sábado, 30 de abril de 2011

RECÉM-NASCIDOS NO CINEMA

O que significa o choro de uma criança? Alegria? Certamente que não, e não é necessário ser mãe para sabê-lo. 


Certo dia fui assistir no cinema ao filme de animação Rio e me deparei com uma cena no mínimo desconfortante: um bebezinho dentro da sala de exibição

Durante a projeção do filme, ele chorava insistentemente, forçando os espectadores a pedirem silêncio repetidamente. Imagino que ele deveria estar muito incomodado naquela sala escura, fria e barulhenta, já que o ouvido do bebê é muito mais sensível do que o do adulto, segundo artigo escrito por Claudia Boyd-Barret para o site BabyCenter (deixarei o link no final do texto). Na mesma linha de raciocínio, a página da Audiocentros traz um posicionamento da OMS que estabelece os decibéis de uma sala de exibição que deveria ficar entre os 35-85dB, porém, segundo ainda a página, é possível que em algumas projeções o ruído possa alcançar 130dB (haveria que medir ao entrar em uma sala de exibição):


Além de incomodar o bebê, o seu choro também impedia que os outros espectadores, que pagaram pela entrada, pudessem assistir ao filme em paz. A nossa educação, baseada em valores ocidentais de civilidade, deveria nortear a nossa conduta e impedir que a inadequação venha a tornar o espaço coletivo pouco sociável. Os pais têm o direito de assitir aos filmes, claro, mas deixando o bebê em casa, no conforto de seu berço, com uma babá ou um familiar. É o meu entendimento baseado na ciência. 

Eduquemo-nos porque a educação é uma via de mão dupla e envolve reciprocidade. Se queremos ser respeitados, devemos respeitar também. 

Link de consulta: 





terça-feira, 26 de abril de 2011

CINEMA E MÍDIA IMPRESSA

Lindsay Lohan cumprirá pena como faxineira em necrotério

26/04/2011 às 10:13

ATUALIZADA às 10:16
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Um texto começa antes de sua materialização gráfica (no caso do texto escrito) que nos leva a analisar a razão pela qual um determinado assunto interessaria ao público leitor de um jornal. Neste sentido, vale identificar de imediato qual o objeto da matéria, em outras palavras, o “o que”. Contudo, penso que, para além da identificação do assunto, poderíamos nos ater ao “como”, isto é, de que forma um assunto será tratado ao longo do desenvolvimento do texto. No caso da matéria a seguir, o assunto é o fato de uma atriz de cinema desenvolver a tarefa de faxineira como pena por ter furtado um colar. No título da matéria, há a necessidade de persuadir os leitores através do contraste, já que, por este recurso sugere-se que a profissão de atriz contrasta com a de faxineira, o que na nossa cultura, representa uma atividade de menor prestígio e glamour do que ande atriz. Ao trazer o contraste no título da matéria, busca-se por um efeito, na medida em que esse leitor faz parte de uma cultura que conhece muito bem os valores das profissões. Direciona-se o leitor para que acolha a ideia de que a atriz perdeu seu status, o que não deixa de envolver o discurso em um tom desqualificador, tanto em relação ao contraste quanto ao fato de ser uma atividade fruto de um cumprimento judicial, isto é, a atriz será obrigada a desenvolver a atividade social e para piorar a situação em um necrotério, símbolo da morte, o que pode funcionar como metáfora para a carreira da artista.

A atriz americana Lindsay Lohan terá de fazer trabalho comunitário como faxineira do necrotério de Los Angeles para cumprir pena por ter violado a sentença de liberdade condicional, informa a edição digital do jornal  "Los Angeles Times".
O texto faz uso do recurso intertextual, parafrástico, retextualizando uma matéria publicada em um jornal norte-americano. A credibilidade advém de uma fonte, de um veículo localizado no país de origem da atriz. Este recurso conduz o leitor para um estado de aceitação do que está lendo. Interessa-nos identificar as estratégias de adesão e não se o conteúdo é verdadeiro, se de fato aconteceu. Neste parágrafo, o tom da obrigatoriedade reaparece na construção verbal “terá de fazer”, colocando a atriz em uma posição de subordinação e ao mesmo tempo sinalizando também a sua dificuldade em aceitar as determinações legais, sugerindo ao leitor que se trata de uma pessoa “insubordinada”, “problemática” (palavra conhecida nossa)

Na sexta-feira passada, a juíza Stephanie Sautner condenou Lindsay a 120 dias de prisão e 480 horas de serviço comunitário pelo furto de um colar em janeiro passado. Dessas horas, 360 serão realizadas em um centro comunitário de mulheres em uma das áreas mais pobres de Los Angeles e as outras 120, no necrotério.
A condenação ganha relevo ao ser associada a detalhes como a carga horária e o local, além do motivo por estar cumprindo a atividade social.

"Sempre temos prestadores de serviço comunitário. Eles limpam e varrem", comentou Ed Winter, assistente-chefe do necrotério, onde foi realizada a autópsia do corpo do músico Michael Jackson.

