)

A Troca é um desses filmes raros no atual cinema norte-americano. Longe das narrativas regadas a sangue, tiros e movimentos explosivos, A TROCA aparece em meio a calmaria, mas "calm like a bomb", como dizia o grupo RATM. No cenário urbano de Los Angeles, de 1928, uma história real aconteceu: uma mãe (Christine Collins/Angelina Jolie), teve seu filho seqüestrado por um homem que tinha como diversão assassinar crianças a machadadas.

A partir do seqüestro, ela parte em busca do filho, tendo que enfrentar a corrupta polícia local. O contexto histórico em que se passa o filme é o ano que antecede o colapso econômico dos Estados Unidos, chamado de Grande Depressão (1929). A vida de Collins gira em torno do trabalho que a sustenta (ela é mãe solteira) e da busca pelo filho. Certo dia, ela recebe a informação de que seu filho estaria vivo e vai encontrar-se com ele na estação de trem, na presença da polícia e da mídia. Isso ocorre seis meses depois. A polícia apresenta um menino, mas que logo é indentificado pela mãe como não sendo seu filho, mas, diante da pressão policial e do impasse, a mulher resolve levá-lo para casa. Depois de verificar detalhes comportamentais e físicos da criança e ter escutado o dentista e a professora do filho, a personagem tenta argumentar com a polícia sustentando que não é seu filho. A insistência, além da denúncia feita aos jornais, leva a polícia a interná-la no hospício e é nesse momento que o filme produz as suas cenas mais violentas contra a mulher.

Ao conversar com uma prostituta também internada, ela toma consciência de que uma mulher sozinha não tem voz. Todos ali eram mulheres que, de alguma forma, desafiaram a polícia. Uma era espancada por um deles, a outra denunciou para os jornais a violência de um policial sofrida por seu irmão e a prostituta também denunciou um assédio de um policial, todas que desafiaram a lei e o Estado foram internadas.

O filme mostra como o sistema produz mulheres loucas, desacreditadas, humilhadas em sua dignidade. O final, bem ao gosto norte-americano, é resolvido com a justiça e só foi possível porque uma criança, que auxiliava nas mortes das crianças a machadadas, confessou o crime a um policial que, também desacreditado da corporação, resolveu elucidar o caso. O julgamento do assassino das crianças contribuiu para resolver o problema do filho impostor e, ao mesmo tempo, mostrar a corrupção da polícia e o desrespeito humano.

Todos sabem que as mulheres são frágeis, todas essas emoções irracionais (...) Se alguém nos diz algo inconveniente ficamos como porras loucas. Pela minha amizade, se ficarmos loucas, ninguém nos escutará. Em quem você acreditaria, numa louca que quer destruir a integridade da polícia ou num oficial de polícia? ” (Carol Dexter)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O estranho caso...

Apesar do blogue tratar sobre a mulher, não poderei deixar de comenta aqui o filme O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008), de David Fincher.

Trata-se da história de Benjamin Button, narrada em primeira pessoa, que chega ao espectador pela voz da filha, Caroline (Julia Ormond), quando no hospital, ao acompanhar sua mãe (Kate Blanchet), começou a ler os escritos de seu pai, sob a iminência da chegada de um furacão.

A história parece simples: um homem que nasce velho e morre quando bebê. Contudo, a questão é bem mais complexa, pois ele é único. Trata-se, portanto, da construção da identidade de um indivíduo que, ao nascer biologicamente velho (mas uma criança por dentro) se relaciona em um ambiente formado por adultos e velhos. Quando vai alcançando a maturidade (50 anos), resolve sair de casa em busca da independência, conseguindo emprego em uma embarcação. A partir daí, passa a cumprir os rituais considerados masculinos, em companhia de homens simples e rudes, que envolve bebida e sexo, mas, também, as frustrações vividas por eles, por exemplo, ao saber que o Capitão queria ser artista, mas que foi desmotivado. Contudo a sua vontade latente fez com que transformasse seu corpo em tela, tatuando-o. É um misto de frustração, mas de esforço em superá-la, subvertendo as limitações impostas pela sociedade.

A morte (física e simbólica) é um tema sobre o qual o filme trata, já que presente em toda a narrativa. Só que a morte não está vinculada a um envelhecimento, no sentido que a gente tem de velhice, isto é, associado a uma degenerescência física, mas ao contrário, ao "nascimento", na regeneração, criando no espectador uma desacomodação. Pitt está hoje com 40 anos, mais próximo portanto do momento em que as personagens (Daisy e Benjamin) chegam no meio da vida e se conectam, por estarem na mesma idade, só que a partir daí ele decresce e remoça e ela decresce e envelhece. Tanto a velhice quanto a infância são mostradas como uma "morte" mas de ângulos diferente.

