quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Por Amor (Personal Effects, 2009)

Informações Técnicas
Título no Brasil: Por Amor
Título Original: Personal Effects
País de Origem: EUA / Alemanha
Gênero: Drama
Classificação etária: 12 anos
Tempo de Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento: 2009
Estréia no Brasil: 03/04/2009
Estúdio/Distrib.: Imagem Filmes
Direção: David Hollander

Elenco

Michelle Pfeiffer ... Linda
Ashton Kutcher ... Walter
Kathy Bates ... Gloria
Spencer Hudson ... Clay
John Mann ... Hank
David Lewis ... Bruce
Rob LaBelle ... Paul Camden
Aleks Paunovic ... Tom Friedinger
Brian Markinson ... Henry Finneran
Sarah Lind ... Annie

Por Amor (Personal Effects, 2009) é o primeiro filme dirigido pelo diretor David Hollander, conhecido por atuar mais em TV através dos seriados Heartland e The Guardian. O filme é estrelado pela veterana Michelle Pfeiffer e o desconhecido (pelo menos para mim) Ashton Kutcher, descompasso não apenas de experiência profissional, mas, também, de geração/idade.

A narrativa dramática gira em torno dos protagonistas Linda (Michelle Pfeiffer) e Walter (Ashton Kutcher) que por viverem experiências semelhantes, apesar das diferenças entre ambos, passam a viver um romance. Embora a temática da perda esteja presente no filme, a espera é uma palavra que no final aparece repetidamente enunciada pelo personagem Hank, filho de Linda, que é surdo e mudo. Linda perdeu o marido alcoólatra assassinado a tiros, enquanto Walter vive um sentimento de culpa e revolta provocado pela morte da irmã, assassinada brutalmente por um desconhecido. Linda e Walter vivem em uma cidade não identificada no filme, mas que se caracteriza por ser climaticamente fria e estruturalmente pequena. O título do filme em português tem pouco a ver com o título original, como quase sempre acontece. O que literalmente poderia ser traduzido como “efeitos pessoais”, recebe um verniz sentimentalista e clichê, aliás, nada mais clichê do que as frases sentimentalistas, e se transforma em Por Amor, no Brasil. Contudo, efeito pessoal corresponde muito mais ao tema proposto para mostrar o efeito que as tragédias desencadeiam na vida das pessoas, ou ainda, como a violência generalizada, sobretudo de gênero (já que uma das mortes envolve uma mulher encontrada nua sobre as pedras) afeta cruelmente a vida das pessoas. Assim, a história de amor atravessa a narrativa fílmica nada mais é do que um recorte, um aspecto do filme, já que os protagonistas Linda – uma mulher viúva, de meia-idade, com um filho surdo-mudo, que trabalha com eventos para casamento – e Walter – um rapaz de aproximadamente vinte e cinco anos, que mora com a mãe (divorciada do marido que se casa novamente no filme) e a sobrinha, que trabalha em uma empresa fazendo propaganda na rua vestido de pássaro, introspectivo, atleta de lutas marciais – antes de viverem um relacionamento amoroso, trazem consigo uma carga de sofrimento muito grande, o que torna, inclusive, a aproximação de ambos possível.

Para além da questão da violência (e do desgosto) que é o elemento desencadeador do encontro e envolvimento dos protagonistas, o filme coloca em tensão a relação entre pessoas de idades/gerações diferentes, mas que, para além das assimetrias identitárias, se tocam naquilo que as une: o sofrimento da perda. Neste sentido, o filme busca minimizar as diferenças para focar nas semelhanças, talvez porque a relação entre pessoas de idades diferentes, sobretudo quando a mulher é mais velha, ainda provoque algum mal-estar. Porém, apesar das personagens não externalizarem abertamente as suas diferenças geracionais, existem veladamente marcas que apontam para um conflito de idades.

Enquanto Linda mostra-se apaixonada por Walter e externa isso, Walter parece sentir o peso de um envolvimento maior, já que durante a declaração de amor de Linda, ele a interrompe com um simples “Linda...” com entonação suplicante, mas ele não chega a completar a frase, pois ela retoma o turno e segue dizendo o quão ele é importante para ela e para o filho. Linda várias vezes sinaliza para uma estabilidade, buscando um estado de felicidade que há muito tempo não sente. E aqui me parece que temos uma aspecto importante: a ausência completa de prazer, não apenas sexual, mas, de uma alegria de viver a absorve, o que a faz lançar-se em uma aventura amorosa, muito embora, para ela, de contornos mais sérios. Daí, provavelmente, a conexão que ela estabelece com o personagem que, embora mais jovem, também tem em sua história de vida marcas cruéis, dolorosas. Ele, no entanto, que saiu de Iowa onde era atleta, e retorna a cidade natal devido a tragédia com a sua irmã, não se mostra emocionalmente tão decidido. Ao contrário: o personagem parece viver em função de uma sessão judicial que colocará em liberdade ou condenação o homem que ele supõe ser o assassino de sua irmã, mas que ao saber do veredicto e de que o homem de fato não é o assassino, fica totalmente perdido.