A transcrição da fala é um recurso eficaz no efeito de credibilidade, pois o testemunho, a confissão e a declaração de alguma autoridade sugerem uma neutralidade de quem elabora a matéria, encobrindo a ideologia, a sua intencionalidade. Ao trazer a declaração da juíza que condenou e do assistente-chefe do necrotério, o jornal (não há referência a quem assina a matéria) deixa entrever a sua concordância com o veredicto, consciente ou inconscientemente, e torna o leitor o seu cúmplice.

Ajuíza do caso determinou que a polêmica atriz deverá iniciar o trabalho comunitário dentro de uma semana e completá-lo ao longo de um ano. Lindsay pagou a fiança estimada em US$ 75 mil na sexta-feira, após o veredicto. Sua advogada informou que recorreria da sentença.
Novamente o jornal se apropria de uma possível fala da juíza, através do discurso indireto, sugerindo que a juíza teria se referido a atriz como polêmica, quando, por meio desse recuso narratológico, inscrições indevidas aludindo a uma possível autoria podem acontecer. Através do discurso indireto as vozes se misturam, sendo que a voz do texto que está sendo escrito ganha autoridade por referir-se a outra voz que possui poder para a sociedade, neste caso a juíza.

Quando foi acusada do furto, a intérprete cumpria liberdade condicional por um processo iniciado em 2007, após ser detida por dirigir embriagada. Três semanas antes do incidente na joalheria, Lindsay havia concluído o período de três meses de internação em um centro de reabilitação.
Intérprete não é atriz. A primeira expressão se refere a uma atividade, enquanto a segunda a uma profissão. A atriz é desqualificada, marginalizada, arrancada de sua profissão e apresentada como uma pessoa perigosa e doente, portanto incapaz de ser chamada de atriz e de viver socialmente. A profissão, na nossa sociedade, é uma forma de inserção social.

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O que há de problemático, talvez mais do que a sentença de Linsay Lohan, é que o sensacionalismo acaba condenando duplamente a atriz. Além da condenação social, o que parece ser perfeitamente normal para as pessoas que por algum motivo não acatam às leis, a mídia local (do Brasil/da Bahia) reforça o esquartejamento através de um texto montado em dados descontextualizados, que transforma uma ação em espetáculo, pior em uma imagem negativa de uma prática comum em outros países. A forma que a mídia local apresenta a sentença da atriz atrela a “faxina”, palavra usada pelo jornal (não se sabe se em inglês o termo foi o mesmo e se empregado no mesmo tom) a algo humilhante.

Outro aspecto que merece destaque é o fato de a ideologia encobrir a relação causa-consequência nas ações humanas, não para minimizar as suas responsabilidades, mas para identificar o que desencadeou a ação e evitar assim outros casos semelhantes ou, ainda, que novos incidentes aconteçam e que outras Lindeys Lohans se formem.

A formação.

Por esta perspectiva, vale a pena mencionar que a atriz começou bem cedo a sua popularidade, aos 12 anos. Aos 16, começou a fazer um filme por ano e justamente quando começa a alcançar o topo da fama, paralelamente, a sua vida pessoal começa a degringolar, como se fossem dois lados de uma mesma moeda.

Além de atriz, Lohan também investe na música e em outros setores, como a moda. Aos 25 anos, a atriz mostra-se como uma jovem que busca viver intensamente, mas, como muitas outras, descuidou-se ao lidar com uma máquina poderosa de inventar mitos e destruí-los, como o cinema e a mídia de modo geral. A imprensa, ávida por matérias que gerem “acessos”, especulam a vida pessoal dos atores e, no caso de Lohan, a sua sexualidade, o consumo de álcool, a ida às baladas, na busca de indícios que justifiquem o seu desequilíbrio. As fotos que estampam a primeira página do Google mostram a atriz com roupas íntimas, bebendo ou em poses disformes, incitando no leitor a ideia de uma pessoa moralmente questionável.

O estrelato é envolvente e perverso. A sensação de poder construída pelo aparato glamoroso da indústria cinematográfica cria as desequilibradas desde a mais tenra idade, tornando-as sexies, consumíveis e descartáveis, mas a relação causa-consequência precisa ser encoberta. Lindsey Lohan tornou-se a atriz teen mais popular do cinema, tendo sido premiada diversas vezes. Com um currículo consistente e uma vida profissional agitada, entre o cinema, a televisão e o empresariado, Lohan vive o que muitas mulheres atrizes experenciam: uma vida pessoal conturbada, oscilante, assim como uma vida profissional extremamente competitiva e instável. Uma geração Hanna Montana que cresce espelhando-se na fama rápida e precoce, mas, também, o espectro do descarte, daí a movimentação multifocal, pluridiretiva, que exige um desempenho mais intenso. As drogas entram neste processo como forma de atenuar ou possibilitar o cumprimento de agendas. Os energéticos estão circulando na sociedade como forma de promover um desempenho que em condições normais seria impossível realizar. O importante é garantir o cumprimento de uma agenda intensa e frenética imposta pela indústria cultural e de consumo que gera as drogas para que os corpos sejam consumidos.

Assim, o caso Lohan reflete as contradições da sociedade em que vivemos, sendo que as atrizes, pela profissão, são mais expostas. O consumo, o descarte, a competitividade, a completa desumanização são sintomas de uma sociedade e as mulheres, de um modo especial, estão traduzindo isso em comportamento. Maior do que isso, a meu ver, é a onda de moralização que julga e condena sem buscar as razões. Vivemos em uma sociedade de juízes.