Que efeito tem a morte na direção contrária? Que sentido tem a velhie para nós e como o espectador reage diante da mudança de direção? A morte, independente da direção, acontece de qualquer jeito e com as mesmas características. A degenerescência e a regenerescência (não vi outro termo) produzem dependência, problemas de memória, só que a perspectiva muda. É um filme muito bom para desacomodar, descristalizar, desestruturar com visões congeladas, que são socialmente construídas e muitas vezes não percebemos por já estarem sedimentadas. Acontece que o sentido dado a velhice/morte é a que nós conhecemos. Se tivéssemos a experiência de Benjamin, a partir do sentido de morte que engendramos, muito provavelmente a infância seria vista como os piores momentos da nossa vida e passaríamos a vê-la com desprezo, valorizando a velhice.

Estava lendo uma resenha do filme da Folha online onde aparece o trailler. A narração - do próprio Benjamin - menciona não apenas a "disfunção" - viver ao contrário dos outros - mas a solidão de carregar esse "des-ajuste". O fato da pessoa estar deslocada do seu entorno, a transforma em um ser solitário. Se formos para a literatura, vemos que Scott F. Fitzgerald fazia parte da Geração Perdida ("lost generation") o que já nos informa algo: "refere-se a um grupo de celebridades literárias estadunidenses que viveram Paris e em outras partes da Europa no período de tempo em que se viu o fim da Primeira Geurra Mundial, no começo da Grande Depressão."

(http://pt.wikipedia.org/wiki/Lost_Generation)

Os temas desse grupo de escritores giravam em torno de um desilusão de uma ordem burguesa pós-guerra: o abandono, a angústia, a desesperanaça, entre outros. O fato do filme iniciar com o produto desse ambiente - um relógio que girava ao contrário - já explicita o impacto de uma guerra nas vidas humanas. O relógio foi montado com a dor de um pai que viu seu filho morrer na guerra. O relógio que girava ao contrário era para trazer de volta os filhos mortos pela guerra. O pai morre de desgosto. Benjamin que nasce no final da guerra de 14, vive um outro momento de guerra, a de 45 e nessa ele participa. É uma vida que se tranforma dentro de um contexto de morte.

Ao construir uma personagem que logo é abandonada pelo pai por nascer diferente, nos remete a várias outras questões: a maldade humana, a rejeição, de um lado, e a generosidade e acolhimento, do outro.

Há também outros pontos interessantes que podemos levantar, como a relação familiar (distante do vínculo biológico) como algo construído na relação, a partir da afetividade. Esse ambiente familiar é amplo, pois ele mora com os pais adotivos - casal de negros - que ao mesmo tempo é um asilo. Uma outra questão é do ponto de vista das identidades, já que não se trata apenas de uma vida que corre ao contrário, pois se entendemos que a identidade se constrói a partir do olhar do outro sobre nós também, o que significa para o outro (os velhos do asilo, por exemplo) ser criança (se é que eles viam assim, acho que eles o viam como velho) com uma aparência senil, com todos os problemas de saúde do velho? Como o personagem irá construir a sua identidade sabendo-se que o outro o vê como velho, mas que ele sabe que não é (se é que ele sabe, pois acho que ele não tem essa dimensão de imediato, ele vai se conhecendo à medida que o tempo vai passando). Por outro lado, independente de jovem ou velho ninguém sabe por antecipação o que é ser um ou outro, ambos vão construindo à medida que vão vivendo. Achei interessante aquela parte do filme sobre como aconteceu o acidente com Daisy. Como uma ação em algum lugar, aparentemente sem nenhuma conexão com outras vidas, acabam tendo uma relação, muito embora as pessoas envolvidas jamais saibam. Acho que fica aqui uma reflexão sobre a responsabilidade dos nossos atos.


A vida de Benjamin vai sendo costurada pelos atos das pessoas que fazem parte da vida dele: de um lado pessoas que o abandonaram, rejeitaram; de outro lado, pessoas que amaram e acolheram.

"Amadurecer é coisa terrivelmente difícil. Fica muitomais fácil passar de uma infância à outra." (Scott F. Fitzgerald)

FILMES DE TEMÁTICA NATALINA

Enfim, de volta! Depois de anos de ausência, agora já aposentada, resolvi retomar a escrita e os blogs. Hábito do ofício. Ultimamente tenho ...