Walter é um homem de poucas palavras, tem dificuldades em expressar seus sentimentos. Suas raras frases são truncadas, quase monossilábicas, o que mostra não apenas introspecção, mas falta de amadurecimento. Embora o ator tenha 32 anos, o personagem pode passar por 25. Já Linda é uma mulher cuja atividade profissional lhe permite maior desenvoltura (ela organiza casamentos) ao mesmo tempo em que a coloca em uma eterna busca por um par. Ela busca se aproximar de Walter e o envolve em sua vida a começar pelo filho por quem ele passa a ter uma relação de cuidado, de proteção, um misto de pai com irmão mais velho, talvez a relação que ele deveria ter com a sua irmã. Compensação ou não, a vivência de Walter passa a ser em função do filho de Linda que, por sua vez, fortalece os laços de proximidade convidando Walter a ir a um casamento organizado por ela.

Cada vez mais envolvidos, salientando que em nenhum momento os dois aparecem fazendo parte de outros círculos de amizade, exceto a família, no caso dele, o casal passa a se ver com freqüência, criando uma atmosfera romântica, perfeita, mas que, em termos de linguagem cinematográfica, precisa ser rompida. Outro núcleo de ação mostra Walter presente no julgamento do homem que supostamente seria o agressor de sua irmã. Ele, no entanto, convicto de sua condenação, não aceita que a sentença tenha sido favorável ao homem, inocentando-o. Vale ressaltar que este homem é retardado e, de fato, inocente, acentuando o sentimento de culpa de Walter em relação a sua irmã, a quem deveria ter protegido e não um homem com limitações. Esta ação desencadeia uma instabilidade na relação entre Linda e Walter, pois, com o veredicto e sabendo que o assassino de sua irmã sequer foi encontrado – como acontece na vida real -, ele decide voltar para Iowa. Neste momento, Linda se desespera, mas sem perder a tranqüilidade, e se mostra como a pessoa mais indicada para ajudá-lo naquele momento, ao mesmo tempo em que deixa claro que o papel de Walter não é ser o seu salvador. Ela se esforça em acentuar um discurso em que ela se coloca em uma posição de poder, embora, no final do filme, ela inverta, aceitando já o afastamento dele. O casal se separa e só reaparece no casamento do pai de Walter organizado por Linda. Antes disso, o filho de Linda questiona Walter sobre a sua partida, o que desencadeará uma nova peripécia, uma nova experiência de perda para a mãe e para o filho.

Disposto a voltar para Iowa, antes disso Walter assiste ao casamento de seu pai e Linda comparece na condição de organizadora do evento. Ao ver Walter, sai rapidamente do recinto e senta-se em uma sala anexa onde passa a desenhar. Quando Walter entra, se dirige a ele com tranqüilidade, mostrando a sua importância na vida dela e do filho – a inversão - que com a ajuda dele se tornou campeão em judô e uma pessoa melhor. Ali mesmo ela se despede de Walter e lhe dá um beijo afetuoso no rosto, mostrando uma aparente aceitação. Quando ele olha o desenho esboçado, percebe que existe uma paisagem, um ambiente sem pessoas, mostrando, de forma metafórica o que representava a sua ausência na vida dela: o vazio. Walter retorna para a sala onde o casamento está acontecendo e percebe que a sua vida também não tem muito sentido sem Linda, sobretudo ao ver a felicidade das pessoas em seu entorno e da alegria de estarem juntas. Aquela visão lhe conectou aos momentos que passou ao lado de Linda e percebe que estar ao seu lado lhe confere a alegria que ele acabara de testemunhar. E sai para encontrá-la. Além disso, o fato de ter internalizado uma culpa por não estar por perto para proteger a irmã talvez tenha desencadeado um sentimento de responsabilidade diante daquelas pessoas com que tinha íntima relação.
O filho de Linda, acreditando que o afastamento de Walter está relacionado ao homem que foi julgado como agressor de sua irmã, parte para matá-lo, até porque ele havia, em outro momento, seguido Walter e presenciado a intenção dele em matar o homem. Walter chega à casa de Linda que, por sua vez, dá falta do filho e da arma. Walter sai a sua procura e o encontra de arma apontada para o homem, assim como fez Walter em cena anterior. Durante o tiro, Walter se joga contra o corpo do homem para protegê-lo e é ferido.