Fonte: http://www.atarde.com.br/cultura/noticia.jsf?id=5715584

Vale salientar que no mesmo dia, às 16h35, outra matéria foi publicada sobre a atriz, mas como não li, não pude incluir na minha análise.

"Acho que, sendo jovem e estando onde eu estava, você não aproveita o tempo para apreciar o que tem, e tudo é um tipo de furacão e as pessoas tomam decisões por você"
(Lindsay Lohan em programa de TV)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

SOCINE- SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS DE CINEMA E AUDIOVISUAL

As inscrições para o XV Encontro a se relizar no Rio de Janeiro entre os dias 20 e 24 de setembro de 2011, foram prorrogadas até o dia 06/04.

Mais informações: http://www.socine.org.br/index.asp  

O Guarda-Costas (The Bodyguard, 1992), Mick Jackson

Revi recentemente o filme O Guarda-Costas (The Bodyguard, 1992), Mick Jackson, estrelado por Withney Houston e Kevin Costner. O filme narra a história de uma cantora famosa indicada ao Oscar de melhor canção, mas que, sofre, na vida pessoal, de problemas com a sua segurança, com fãs que a querem assediá-la e mesmo matá-la. Abalada psicologicamente por se sentir tão vulnerável, assim com a sua família, formada por seu filho e irmã, seu assessor resolve contratar um guarda-costas experiente, acostumado a proteger lideranças políticas como o presidente da república dos Estados Unidos. Acontece que, ao se tratar de uma mulher, a função de proteger, associada a profissão, ao se entrecruzar com o sistema patriarcal-burguês, adquire uma feição duplamente representada pela ideia de proteção do homem à mulher. O filme apresenta à leitora (encobrindo obviamente a ideologia de dependência) a “sua” imagem distorcida, conforme a visão do discurso hegemônico em relação ao gênero. Por isso que a ideia de uma mulher desprotegida que acaba se apaixonando pelo seu guarda-costas agrada tanto a espectadora, já que o filme cria a ilusão na mulher de que ela é dependente do homem, facilmente introjetado devido à situação de perigo em que ela é constantemente exposta, podendo, a meu ver, por meio de um abuso da ilusão, reunir em um mesmo homem aquele que a protegerá no espaço público e privado. Mesmo ela sendo poderosa, famosa, endinheirada, continua, dentro da estrutura social patriarcal, vista como indefesa, necessitando de um homem que possa suprir as suas carências (lembrando de que ela é mãe solteira) e ao mesmo tempo lhe proporcionar segurança em relação aos fãs e desafetos. O controle mental é materializado nas práticas sociais:

O filme colocou o ator Kevin Costner, na época, segundo revistas do ramo, como o homem mais desejável do mundo, obviamente, devido ao imaginário de protetor suscitado pelo personagem. Significava dizer que ele representava alguém que estava disposto a dar a vida para salvar a do outro, no caso do filme, a mulher, e em quem ela poderia confiar. A ideologia cumpre o seu papel de encobrir o controle social e mental sedimentando um discurso histórico através de uma história de amor inter-racial. (LEIRO, 2011, p.03)

O aspecto inter-racial no filme é outro componente importante, pois se trata da relação amorosa entre uma cantora negra norte-americana e um homem branco, biotipo europeu, mostrando uma pretensa universalidade sobre a dependência emocional da mulher ao homem, este profissionalmente em condição subalterna à ela, mas que, ao se tornar seu amante, ganha importância dupla, redimensionando o aspecto protetor, minimizando, atenuando o desnivelavamento o homem branco em relação à mulher negra, e que, pela importância dele na vida dela, o filme acaba por centralizar na figura dele. O filme termina com o afastamento de ambos, desfecho previsível, muito embora o amor permaneça, unindo-os. É um final feliz porque a vitória do amor se consuma. Na cena final, aparece a cantora performatizando a clássica canção I Will Always Love You, enquanto ele aparece na condição de guarda-costas em uma conferência, aparecendo atrás e em pé (posição de prontidão, confiança e controle) de lideranças políticas. Vale destacar que a música, de autoria de Dolly Parton, cantora conhecida pela sua performance country, foi escrita em 1973 e lançada em 1974. Em uma das estrofes, há a seguinte referência ao desfecho do filme:

Doces, amargas lembranças
São tudo o que eu levo comigo
Então, por favor, não chore
Nós dois sabemos que eu não sou o que você precisava.
O amor sublima o rompimento porque eternizado, mesmo em situação adversa a união entre eles.  Se a voz da canção for tomada como feminina, em razão de ter sido escrita por uma mulher branca, (o que não é um critério muito seguro, já que Michael Sullivan e Paulo Massadas são experts em escrever do ponto de vista de uma ideia de mulher que eles têm), poderia se cogitar o lugar do eu-lírico como instância de poder, já que ela toma a decisão de romper com a relação, isto é, a racionalização do relacionamento parte da mulher. No filme, também temos dados que mostram essa atitude da mulher, já que é ela quem está partindo e ele fica na pista de voo vendo o seu avião decolar. Mas esse empoderamento, embora importante dentro de uma visão feminista, é doloroso por conta das expectativas, dos construtos de gênero que estabelecem relações desiguais e de dependência emcional das mulheres aos homens, dos embates oriundos dos desafios das mulheres empoderadas ao se movimentarem na sociedade patriarcal. Se existe um salto qualitativo no filme é o de mostrar a projeção da figura paterna que as mulheres  criam no homem , mas que, ao fundir-se com a história de amor, embalada pela música melódica, acaba por encobrir possibilidades mais reflexivas, ratificando a convenção, mostrando o filme como propagador dos ideais hegemônicos de gênero.
É válido destacar que a canção foi o single feminino mais bem sucedido da história e é a 6ª música de maior sucesso conforme dados fornecidos pela mídia anglo-americana. Ela ficou em primeiro lugar por 14 semanas nos Estados Unidos e Reino Unido. Destaco também uma informação importante sobre a música: ela foi considerada por analistas clínicos como “tortura psicológica” por seus quatro acordes repetitivos. Se isso for, não menos torturadores são os inumeráveis “acordes” com que os discursos sexistas têm se repetido historicamente.

sexta-feira, 11 de março de 2011

É O CINEMA AÊ, GENTE

O grito parafraseia o cantor, compositor e puxador Neguinho da Beija-Flor, da Escola de Samba de Nilópolis. Mas não vou falar da campeã do carnaval carioca de 2011, mas de duas outras escolas que trouxeram o cinema como tema.

A Escola de Samba Unidos da Tijuca, cujo presidente é Fernando Horta, trouxe como tema de samba-enredo “Esta noite levarei a sua alma”. Durante o desfile, muitas referências aos filmes hollywoodianos, principalmente de ação (Avatar, Indina Jones, Na Montanha com os Gorilas, Transformers, Priscila, a Rainha do Deserto, entre outros), e os brasileiros (a exemplo de Carlota Joaquina e, no vídeo montado no carro alegórico, O Pagador de Promessas, Central do Brasil, entre outros). Em um dos destaques, esteve presente o cineasta José Mojica, conhecido como Zé do Caixão. Já a Acadêmicos do Salgueiro, presidida por Regina Celli Fernandes Duran, trouxe como tema “Salgueiro apresenta: O Rio no Cinema”, mostrando também em sua evolução o cinema, mas focando nas realizações brasileiras.

Os sambas-enredo das escolas mostram o poder do cinema como um ardiloso meio de sedução no qual os diretores “sob o capuz delira” e tentam levar a alma do povo através dos diferentes gêneros: terror, ação, comédia, e outros. Mas, o povo (da comunidade tijucana e, quiçá, outros) não teme ninguém, ao contrário, engana o cinema e o seu próprio sonho projetado, pois, segundo a letra não há roteiro com “ponto final”. O espectador responde fora da expectativa do diretor, já que "morrer de amar, faz o povo gargalhar" e quando o "nal condutor" acha que evolveu o espectador, "deu tudo errado, não há outro lado" e diz "esse povo me enganou".  Um texto que agrada aos teóricos da recepção.

Através de um jogo especular, o refrão deixa claro que a estrela do cinema não está dentro do filme, mas fora dele: “Eu sou Tijuca e estou em cartaz” porque é ele não é aquele suposto espectador que aasiste passivamente (se é que é possível), mas é ele quem controla o significado, a interpretação. Assim, o povo se apropria da mesma ferramenta para falar de suas experiências, da sua cultura, dos seus valores. A questão é saber qual o grau de interferência de outros grupos de interesse, que não são oriundos dos bairros da Zona Norte do Rio, na concepção do tema e do enredo.

O Salgueiro também reforça a idéia de que o povo é o protagonista da festa; “cada um é um astro que entra em cena”. A metáfora do cinema como produtor de estrelas, de personagens admiráveis porque vistas e por personificar valores sociais como força, coragem, tecnologia, ciência, beleza, entre outros, parece seduzir o espectador. A idéia de ser um astro está relacionado a necessidade de ser visto, estar sob o olhar e a admiração do outro, o que parece não acontecer com o povo no dia-a-dia, esquecido pelas autoridades.

Em outro momento da composição do Salgueiro, em uma lúdica dessacralização, a estrofe ilustra o paradoxo "perfeito” que talvez explique melhor a condição de povo multicultural que somos:

“O cenário é perfeito
De braços abertos sobre a Guanabara
O filme mostrou maravilhosa chanchada
Sob a direção do Redentor.”

Aqui a palavra direção pode se referir tanto a ideia de norte quanto daquele que dirige o filme, neste caso, o Redentor, metonimicamente referindo-se a um símbolo da cultura judaico-cristã. A experiência conflituosa barroca, em que o sagrado e o profano dilaceram a alma humana, aparece harmoniosamente nos versos da música, e mais, a experiência carnavalesca, popular,  representada pela "chanchada" (referência aos filmes com temática carnavalesca entre os anos 30 e 60) é  orquestrada, dirigida por quem representa o sagrado.