O filho de Linda é preso e o espectador passa a ouvir os seus pensamentos com a câmera em super close up, captando apenas os olhos. Neste momento ele fala da espera reiteradamente. Então, fazemos um retrospecto e percebemos que a espera, de fato, lastreia a narrativa: a espera de Linda por alguém que possa amar, a espera de Walter por alguém que pudesse amenizar a sua culpa, a espera de Walter sobre a sentença da morte de sua irmã, a espera do menino por alguém que pudesse compartilhar seus sofrimentos. Enfim, todos esperavam, de alguma forma, por pessoas que pudessem lhes trazer de volta a vida, que pudessem apaziguar seus espíritos dilacerados pelos infortúnios.

O filme termina com Linda sentada diante de uma mesa, fumando, visivelmente preocupada e pensativa, enquanto, da janela, aparece Walter segurando nas mãos um balde de lixo, puxando a perna ferida. Linda acena para ele com pouca emoção e assim o filme termina. Um final tão incerto quanto a relação dos dois. Um final realista, sem espetáculos, mas visceral e denso, como é a vida real de todos nós.

Neste sentido, o filme provoca uma desacomodação em relação ao que convencionalmente se espera das relações, isto é, o que a sociedade e a cultura definem como um ideal de felicidade conjugal. Em geral, a expectativa gira em torno do casamento - mesmo que não termine com a cerimônia, mas fica a sugestão - e o espectador está tão imerso nas convenções sociais, sedimentadas por outros textos e discursos, que ao se deparar com um filme em que a relação se baseia em um sentimento de reciprocidade para além de um sentimento romantizado, ou que não termine com um casal se beijando ou sorrindo espetacularmente, lhe antecipa já um fracasso. No entanto, o final rompe com o clichê, embora o título do filme em português direcione para isso, pois o final feliz mostra o casal distante fisicamente e tensos. Eles estão ligados, mas preocupados já que as suas vidas estão entrelaçadas a um evento desolador que é a prisão do filho de Linda. A tristeza visível de Linda diante da prisão do filho funde-se a alegria de ter Walter ao seu lado, o que obviamente contrasta com os finais dos filmes de amor em que quase inexiste a contradição de sentimentos. O amor, nestes filmes, reina absoluto. Em Por Amor, as emoções antitéticas são vividas ao mesmo tempo, como acontece na vida real e, talvez, o filme deva ser visto muito mais por esse ângulo, do que como uma simples história de amor coerente, harmoniosa. Embora o personagem seja bastante jovem em relação a ela, as suas experiências são muito dolorosas.

O final não poderia ser diferente: a vida não é um "mar de rosas", embora as pessoas se esforcem em torná-las melhor.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Violência e resignação das personagens femininas

Alguns filmes voltados para o público juvenil têm me chamado a atenção pelo grau de violência física e simbólica contra a mulher e a resignação delas diante da situação. Um dos filmes, Crepúsculo, é um convite a aceitação da mulher à violência que incide contra ela, baseando-se, muito certamente, na cultura patriarcal que insiste em atribuir às mulheres a missão de converter hostilidade e ódio em amor incondicional. Esse pensamento não é novo, mas nunca é demais mostrá-lo sempre que ele aparece, principalmente em se tratando de um veículo moderno - na acepção de que foi inventado na modernidade- e poderoso como o cinema.

Uma das cenas emblemáticas sobre o tema no filme Crepúsculo ocorre quando a protagonista, Bella Swan (Kristie Stwart)diz não importar-se em estar diante do "pior predador do mundo". Ele se mostra altamente perigoso, mas ela parece não perceber o risco e insiste em acreditar que o amor que sente poderá transformar o objeto amado.

Outra cena de filme cuja personagem feminina aparece como "cordeiro imolado", no ápice de seu sacríficio, é X-men: o confronto final, quando Phoenix pede a Wolverine que a mate, ou melhor, a salve, como se estivesse sob domínio de algum mal. O homicídio é justificado de duas formas no filme: primeiro porque ela pede, portanto autoriza, segundo porque existe um mal a ser extirpado da sociedade. Assim, a morte da personagem é aceita por todos porque a personagem é uma ameaça para a humanidade e, claro, o espectador fazendo parte desta, torce para que o heroi cumpra a sua missão. O mal vem metamorfoseado em mulher. Nada de novo. O que me chama a atenção é que alguns estudiosos, homens e mulheres, poucos para a nossa felicidade, insistem em dizer que o patriarcado morreu. Eu, muito particularmente, não consigo vislumbrar essa paisagem.

Para não perder o ritmo, temos ainda no filme Wolverine: o filme, uma outra situação de volência e, também, aceita resignadamente pela mulher. Wolverine fere a sua companheira enquanto dorme e quando ele preocupadamente percebe o ferimento, ela faz um gesto que o tranquiliza, como se não se importasse com o "incidente". A paisagem bucólica do Canadá, no alto das montanhas, bem ao gosto do love in a  cabin, favorece a construção de uma imagem harmoniosa, tranquila, e a ação do personagem, que poderia fissurar essa representação prazerosa, idílica, paradisíaca, é imediatamente dissolvida na recepção da mulher. Não é o homem que deve controlar os seus supostos impulsos naturais (que, diga-se de passagem todo ser humano possui), mas é a mulher que deve abosorvê-lo a fim de não alterar a ordem, o estado das coisas. A questão é que um aspecto natural, do ser humano, é apresentado como sendo uma especificidade do macho - a defesa - retirando da mulher a sua participação nesse universo igualmente contraditório, conflituoso, do qual participam todas as pessoas. Ao conferir apenas ao macho um agressividade natural, dá-se liberdade maior ao homem de negociar mais abertamente e livremente com as forças confliutuosas, cabendo à mulher "sufocar" as suas, escondendo-as para apenas mostrar o que interessa a sociedade patriarcal que ela demonstre. O curioso é que, quando a mulher enfim aprende a exorcizar a sua agressividade, expô-las, inclusive, tal gesto é visto de forma negativa, pouco feminina. Em se tratando da atualidade, um movimento parece nos confundir mais ainda, pois vivemos em uma atmosfera discursiva de valorização das atitudes pacificadoras, mediadoras, conciliadoras, que, por sinal, as mulheres aprenderam muito bem ao longo dos séculos, mas que foram orientadas ao longo dos anos a se comportarem diferentemente porque aquelas atitudes forjavam uma feminilidade que muitas mulheres não queriam alimentar. Com o intuito de romper com a imagem de bem comportada, as mulheres passaram a mostrar também  agressividade.
Voltando para a saga vampiresca, há uma cena em Lua Nova que mostra também a anuência da "vítima" em relação ao agressor. Ocorre quando Sam (o alfa dos lobos)fere o rosto de sua noiva, transfigurando-o. Neste dois últimos filmes, os ferimentos foram decorrentes de uma ação inconsciente do agressor (durante o sono ou transformação), o que significa dizer que os homens não fizeram intencionalmente, mas em um momento em que eles não podiam responder pelos seus atos por estarem dormindo ou por estarem "enfeitiçados". Hoje em dia não são raros os casos em que as mulheres atribuem às forças malignas as ações violentas dos homens, desculpando-os das agressões por estarem "possuídos" por entidades, responsáveis pelo delito.

Esses são quatro dos filmes que eu me recordo neste momento, cuja temática trata da violência contra a mulher, e que são dirigidos para um público que está em formação, em busca de referências identitárias. São filmes que mostram um homem descontrolado, agindo por instinto, e mulheres resignadas, pacificadoras, que tentam contornar a situação a fim de permanecer ao lado deles, ainda que isso lhes custem a vida. Impressionante como as mulheres são representadas reforçando o mito sacrifical, sendo elas as imoladas em prol do amor, isto é, em favor do discurso amoroso que não só ajuda a manter a ordem patriarcal, como ele próprio - o discurso - representante da base ideológica, simbólica que mantém esse modelo de sociedade.

domingo, 28 de novembro de 2010

CORALINE, de Henry Selick, 2009

Escrever sobre animação será mais freqüente entre as minhas análises fílmicas, já que estou envolvida com disciplinas e projeto de pesquisa que favorecem o estudo de filmes feitos para o público infantil e juvenil, o que, obviamente, não tira a seriedade da abordagem, do estudo. Já tinha, em outra postagem, feito uma leitura de Alvin e os Esquilos 2, de Betty Thomas. Como  direção de mulheres em animação é bem mais rara, decidi postar um reflexão sobre um filme dirigido por um homem, mas cuja protagonista é uma menina.

O filme de animação de Henry Selick é todo feito a partir da técnica stop motion que utiliza modelos reais – em geral massas de modelar – e que são filmados quadro-a-quadro, em linguagem cinematográfica, fotograma por fotograma. É uma dessas animações que nos chama a atenção não apenas pela técnica, mas pelo tema e tratamento dado a ele. Coraline nos remete ao ambiente gótico, misterioso, com doses de suspense e terror. O traço longuíneo do desenho faz referência ao estilo gótico, reforçando o caráter sombrio e de perigo à sua personagem. É um filme ambientado em uma atmosfera sombria, lúgubre, quase toda escura, bem dentro da proposta do romance do escritor britânico Neil Gaiman, do qual o filme foi adaptado.