Nesta postagem, como não posso falar apenas de cinema, mas também da mulher, vale destacar que o Salgueiro, é a única escola de samba que tem na presidência uma mulher. Nem vou mencionar puxadores e compostitores ou mestres de bateria...


sábado, 19 de fevereiro de 2011

I MOSTRA DE CINEMA FEMINISTA

Convidamos a todas para a I Mostra CINE FEMINISTA!

A Mostra “Cine Feminista” acontecerá em Salvador de 10 a 17 de março, em sessões diárias às 17h e 19h, na Sala Alexandre Robatto (Biblioteca dos Barris). A mostra tem por objetivo trazer, através do cinema, o feminismo de volta à cena durante o mês de março, período no qual estamos acostumadas a receber flores e celebrar nossas “conquistas”, como se as lutas feministas já tivessem atingido todos os seus objetivos.

A entrada é gratuita.

PARA MAIS INFORMAÇÕES: http://cinefeminista.wordpress.com/


PROGRAMAÇÃO:

Dia 10 (quinta-feira):

Libertárias (Libertarias)

Em 18 de julho de 1936 o exército espanhol se rebela contra o Governo da República. Seis mulheres de origens e classes sociais diferentes se organizam em um grupo de anarquistas para lutar, de igual para igual com os homens, contra as tropas nacionais. Uma freira que descobre a solidariedade fora da fé, prostitutas, operárias, etc., unidas para defender seus ideais políticos e, ao mesmo tempo, fazer entender a seus companheiros as mudanças ideológicas e sociais pelas quais elas também almejam conquistar.

Diretor: Vicente Aranda / Duração: 121 minutos / Ano de Lançamento: 1996 / País de Origem: Espanha, Itália, Bélgica

Dia 11 (sexta-feira):

Resposta de Mulheres (Réponse de Femmes)

“A pergunta ‘O que é ser uma mulher?’ foi proposta pelo segundo canal de televisão francês a várias mulheres cineastas. Este cine-panfleto é uma das respostas possíveis, no que diz respeito ao corpo das mulheres – nosso corpo –, do qual se fala tão pouco quando se fala da condição feminina. Nosso corpo-objeto, nosso corpo-tabu, nosso corpo com ou sem seus filhos, nosso sexo, etc. Como viver nosso corpo? Nosso sexo, como vivê-lo?” (Agnès Varda).

Diretora: Agnés Varda / Duração: 8 minutos / Ano de Lançamento: 1975/ País de Origem: França

Cool Hands, Warm Heart

O filme começa com uma série de eventos numa rua lotada. Mulheres num palco atuam rituais “privados”: raspar as pernas e axilas, arrumar o cabelo etc.Uma mulher tenta atrapalhar o seu “trabalho”. Ela luta para se distanciar deles, resistir as forças do hábito, mas gradualmente torna mais envolvida que gostaria de admitir. Embora ela consiga iniciar uma reação em cadeia derebelião, ela não consegue manter o momentum. Ela para antes de chegar a conclusão óbvia, e acaba no palco ela mesma.

Gênero: Curta, Experimental / Diretora: Su Friedrich / Duração: 16 minutos / Ano: 1979 / País de Origem: EUA / Idioma do Áudio: Sem áudio


Dia 12 (sábado):

Moolaadé

Em um distante povoado africano, ligado apenas pelo rádio, o costume da mutilação genital feminina (a circuncisão) é temida por todas as garotas. Seis delas, segundo a tradição, devem passar pelo ritual num determinado dia. Este é um dos passos para que elas conquistem um ótimo pretendente e tenham um casamento bem sucedido. O pavor é tanto que duas afogam-se num poço. As outras quatro buscam a proteção de Collé, uma mulher que não permitiu que sua filha fosse mutilada, invocando o “moolaadé” (proteção sagrada). O fato gera comoção e ganha adesão de mulheres e simpatizantes contrários à mutilação. Mas vários homens e membros representativos da aldeia pressionam o marido de Collé para que ela retire a proteção, nem que para isso ele tenha de chicoteá-la em público.

Roteiro e Direção: Ousmane Sembene / Origem: Senegal, França, Burkina Faso, Camarões, Marrocos e Tunísia / Duração: 119 min / Idioma: Bambara/Francês / Ano: 2004

Dia 13 (domingo):

Que Bom Te Ver Viva

O filme mistura os delírios e fantasias de uma personagem anônima (Irene Ravache) alinhavado pelos depoimentos de oito ex-presas políticas brasileiras que viveram situações de tortura. Mais do que descrever e enumerar sevícias, o filme mostra o preço que essas mulheres pagaram, e ainda pagam, por terem sobrevivido lúcidas à experiência de tortura. Para diferenciar a ficção do documentário, Lúcia Murat optou por gravar os depoimentos das ex-presas políticas em vídeo, com o enquadramento semelhante ao de retrato 3×4; filmar seu cotidiano à luz natural, representando assim a vida aparente; e usar a luz teatral, para enfocar o que está atrás do aparente: a personagem de Irene Ravache.

Gênero: Drama / Diretor: Kátia Cop e Maria Helena Nascimento / Origem: Brasil / Idioma: Português / Duração: 103 min.