O filme pode ser resumido da seguinte forma: Coraline muda-se com seus pais para uma velha mansão intitulada Casa Cor-de-Rosa (como ocorre também com As Crônicas de Spiderwick, cuja família também se muda para uma mansão quase em ruínas). Coraline é filha única de um casal que é mostrado sempre em atividade profissional. A visão que a personagem tem de sua família é a que se quer passar para o espectador: pais muito atarefados com seus projetos profissionais e que pouca atenção é dada a ela. O ponto de vista da menina chega aos olhos do espectador que não leva muito tempo para perceber que ela está insatisfeita com a forma que seus pais a tratam e que, por isso, cobra mais atenção dele. Ela também põe em questão o modelo familiar em que vive, com papéis de gênero não tão bem demarcados, já que os pais não são vistos desempenhando os papéis convencionais. Tanto a casa quanto o jardim estão abandonados, pois os pais estão envolvidos com o trabalho.

Na concepção da protagonista, os pais deveriam dar mais atenção a ela, assim como a casa e o seu entorno. Curiosamente, os dois realizam as atividades profissionais em casa, colocando em questão a divisão sexual dos espaços de trabalho em pública e privada, já que ambos estão no mesmo espaço. Porém, a questão não é mais espacial, mas diz respeito agora a busca de equilibro entre as atividades profissionais e as atividades familiares. O curioso é que na divisão das tarefas domésticas, o pai fica responsável em fazer as refeições, o que é questionado pela filha, pois não gosta do tipo de comida que o pai prepara, chegando mesmo a questionar o motivo pelo qual a sua mãe não a faz. Na divisão das tarefas, explica a mãe, o pai ficou com esta parte. De certa forma, a mãe aparece no desenho com atitude mais positiva do que o pai, meio desligado e apático.

Neste ínterim, Coraline tem acesso a uma boneca que é a sua semelhança, mas que possui botões no lugar de olhos. O desejo de Coraline é que seus pais possam lhe dar mais atenção e por conta disso, ela chega a desejar outro tipo de arranjo familiar. O cartaz do filme é emblemático: uma porta que lança uma rajada de luz em seu rosto que encantado e ao mesmo tempo surpreso encara a passagem como um meio para alcançar o seu desejo. A frase: “be careful what you wish for” destaca exatamente a palavra “desejo” (wish) e “careful” (cuidado), apontando para um possível perigo por desejar algo que não possui. Ao atravessar uma porta encantada, Coraline entra em contato com outra casa na qual está uma cópia dos seus pais, porém com botões no lugar de olhos. Esta casa é vista, a princípio, limpa, arrumada, decorada, e seus pais cumprindo as tarefas tradicionais de gênero: a mãe cuidando da casa e o pai do jardim todo desenhado na forma de seu rosto. O problema é que toda aquela “perfeição” sufoca Coraline que, extremamente paparicada pelos pais, passa a ficar aterrorizada com o excesso de zelo, de presença dos dois. Uma presença sinistra que a apavora. Percebe que a mãe “perfeita” é uma mulher má e o seu pai “perfeito” é um fantoche nas mãos da esposa. Depois de mil peripécias, Coraline consegue escapar do mundo dos “botões” e volta para a sua verdadeira casa na qual passa a ter outra visão de seus pais. A forma pela qual Coraline passa a vê-los, quando “retorna” do mundo aterrorizante paralelo, faz com que os enxreguem de forma mais complacente e esta percepção é mostrada ao espectador diante da mudança de comportamento dos pais. Os pais mudaram ou a filha passou a vê-los de forma diferente motivada pelo contato com outra experiência?

O protagonismo de Coraline chega a ser marcante, já que trata de uma menina que atravessa praticamente sozinha as desventuras de encontrar o ponto de equilíbrio entre aquilo que deseja e o que tem de fato, levando-a a ser mais indulgente com os pais. Do ponto de vista de gênero, o filme avança ao trazer uma menina auto-suficiente, mas que vive também as limitações de sua idade. Forte e determinada a conseguir realizar o seu desejo, Coraline mostra-se também impotente ao perceber que não tem ainda maturidade para enfrentar certos obstáculos. Imprensada e sem liberdade em seu mundo mágico e “perfeito”, volta-se para a realidade e percebe nele a alegria de ser livre, com todas as imperfeições.



título original:Coraline
gênero:Animação
duração:1 hr 41 min
ano de lançamento: 2009
direção: Henry Selick
roteiro: Henry Selick, baseado em livro de Neil Gaiman
produção: Claire Jennings e Mary Sandell
música: Bruno Coulais e They Might Be Giants
fotografia: Pete Kozachik
direção de arte: Phil Brotherton, Jamie Caliri, Tom Prooste e Dawn Swiderski
figurino: Phil Brotherton, Jamie Caliri, Tom Prooste e Dawn Swiderski
edição: Christopher Murrie e Ronald Sanders
efeitos especiais:Gentle Giant Studios

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

VERSÃO MAIS RECENTE DE CHAPEUZINHO VERMELHO



A diretora do filme Crepúsculo (Twilight), Catherine Hardwick, vai lançar o seu mais novo filme intitulado  "Red Riding Hood", em português A Garota da Capa Vermelha (ou seja Chapeuzinho Vermelho, nome possivelmente substituído por aludir ao conto infantil e o filme parece ter outra proposta).

Vivemos um momento de revisitação aos textos que fazem parte do imaginário ocidental, o que pode facilitar o sucesso de bilheteria de um filme, levando o espectador mais facilmente a adesão (ou até mesmo identificação), pois verá no filme elementos reconhecíveis, que façam sentido.

Um dos sentidos se dá pela referência ao conto Chapeuzinho Vermelho, mas há também referência ao mito do amor romântico com os seus mitologemas: o amor proibido, o mistério, o perigo, a disputa, entre outros. Somado a tudo isso, temos o elemento fantástico.  

A protagonista nos faz lembrar tantas outras personagens centrais. A questão é: o filme funciona como escape ou como sedimentação do que já existe? Por que ativar a memória coletiva a partir de uma narrativa popular onde as mulheres correm riscos e são disputadas por homens? Que tipo de discurso de empoderamento é este? O que temos no nosso mundo real que faz lançar os jovens a narrativas seculares permeadas de herois e heroinas, de bons e maus, de desejos aparentemente irrealizáveis, mas que ao final são alcançados? O que essas narrativas trazem de novo (além dos efeitos especiais) e que possam responder às expectativas dos jovens hoje?

terça-feira, 9 de novembro de 2010

SOMONE DE BEAUVOIR NO CINEMA DE ANIMAÇÃO

Em um dos clássicos do cinema de animação produzido nos anos 80, Uma Cilada para Rober Rabitt, (Who Framed Roger Rabbit, 1988), dirigido por Robert Zemeckis, há uma referência à célebre frase da feminista Simone de Beauvoir. A conhecida frase é: Não se nasce mulher, torna-se mulher que virou base para a discussão de gênero, distinguindo as diferenças sexuais (aspecto biológico) das desigualdades de gênero (papéis sociais/cultura) . No filme, a personagem Jéssica, uma retextualização da versão Gilda para o desenho de animação, pronuncia parodísticamente o mote beauvariano: "Eu não sou má, apenas me desenharam assim". Assim como a teórica francesa aponta para uma dessencialização dos papéis sociais, dizendo que as mulheres são constructos sociais, o enunciado da personagem feminina no filme, faz referência também ao aspecto cultural, que passa pelo olhar de quem desenha as personagens. No entanto, existe na fala da personagem, a meu ver, um certo determinismo irônico, na medida em que, depois de pronta, a personagem cumpre o seu destino dentro de uma estrutura (social) interna do filme, que está na base do pensamento ocidental cristão que é o maniqueísmo atrelado ao gênero (mulher-anjo x mulher-demônio), mas fazendo de uma forma que soa como uma crítica, pois ela tem consciência de que os seus autores são os responsáveis pela sua conduta, eximindo-se de qualquer responsabilidade dos seus atos, o que pode parecer estratégico dentro do manual de sobrevivência.

A mulher no plano real, embora seja um constructo social, ela pode reverter a sua condição, mas a personagem é resultado da ação direta do homem, que a prende entre os seus valores de gênero, o pincel e o papel. A personagem não se rebela contra o seu criador porque é uma construção deste. E a menos que os criadores mudem a sua visão, as personagens continuarão respondendo às significações de quem as desenha, lhes dá vida dentro de uma estrutura social. É com base nisso que Jéssica ironicamente devolve aos seus criadores o veneno que a moldou, ao referir-se, em um jogo metalinguístico, ao próprio fazer artístico, mostrando que o desenho é uma representação, um constructo que reflete e refrata as regras sociais.  

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Luz, Câmera... Ação Mulher!

Em novembro: Ação Mulher - IV Festival do Audiovisual

A Mostra Competitiva de Vídeo e Curta Metragem recebe inscrições até dia 19 de novembro.

Propiciar um panorama da produção audiovisual realizada por mulheres do Brasil, Portugal e países da África lusófona. Este é o objetivo do Ação Mulher - IV Festival do Audiovisual, uma realização da Curinga Produções Artísticas e do SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia. O evento ocorrerá de 22 a 27 de novembro de 2010, no Recife, Pernambuco.