Dia 14 (segunda-feira):

Um Tiro para Andy Warhol (I shot Andy Warhol)

Nos anos 60, a radical e intransigente Valerie Solanas, divulgou seu desprezo pelos homens através de seu manifesto “Associação de Destruição do Homem”. Autora de um roteiro cinematográfico, ela pediu ao genial artista pop Andy Warhol que o produzisse, mas sua negativa abalou os alicerces do seu movimento feminista de maneira inesperada.

Lançamento: 1996 (EUA) / Direção: Mary Harron / Atores: Lili Taylor, Jared Harris, Martha Plimpton, Lothaire Bluteau. / Duração: 103 min / Gênero: Drama

Dia 15 (terça-feira):

Senhoritas em Uniforme (Mädchen in Uniform)

Mädchen in Uniform conta a história de Manuela, uma jovem de 14 anos que é posta num internato feminino pela sua tia distante e fria. Tendo a sua mãe falecido, o seu pai é incapaz de cuidar dela ela é colocada naquele internato numa fase mais vulnerável da sua vida. As residentes em Podstam são tipicas adolescentes e sente um grande sentido de união entre todas e o regime que é empregue naquele internato é rigoroso, austero e sobretudo ausente de emoções. A contrabalançar este ambiente autoritarista, encontramos Fraulein von Bernbur, uma professora por quem todas as alunas nutrem uma admiração especial e que é a favor de uma relação mais maternal com as alunas. Manuela não é indiferente à sua professora e muito menos o contrário, porém ambas encontram-se num ambiente hostil, onde o formalismo e o dever moral deve falar mais alto e então os sentimentos são geridos com silêncios, olhares e pequenos gestos…

Diretor: Leontine Sagan / Elenco: Emilia Unda, Dorothea Wieck, Herta Thiele, Hedwig Schlichter / Duração: 90 min. / Ano: 1931 / País: Alemanha / Gênero: Romance / Cor: Preto e Branco


Dia 16 (Quarta-feira):

Itty Bitty Titty Committee (Turminha das Sapinhas de Tetinhas Pequeninas)

O segundo filme da diretora Jamie Babbit aborda um tema bastante raro nos filmes lésbicos, o ativismo político, mostrando o despertar da personagem Anna (Melonie Diaz) para a realidade a seu redor, a partir de sua experiência como integrante de uma grupo radical feminista, chamado C.(I).A. ou Clits In Action. Os conflitos de relacionamento e as ações políticas do grupo são mostrados com muito humor e música punk como pano de fundo.

Diretora: Jamie Babbit / Duração: 86 minutos / Ano: 2007 / Gênero: Comédia/Drama/Romance

Dia 17 (quinta-feira):

À Margem do Corpo

A história se passa no interior de Goiás, entre os anos de 1996 e 1998. Deuseli tinha 19 anos quando foi brutalmente estuprada. Impedida de realizar o aborto, encerra o primeiro ato da narrativa desaparecendo da cidade onde vivia. Meses depois, é protagonista de outro crime, só que agora como assassina da filha de 11 meses. Em um ritual, para alguns histérico, para outros satânico, Deuseli reproduz a cena do estupro e afoga a filha em uma banheira. Ela morre meses depois de causa desconhecida. Entre o estupro, o assassinato e a morte, a vida de Deuseli foi recontada por advogados, médicos e exorcistas.

Direção: Debora Diniz / Etnografia: Debora Diniz / Roteiro Etnográfico: Debora Diniz e Ramon Navarro / Direção de Produção: Fabiana Paranhos / Produção em Campo: David Chalub

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Por Amor (Personal Effects, 2009)

Informações Técnicas
Título no Brasil: Por Amor
Título Original: Personal Effects
País de Origem: EUA / Alemanha
Gênero: Drama
Classificação etária: 12 anos
Tempo de Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento: 2009
Estréia no Brasil: 03/04/2009
Estúdio/Distrib.: Imagem Filmes
Direção: David Hollander

Elenco

Michelle Pfeiffer ... Linda
Ashton Kutcher ... Walter
Kathy Bates ... Gloria
Spencer Hudson ... Clay
John Mann ... Hank
David Lewis ... Bruce
Rob LaBelle ... Paul Camden
Aleks Paunovic ... Tom Friedinger
Brian Markinson ... Henry Finneran
Sarah Lind ... Annie

Por Amor (Personal Effects, 2009) é o primeiro filme dirigido pelo diretor David Hollander, conhecido por atuar mais em TV através dos seriados Heartland e The Guardian. O filme é estrelado pela veterana Michelle Pfeiffer e o desconhecido (pelo menos para mim) Ashton Kutcher, descompasso não apenas de experiência profissional, mas, também, de geração/idade.