Em sua quarta edição, o Festival promove a 1ª Mostra Competitiva de Vídeo e Curta Metragem para cineastas e produtoras de audiovisual brasileiras, portuguesas e países da África Lusófona. Até dia 19 de novembro estarão abertas as inscrições para os/as interessados/as em participar da Mostra. Poderão se inscrever obras onde mulheres sejam integrantes da equipe principal (direção, roteiro, montagem, fotografia, produção, dentre outras) e cujas temáticas enfoquem as conquistas das mulheres em prol da autonomia, independente de raça, etnia, classe social e nacionalidade.

“A mulher pode ter participado do filme em qualquer função, diretora, roteirista, produtora, o importante é que exista uma ou mais mulheres na equipe”, esclarece a idealizadora do evento, a escritora e produtora cultural Maria Áurea Santa Cruz, que assina a direção do Festival. O ineditismo dessa proposta é apresentar para o público do Nordeste do Brasil o cinema feito por mulheres de três continentes marcando uma nova perspectiva da produção audiovisual, como fator catalisador de integração e reflexão desse trabalho, tanto em película, como em vídeo digital, provocando uma discussão sobre a presença da mulher na sociedade, seu universo cotidiano, as questões culturais de ordem étnica e de empoderamento político.

O Regulamento e a Ficha de Inscrição da Mostra de Vídeo e Curta Metragem estão disponíveis no site oficial do Festival (www.audiovisualmulher.com) e no site do SOS Corpo (www.soscorpo.org.br). Os prêmios conferidos às categorias Vídeo e Curta Metragem somam R$ 12.000,00 (doze mil reais). Distribuídos da seguinte forma: Categoria Vídeo - 1º Lugar: R$ 2.000,00; 2º Lugar: R$ 1.500,00; 3º Lugar: R$ 1.000,00. Já na Categoria Curta Metragem os valores são: 1º Lugar – R$ 3.500,00; 2º Lug ar – R4 2.500,00; 3º Lugar – R$ 1.500,00.

Além da Mostra, o Ação Mulher - IV Festival do Audiovisual abrange em sua programação: oficinas, palestras, debates, formação de novas plateias e reflexão sobre a relação de gênero – tudo pensado para debater o olhar e o posicionamento da mulher no universo audiovisual e na sociedade.

OFICINAS - A programação do Festival abrange a Oficina de Interpretação para Cinema e Vídeo, que será ministrada por Cibele Santa Cruz, e a Oficina de Produção, Roteiro e Direção, pela Equipe de Produção Stellla Zirmmerman. A Oficina de Interpretação para Cinema e Vídeo tem como objetivo despertar a educação artística do audiovisual. O participante poderá observar o seu próprio crescimento percebendo nuances de interpretação que são necessárias para a comunicação nessa linguagem. Já a Oficina de Produção, Roteiro e Direção, intitulada “O Olhar dos Outros”, pretende estimular a percepção de seus participantes e criar espectadores mais maduros e analíticos para uma recepção imagética com exercícios práticos e teóricos, fundamentais a realização do audiovisual. Essa aprendizagem irá resultar na produção de um curta-metragem de ficção, em sistema HDV (vídeo digital de alta definição) a ser realizado pela equipe, com base num argumento, fruto de um pequeno conto literário. As inscrições nas oficinas são gratuitas e já podem ser feitas no site www.audiovisualmulher.com

HOMENAGEM – Em 2010, o Ação Mulher prestará homenagem a três mulheres: Tarciana Portella, Chefe da Representação Regional do Ministério da Cultura, cineasta, jornalista e poeta brasileira que dedica sua arte à cultura de Pernambuco e do Nordeste; Vera Baroni,
Advogada com especialização em Direito do Trabalho, Direitos Humanos e Saúde Coletiva, representante da Rede de Mulheres de Terreiro de Pernambuco; Rose Marie Muraro, intelectual, feminista, escritora e editora publicou diversos livros inovadores do ponto de vista dos valores sociais modernos. Esta edição do Festival também vai ressaltar datas marcantes para o feminismo, como os 100 anos da passeata organizada, em 19010, pela professora Deolinda Daltro, uma das sufragistas brasileiras, fundadora do Partido Republicano Feminino que defendia a extensão do voto às mulheres, como elemento através do qual pudesse ser reformada, a situação política na “Republica Velha”. Este ano comemora-se os 50 anos da visita ao Recife (em 1960) da famosa escri tora francesa Simone de Beauvoir, autora do livro “O Segundo Sexo” uma obra vasta, dividida em dois volumes, bem documentada e alicerçada na lógica e no conhecimento da condição feminina. E ainda os 40 anos da marcha organizada por mulheres norte-americanas, em 26 de agosto de 1970, quando milhares de mulheres foram às ruas em Nova York, Washington, Boston, Detroit e várias outras cidades do país lideradas pela feminista Betty Friedam.