A narrativa dramática gira em torno dos protagonistas Linda (Michelle Pfeiffer) e Walter (Ashton Kutcher) que por viverem experiências semelhantes, apesar das diferenças entre ambos, passam a viver um romance. Embora a temática da perda esteja presente no filme, a espera é uma palavra que no final aparece repetidamente enunciada pelo personagem Hank, filho de Linda, que é surdo e mudo. Linda perdeu o marido alcoólatra assassinado a tiros, enquanto Walter vive um sentimento de culpa e revolta provocado pela morte da irmã, assassinada brutalmente por um desconhecido. Linda e Walter vivem em uma cidade não identificada no filme, mas que se caracteriza por ser climaticamente fria e estruturalmente pequena. O título do filme em português tem pouco a ver com o título original, como quase sempre acontece. O que literalmente poderia ser traduzido como “efeitos pessoais”, recebe um verniz sentimentalista e clichê, aliás, nada mais clichê do que as frases sentimentalistas, e se transforma em Por Amor, no Brasil. Contudo, efeito pessoal corresponde muito mais ao tema proposto para mostrar o efeito que as tragédias desencadeiam na vida das pessoas, ou ainda, como a violência generalizada, sobretudo de gênero (já que uma das mortes envolve uma mulher encontrada nua sobre as pedras) afeta cruelmente a vida das pessoas. Assim, a história de amor atravessa a narrativa fílmica nada mais é do que um recorte, um aspecto do filme, já que os protagonistas Linda – uma mulher viúva, de meia-idade, com um filho surdo-mudo, que trabalha com eventos para casamento – e Walter – um rapaz de aproximadamente vinte e cinco anos, que mora com a mãe (divorciada do marido que se casa novamente no filme) e a sobrinha, que trabalha em uma empresa fazendo propaganda na rua vestido de pássaro, introspectivo, atleta de lutas marciais – antes de viverem um relacionamento amoroso, trazem consigo uma carga de sofrimento muito grande, o que torna, inclusive, a aproximação de ambos possível.

Para além da questão da violência (e do desgosto) que é o elemento desencadeador do encontro e envolvimento dos protagonistas, o filme coloca em tensão a relação entre pessoas de idades/gerações diferentes, mas que, para além das assimetrias identitárias, se tocam naquilo que as une: o sofrimento da perda. Neste sentido, o filme busca minimizar as diferenças para focar nas semelhanças, talvez porque a relação entre pessoas de idades diferentes, sobretudo quando a mulher é mais velha, ainda provoque algum mal-estar. Porém, apesar das personagens não externalizarem abertamente as suas diferenças geracionais, existem veladamente marcas que apontam para um conflito de idades.

Enquanto Linda mostra-se apaixonada por Walter e externa isso, Walter parece sentir o peso de um envolvimento maior, já que durante a declaração de amor de Linda, ele a interrompe com um simples “Linda...” com entonação suplicante, mas ele não chega a completar a frase, pois ela retoma o turno e segue dizendo o quão ele é importante para ela e para o filho. Linda várias vezes sinaliza para uma estabilidade, buscando um estado de felicidade que há muito tempo não sente. E aqui me parece que temos uma aspecto importante: a ausência completa de prazer, não apenas sexual, mas, de uma alegria de viver a absorve, o que a faz lançar-se em uma aventura amorosa, muito embora, para ela, de contornos mais sérios. Daí, provavelmente, a conexão que ela estabelece com o personagem que, embora mais jovem, também tem em sua história de vida marcas cruéis, dolorosas. Ele, no entanto, que saiu de Iowa onde era atleta, e retorna a cidade natal devido a tragédia com a sua irmã, não se mostra emocionalmente tão decidido. Ao contrário: o personagem parece viver em função de uma sessão judicial que colocará em liberdade ou condenação o homem que ele supõe ser o assassino de sua irmã, mas que ao saber do veredicto e de que o homem de fato não é o assassino, fica totalmente perdido.

Walter é um homem de poucas palavras, tem dificuldades em expressar seus sentimentos. Suas raras frases são truncadas, quase monossilábicas, o que mostra não apenas introspecção, mas falta de amadurecimento. Embora o ator tenha 32 anos, o personagem pode passar por 25. Já Linda é uma mulher cuja atividade profissional lhe permite maior desenvoltura (ela organiza casamentos) ao mesmo tempo em que a coloca em uma eterna busca por um par. Ela busca se aproximar de Walter e o envolve em sua vida a começar pelo filho por quem ele passa a ter uma relação de cuidado, de proteção, um misto de pai com irmão mais velho, talvez a relação que ele deveria ter com a sua irmã. Compensação ou não, a vivência de Walter passa a ser em função do filho de Linda que, por sua vez, fortalece os laços de proximidade convidando Walter a ir a um casamento organizado por ela.

Cada vez mais envolvidos, salientando que em nenhum momento os dois aparecem fazendo parte de outros círculos de amizade, exceto a família, no caso dele, o casal passa a se ver com freqüência, criando uma atmosfera romântica, perfeita, mas que, em termos de linguagem cinematográfica, precisa ser rompida. Outro núcleo de ação mostra Walter presente no julgamento do homem que supostamente seria o agressor de sua irmã. Ele, no entanto, convicto de sua condenação, não aceita que a sentença tenha sido favorável ao homem, inocentando-o. Vale ressaltar que este homem é retardado e, de fato, inocente, acentuando o sentimento de culpa de Walter em relação a sua irmã, a quem deveria ter protegido e não um homem com limitações. Esta ação desencadeia uma instabilidade na relação entre Linda e Walter, pois, com o veredicto e sabendo que o assassino de sua irmã sequer foi encontrado – como acontece na vida real -, ele decide voltar para Iowa. Neste momento, Linda se desespera, mas sem perder a tranqüilidade, e se mostra como a pessoa mais indicada para ajudá-lo naquele momento, ao mesmo tempo em que deixa claro que o papel de Walter não é ser o seu salvador. Ela se esforça em acentuar um discurso em que ela se coloca em uma posição de poder, embora, no final do filme, ela inverta, aceitando já o afastamento dele. O casal se separa e só reaparece no casamento do pai de Walter organizado por Linda. Antes disso, o filho de Linda questiona Walter sobre a sua partida, o que desencadeará uma nova peripécia, uma nova experiência de perda para a mãe e para o filho.