HISTÓRICO - Idealizado pela escritora, produtora cultural e feminista Maria Áurea Santa Cruz em parceria com a REC Produtores, o Ação Mulher - Festival do Audiovisual teve sua primeira versão em 2003, na cidade do Recife, sendo o primeiro no gênero a ser realizado no país com uma programação voltada para a produção de cineastas brasileiras. No ano de 2004, o Ação Mulher foi reeditado acontecendo novamente nos dias 08, 09 e 10 de março. Nos anos de 2005, 2006 o Festival do Audiovisual Ação Mulher foi interrompido com a ida da produtora Maria Áurea, para uma temporada de dois anos na cidade de Nova York. O III Festival do Audiovisual Ação Mulher aconteceu nos dias 16, 17 e 18 de junho de 2008. Foram ministradas três oficinas de produtos audiovisuais para mulheres do meio popular e jovens em vulnerabilidade social. Depois de cumprir três ediçõ es voltadas para valorização e divulgação de iniciativas culturais de mulheres brasileiras realizadoras na área do audiovisual, agora em 2010, o Ação Mulher - IV Festival do Audiovisual amplia sua programação e estende suas fronteiras para além do Brasil.

Informações
Contato: Izolda Pedrosa
Telefones: (81) 9632-0204 e (81) 3087-2077
Assessoria de Comunicação
SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia
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domingo, 7 de novembro de 2010

A "RETOMADA": PARA QUEM?

A ANCINE – Agência Nacional de Cinema - publicou através da OCA – Observatório de Cinema e Audiovisual, dados relevantes sobre os longas-metragens do Brasil comercializados entre o período de 1995, ano que se convencionou chamar de “retomada”, até 2009. Foram 621 longas-metragens ao todo:





Anexo I

A “retomada”, embora pese a favor das mulheres, já que elas abrem este período (Márcia Soberg e Carla Camurati), ainda não possibilitou a equiparação entre a produção fílmica de homens e mulheres. Conforme os dados da ANCINE, percebemos a discrepância dos números ao compararmos a quantidade da produção dirigida por homens em relação às dirigidas por mulheres. Os dados são desoladores, pois mostram uma diferença absurda entre ambos, chegando mesmo a quase nulidade de filmes dirigidos por mulheres, como ocorre em 1999 quando dos 28 filmes lançados, apenas 01 foi de uma mulher. Os diretores se mantêm com alta produtividade e detêm SEMPRE mais de 70% da produção. As mulheres NUNCA chegaram a 30%, já que o seu melhor ano foi em 2005, quando atingiram 28%. Isto porque apenas a categoria sexo foi usada como critério para compor a tabela. Certamente, se outros aspectos fossem considerados, como os étnico-raciais, geração, sexualidade e a classe social dessas mulheres o resultado seria outro, não menos desolador. Em relação à Bahia, vale ressaltar que não existem cineastas baianas com produção lançada comercialmente. Dos 621 filmes, apenas 05 são de diretores (homens) baianos (Jorge Alfredo, Lucas Bombozzi, Edgard Navarro, José Araripe Jr. e Marcelo Rabelo). Além da assimetria de gênero, alarmante pelos dados da ANCINE, a Bahia ainda convive com a disparidade regional, não chegando sequer a 1% (0,80%) da produção comercializada nacionalmente, isto sem contar com a fraca arrecadação. Samba Riachão (2004), de Jorge Alfredo teve um público de 1.330 pessoas; Do outro Lado do Rio (2006), de Lucas Bombozzi, não teve dados de arrecadação divulgados; Eu me lembro (2006), de Edgard Navarro, levou 15.094 às salas de exibição; Esses moços (2007), de Araripe Jr. contou com 2.693 espectadores e, por fim, Batatinha, poeta do samba (2009), de Marcelo Rabelo conseguiu levar 221 pessoas ao cinema.

Apenas para mencionar comparativamente outro país da América Latina, o Cine Cuba cadastrou em seu site 116 cineastas, sendo que 101 homens e 15 mulheres. Em termos percentuais significa dizer que, em Cuba, os homens detêm 87,06% e as mulheres apenas 12,93%.

FILMES DE TEMÁTICA NATALINA

Enfim, de volta! Depois de anos de ausência, agora já aposentada, resolvi retomar a escrita e os blogs. Hábito do ofício. Ultimamente tenho ...