Disposto a voltar para Iowa, antes disso Walter assiste ao casamento de seu pai e Linda comparece na condição de organizadora do evento. Ao ver Walter, sai rapidamente do recinto e senta-se em uma sala anexa onde passa a desenhar. Quando Walter entra, se dirige a ele com tranqüilidade, mostrando a sua importância na vida dela e do filho – a inversão - que com a ajuda dele se tornou campeão em judô e uma pessoa melhor. Ali mesmo ela se despede de Walter e lhe dá um beijo afetuoso no rosto, mostrando uma aparente aceitação. Quando ele olha o desenho esboçado, percebe que existe uma paisagem, um ambiente sem pessoas, mostrando, de forma metafórica o que representava a sua ausência na vida dela: o vazio. Walter retorna para a sala onde o casamento está acontecendo e percebe que a sua vida também não tem muito sentido sem Linda, sobretudo ao ver a felicidade das pessoas em seu entorno e da alegria de estarem juntas. Aquela visão lhe conectou aos momentos que passou ao lado de Linda e percebe que estar ao seu lado lhe confere a alegria que ele acabara de testemunhar. E sai para encontrá-la. Além disso, o fato de ter internalizado uma culpa por não estar por perto para proteger a irmã talvez tenha desencadeado um sentimento de responsabilidade diante daquelas pessoas com que tinha íntima relação.
O filho de Linda, acreditando que o afastamento de Walter está relacionado ao homem que foi julgado como agressor de sua irmã, parte para matá-lo, até porque ele havia, em outro momento, seguido Walter e presenciado a intenção dele em matar o homem. Walter chega à casa de Linda que, por sua vez, dá falta do filho e da arma. Walter sai a sua procura e o encontra de arma apontada para o homem, assim como fez Walter em cena anterior. Durante o tiro, Walter se joga contra o corpo do homem para protegê-lo e é ferido.

O filho de Linda é preso e o espectador passa a ouvir os seus pensamentos com a câmera em super close up, captando apenas os olhos. Neste momento ele fala da espera reiteradamente. Então, fazemos um retrospecto e percebemos que a espera, de fato, lastreia a narrativa: a espera de Linda por alguém que possa amar, a espera de Walter por alguém que pudesse amenizar a sua culpa, a espera de Walter sobre a sentença da morte de sua irmã, a espera do menino por alguém que pudesse compartilhar seus sofrimentos. Enfim, todos esperavam, de alguma forma, por pessoas que pudessem lhes trazer de volta a vida, que pudessem apaziguar seus espíritos dilacerados pelos infortúnios.

O filme termina com Linda sentada diante de uma mesa, fumando, visivelmente preocupada e pensativa, enquanto, da janela, aparece Walter segurando nas mãos um balde de lixo, puxando a perna ferida. Linda acena para ele com pouca emoção e assim o filme termina. Um final tão incerto quanto a relação dos dois. Um final realista, sem espetáculos, mas visceral e denso, como é a vida real de todos nós.

Neste sentido, o filme provoca uma desacomodação em relação ao que convencionalmente se espera das relações, isto é, o que a sociedade e a cultura definem como um ideal de felicidade conjugal. Em geral, a expectativa gira em torno do casamento - mesmo que não termine com a cerimônia, mas fica a sugestão - e o espectador está tão imerso nas convenções sociais, sedimentadas por outros textos e discursos, que ao se deparar com um filme em que a relação se baseia em um sentimento de reciprocidade para além de um sentimento romantizado, ou que não termine com um casal se beijando ou sorrindo espetacularmente, lhe antecipa já um fracasso. No entanto, o final rompe com o clichê, embora o título do filme em português direcione para isso, pois o final feliz mostra o casal distante fisicamente e tensos. Eles estão ligados, mas preocupados já que as suas vidas estão entrelaçadas a um evento desolador que é a prisão do filho de Linda. A tristeza visível de Linda diante da prisão do filho funde-se a alegria de ter Walter ao seu lado, o que obviamente contrasta com os finais dos filmes de amor em que quase inexiste a contradição de sentimentos. O amor, nestes filmes, reina absoluto. Em Por Amor, as emoções antitéticas são vividas ao mesmo tempo, como acontece na vida real e, talvez, o filme deva ser visto muito mais por esse ângulo, do que como uma simples história de amor coerente, harmoniosa. Embora o personagem seja bastante jovem em relação a ela, as suas experiências são muito dolorosas.

O final não poderia ser diferente: a vida não é um "mar de rosas", embora as pessoas se esforcem em torná-las melhor.

FILMES DE TEMÁTICA NATALINA

Enfim, de volta! Depois de anos de ausência, agora já aposentada, resolvi retomar a escrita e os blogs. Hábito do ofício. Ultimamente tenho ...